Logo

O jornalismo do futuro

WhatsAppFacebookLinkedInX
10.08.2020 - 16:29:43

O jornalismo do futuro entenderá a importância da interatividade. A pandemia do novo coronavírus impôs inúmeras mudanças em nossos comportamentos, desde o constante cuidado com a higiene pessoal e do local até a necessidade de adotar-se a tecnologia como máxima em nossas vidas, seja lá qual for a área de atuação. Inegável que a internet tornou-se necessidade, e adaptar-se a ela, inclusive para o jornalismo, requer entendimento da conduta de seus consumidores diante de smartphones, desktops ou tablets. Isto, por enquanto, o jornalismo ainda não compreendeu. Não, pelo menos, como deveria.
 
Na academia, estuda-se em excesso a prática da profissão na web, mas em visão muito mais apaixonada do que analítica. Heródoto Barbeiro e Paulo Rodolfo de Lima, autores do livro Manual de Jornalismo para Rádio, TV e Novas Mídias, enfatizam a amplitude “democrática” possibilitada pelo fenômeno da internet. Este acesso, porém, é limitado à parcela da população brasileira e ainda muito pouco acessível para a população em geral. O jornalismo ainda pensa que seu consumidor é quem deve adaptar-se à sua prática e não o contrário.
 
De maneira geral, tratar a web como um ambiente democrático cujas vozes ecoam nos mais variados campos de debate é tão falacioso quanto pensar que fatos são opiniões. Em exemplo simples, falar à internet, uma extensão da vida humana, é como parar diante de uma porta, sem saber bem se existe alguém do outro lado, e começar a opinar sobre tudo e todos. Pode ser que, em algum momento, alguém passe ali do outro lado e concorde ou discorde da argumentação proferida. Mas isto é ser escutado ou apenas um aprazimento pela possibilidade de sê-lo?
 
O jornalismo e os jornalistas precisam esquecer a visão apaixonada das infindáveis possibilidades diante do advento web. Hoje, deve-se falar em interatividade. As principais e mais bem-sucedidas (Spotify, Netflix, Instagram e afins) plataformas do mundo apostaram nisso e obtiveram tão somente retorno e apoio de seus consumidores ao investir em pautas identitárias e enxergar a web muito além do poder de amplificação de mensagens. Como uma extensão da vida humana, a internet expande nossa capacidade de interação e isso é o que torna sua existência tão gostosa e necessária.
 
Esqueçam gatekeepers e os moldes antigos do jornalismo. Hoje, sobretudo, deve-se apostar no entendimento de seu consumidor e enxergar o produto final sempre sob a ótica de quem o lê. Assim, cria-se plataformas acessíveis, com possibilidades de escolha por editorias, adaptadas a smartphones, tablets e desktops e à nova vida. Não há porque forçar pessoas a se adaptarem ao jornalismo quando este é quem tem a obrigação de entender a experiência de seus usuários.
 
Não há, também, motivo para desmerecer a incrível obra de Barbeiro e Lima, principalmente no que tange o jornalismo em novas mídias, visto que, com a visão de anos atrás, ainda entendia-se pouco sobre o poder da informação nas redes. O que o jornalismo deve buscar sempre é acessibilidade, interatividade e credibilidade. Assim, ao menos é o que se espera, poderá resgatar o tesão pelo conhecimento, em perspectiva inovadora e que dá sentido à existência do leitor. Hoje, quer-se participar. Por que não também no jornalismo? 

*Théo Mariano é jornalista 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Théo Mariano

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]