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O Instagram morreu

24.12.2025 - 19:56:28
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Sabe aquela sensação de que você está gritando no vazio? De que seus posts somem no buraco negro do algoritmo enquanto a mesma propaganda de curso on-line aparece pela décima vez no dia? Pois é, não é impressão sua, o Instagram morreu e as pessoas ainda não perceberam que estão velando um cadáver.
Calma, eu explico.
O Instagram não acabou como aplicativo, você ainda acessa todo dia, ainda rola o feed, ainda posta Stories, mas como rede social? Como aquele lugar onde você realmente conectava com amigos, descobria coisas legais de gente interessante, e construía comunidades genuínas? Esse Instagram foi enterrado há uns bons anos e o que sobrou foi uma vitrine corporativa disfarçada de rede social.
O Instagram é basicamente um shopping center digital onde todo mundo está tentando te vender alguma coisa. Coachquântico, infoprodutor, dropshipper, influencer vendendo curso de como ser influencer. Todo mundo virou empreendedor digital e transformou seu perfil numa página de vendas ambulante. Eu preciso xingar, sério, mas não posso.
E olha, não tenho nada contra quem vende on-line. O problema é quando uma mulher posta um vídeo de como receber marido em casa após um dia extenuante de trabalho, com outras intenções. Na postagem, o marido chega em casa e é surpreendido por uma mulher zelosa, recatada, ansiosa por sua presença juntamente com o filho, a cena continua com ela colocando uma belíssima churrasqueira de se levar à mesa e servindo a família. Tudo lindo, resolvi escrever nos comentários que ela estava de parabéns pela família e que a churrasqueira era linda, perguntei onde ela havia comprado, a resposta foi: “me chama no privado, meu marido é o representante.”
Que inocente! Eu caí na encenação.
A ironia é brutal, uma plataforma criada para conectar pessoas virou um lugar onde ninguém se conecta de verdade, se vende, se prostitui e prostitui a sua família. As conversas reais migraram para o WhatsApp, para Telegram, para grupos fechados. O Instagram virou aquele conhecido que você cumprimenta de longe, mas não para conversar.
Lembra quando seu feed era cronológico? Quando você via as coisas na ordem que as pessoas postavam? Tempos inocentes, agora, o algoritmo decide o que você vê baseado em… bem, ninguém sabe exatamente. Engajamento? Anúncios? Humor do estagiário?
E todo mundo sabe disso, por isso você vê aquele pessoal que posta Story todo dia, mas nunca responde DM, porque não estão ali para conversar, estão ali para performar, para manter a presença digital, para trabalhar o branding pessoal.
Posso te falar? Que bela porcaria.
A boa notícia é que dá para recuperar o que perdemos, só precisamos lembrar como uma rede social deveria ser:
Cronológica, meu filho! Feed em ordem de postagem. Simples assim, você vê o que as pessoas postaram quando postaram. Revolucionário, eu sei.
Pessoas, não algoritmos. O que você vê deveria ser decidido por você, não por um robô tentando maximizar seu tempo de tela para vender mais anúncio.
Comunidades reais. Grupos pequenos, interesses genuínos, conversas de verdade. Não milhões de seguidores vazios, mas dezenas de conexões reais.
Menos performance, mais autenticidade. Sabe aquelas redes antigas tipo Orkut? Tinha algo de libertador em ser cafona e ninguém ligar. A internet precisa voltar a ser um pouco mais real, feia e honesta.
Controle do usuário. Quer ver só fotos? Beleza. Quer ver vídeos? Massa. Quer bloquear todo tipo de conteúdo comercial? Deveria poder. É seu feed, não da plataforma.
Plataformas menores como Mastodon, BeReal, Discord – sim, dá para usar além de games, – ou mesmo grupos fechados no Telegram já fazem um trabalho melhor de criar conexões reais. O problema é que todo mundo fica esperando a próxima grande rede aparecer.
Enquanto isso, o velório continua. Morto, mas ainda andando, um zumbi corporativo que ninguém tem coragem de abandonar porque todo mundo está lá. Aquele argumento clássico que mantém coisas ruins vivas por décadas.
Mas talvez esteja na hora de aceitar o óbito e partir para outra, ou pelo menos parar de fingir que aquilo é uma rede social e assumir que é só mais uma ferramenta de marketing. Sem julgamento, só honestidade.
Porque se tem uma coisa pior que uma rede social morta, é continuar fingindo que ela está viva.
*Ralph Rangel é desenvolvedor de software, professor em cursos de MBA. Foi Superintendente na Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Goiás. Foi Secretário Executivo na Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia do Município de Goiânia
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por Ralph Rangel

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