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O início de uma vida portuguesa

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19.09.2011 - 12:40:23

 

 
Aquela sensação de acordar no meio da madrugada e não saber onde está. Sabe? Rolou hoje às duas horas da manhã. Nádia, você está na Pousada da Juventude, numa cidadezinha em Portugal, bem perto da Espanha, divide quarto com Bia, estudante de contábeis da UFG. Além dela, divido teto com outros tantos goianos, baianos, gaúchos, mineiros e poloneses. Sou uma dos sete mil Erasmus em Bragança. Também me veio em mente que logo que raiasse o dia eu deveria comprar um adaptador para o notebook, cabides, fazer uma linha de celular e acertar minha grade na faculdade. É isso. Agora eu tenho uma vida em Portugal. 
 
Além de tantos pensamentos e sentimentos, uma sede do cão. As três Super Bocks (tipo antarcticas daqui) que bebi na primeira socialização com os meus companheiros de pousada eram a causa. E aí lembrei que alguém me disse que poderia beber água da pia. E então corri ao banheiro. O sonho de qualquer brasileiro que acorda de ressaca na madrugada: não ter que ir à cozinha para matar aquela sede chata. Bem, agora conto para vocês como foi chegar até aqui.
 
Depois de dois dias em Lisboa (que conto numa próxima postagem), peguei um ônibus, ou autocarro (difícil me acostumar) até essa cidadezinha simpática no norte português. Bom, eu poderia contar mais da viagem, se eu não tivesse dormido cinco horas das sete que durou o percurso. Eu tenho esse dom divino de apagar em qualquer tipo de veículo. A viagem é longa, isso é bem verdade. Eu pensava: putz, sete horas eu quase chegava em São Paulo! Mas aí também lembrei que duas vezes fui para Mara Rosa de ônibus e levei o mesmo tempo para chegar à cidade do açafrão. Foi mais animador pensar em Mara Rosa. Sem desmerecer a cidade, claro.
 
Mas garanto que, o que meus olhos conseguiram ver, é uma linda paisagem. Do sul ao norte, a sensação que tenho o tempo todo é que o país é bem cuidado. É simples também, mas tudo muito bonitinho, limpinho, arrumadinho. O que posso também dizer é que esse povo não deve sentir fome. Sete horas de viagem. S-e-t-e horas e nenhuma parada pra lanchinho. Muito menos almoço. Isso significa que cheguei às 15h em Bragança de estômago vazio. 
 
Vi a placa “Pousada da Juventude”. O ônibus parou e resolvi descer ali mesmo, antes da rodoviária. Eram eu, um sonho de viver temporariamente na Europa e meus 43 kilos de mala, sozinha. Por mais que eu estivesse bem certa do que estava fazendo (me refiro ao intercâmbio), muitas borboletas no estômago. Era um medinho e fome também. Aí bateu saudade e um nó na garganta, confesso. 
 
Fiquei subindo e descendo a avenida sem saber, exatamente, o que fazer. Eu não via nenhum táxi. Sabe Anápolis num domingão? Era meio isso. Sem saber o que fazer, resolvi entrar num bar que vi e pedir uma Super Bock. Atitude de desespero. Pedi também qualquer coisa para comer. Aquilo me fez bem. Pedi um táxi ao atendente, que estava sempre ocupado jogando poker on line (achei isso bem brasileiro), quando seu amigo resolveu me dar carona. Fiquei um pouco tensa com o que ele poderia pedir em troca. Brasileira aqui facilmente é reconhecida como prostituta. Mas ele havia sido um Erasmu e só estava sendo gentil. 
 
E então, a pousada. Fui conhecendo os moradores, reencontrando os goianos, me informando sobre a cidade, a pousada, a universidade. Desfazer as malas e montar guarda-roupa é bem simbólico. O medinho ainda existia, mas misturado com muita curiosidade, agora. Mas nada que uma mesa de cozinha não resolva. É onde tudo acontece. E foi onde meu nó foi desatado. Depois de churrasco mineiro-goiano, farofa baiana, umas cervejinhas e conversar com os colegas, as coisas ficaram mais leves e fiquei mais entusiasmada. Bem, é esse o início. Vou cuidar daquela listinha de afazeres do primeiro parágrafo e nos vemos na próxima postagem.
 
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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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