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O instante da virada

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14.02.2021 - 14:15:41

Há alguns meses, comecei a folhear o livro O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. Escolhi ao acaso, talvez por uma indicação que ficou guardada na memória. Curiosamente, estava a caminho de um velório. Para quem não conhece a obra, “O ano do pensamento mágico” é uma pesquisa extensa em primeira mão sobre o luto. Cheguei ao cemitério onde um grande amigo velava a mãe em plena pandemia – um ataque cardíaco fulminante. Ele não teve tempo de se despedir, estava em outra cidade e os voos eram limitados.
 
A primeira vez que enterrei alguém, mal tinha completado uma década. Desde então, foram tantos pelo caminho que os dedos das mãos não bastam. Conheço o luto de perto. O ritual da morte, seja ela súbita ou longamente antecipada, é um velho conhecido. Por isso, não hesitei quando meu querido amigo perguntou se eu poderia comparecer à despedida final de sua mãe. Na sala ao lado, uma vítima do coronavírus aguardava sua vez de descer a terra selada a sete chaves. As portas de vidro tapadas com papelão traziam avisos bastante cinematográficos de risco biológico. Os curiosos tentavam ver pelas frestas se aquele outro cadáver era muito diferente do seu, que morrera de aneurisma, acidente de moto, velhice. Existe algo de muito espetacular na morte. Como se entrássemos em um teatro, somos dominados por uma necessidade súbita de ficar em silêncio, falar baixo. Despertamos memórias aleatórias que ativam os sentimentos às vezes mais inadequados. Vontade de rir, de gritar. Raiva, rancor.
 
O pastor falava sobre abuso de drogas entre jovens, um discurso que jamais poderia consolar um coração partido. Meu amigo e seu irmão arrastavam os olhos pelo chão. A sala estava vazia exceto por suas respectivas namoradas e um tio com sua companheira. Senti uma angústia enorme. Aquela situação violava tudo que eu sabia sobre a morte. As flores eram muitas para mascarar o cheiro. Na pandemia, não se pode morrer e ser enterrado a qualquer momento. O corpo havia esperado 2 dias pelo velório. Não havia uma profusão de gente entrando e saindo, nem os curiosos, que são donos de outros mortos, mas gostam de saber do que morreram aqueles que compartilham a data de óbito com os seus. Não havia uma bandeja de pão de queijo para a família que talvez estivesse sem comer resolvendo as ladainhas intermináveis do morrer, muito mais burocrático do que seria decente. Os minutos do velório estavam contados e havia ainda o risco biológico, que jazia ao lado como um Óvni assustador e absurdamente atraente.
 
Enquanto o pastor falava agora sobre automutilação e suicídio entre jovens, pensei em algo que Joan Didion fala logo nas primeiras páginas do livro, sobre como a vida é frágil e a morte, absurdamente inesperada. “A vida muda em um instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia termina.”
 
Tentei recordar qual havia sido a última vez que tinha falado com todas as pessoas tão caras que perdi na vida e percebi que não sei, de nenhuma delas. Nossa relação foi interrompida sem fechamento. Não houve despedida. Não pude fazer um discurso final, botar pra fora qualquer coisa de dentro que devesse ao outro, colocar um ponto final. Mesmo aqueles que seguiram o curso natural da vida, idosos, no hospital. Não tenho ideia de qual foi a última coisa que disse para eles. 
 
Para muita gente, sei que um capítulo importante no ritual da morte é o remorso. Pelo não dito, pelo não feito. Mas eu tenho perdido pessoas por mais da metade da minha vida. Cedo aprendi que a culpa não funcionava para mim e aceitei que, em qualquer momento, eu estava fazendo o melhor que eu podia. Mas ali, no calor sufocante de outubro, senti o peso acachapante de todas as culpas do mundo. Fui dominada pela tristeza de todas as famílias que não puderam completar seu ritual de despedida e viver a morte como parte natural da vida, mesmo quando ela parece injusta. De todos que sentaram para jantar e viram suas vidas viradas de cabeça para baixo. Senti por tudo que não foi dito, pelas ausências nos velórios express, pelo medo de se contaminar e morrer também, pelo buraco que uma pessoa deixa quando morre antes do tempo e não se pode fazer nada.
 
Depois de algumas semanas lutando contra o luto aterrador de Joan Didion, abandonei o livro. Não suportei a dor de reviver, pela história dela, todas as perdas que sofri, nem de antecipar as que ainda não aconteceram. No livro, Joan narra sua vida, sua perda, seu buraco. O que ela sentia. O que é o luto, o que ele faz com a gente, o que fez com ela. Tudo muito familiar, mas ler aquilo fora de um momento de ritual da morte foi para mim insuportável. A morte é o fim de um ciclo e nós aprendemos a vivê-lo de uma certa forma. Criamos mecanismos que nos confortam, tradições, espaços para o sagrado.
 
A pandemia nos tirou o direito de viver esses ciclos adequadamente. Tudo mudou. Penso nas milhares de famílias que têm seus corações partidos diariamente, seja pela Covid-19 e seus protocolos anormais de morte, seja pelo curso natural da vida que é atravessado pelas circunstâncias impostas pelos riscos biológicos.
 
Não terminei o livro de Didion, mas sei que sua jornada com o luto não acabou na última página. Nunca deixamos de sentir a morte de um amado, apenas aprendemos a conviver com a saudade e variações de sentimentos que não se encerram nunca.

*Manuela Costa é escritora e comunicóloga. Trabalha como assistente de produção na produtora brasiliense Forest Criações. É criadora do projeto Calcinha Bege, dedicado a discussões sobre a imagem corporal de mulheres no Instagram. É formada em Comunicação Social/Audiovisual pela UnB.
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por Manuela Costa

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