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O início da carreira internacional de Eleazar de Carvalho

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20.10.2020 - 14:53:03
No transcorrer de seu poema Arte Poética II, a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen1  (1919-2004) diz: 
 
“Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede […].
Pede-me antes a inteireza do meu ser […].
Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta”.
 
Pedindo licença para parafrasear essa poetisa portuguesa, no caso do músico Eleazar de Carvalho, certamente, poderíamos simplesmente efetuar uma troca de substantivos: “poesia” por “regência”.

 

Eleazar de Carvalho (1912-1996)
Divulgação; foto Testoni Studios, Soriano
Publicação Orquestra Sinfônica Brasileira
Sérgio Nepomuceno Alvim Corrêa

Recordando…
 

Como foi dito na postagem anterior, Eleazar de Carvalho (1912-1996) nasceu na cidade de Iguatu, interior do Estado do Ceará. Ainda criança, manifestou seu desejo de estudar música. Assim, mesmo contra a vontade do pai, o severo Capitão Afonso, iniciou aos 11 anos os seus estudos musicais em Fortaleza. Em 1928, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Na então Capital da República, estudou composição e regência. Sua primeira graduação em Música ocorreu em 1934, na “Escola Nacional de Música” (atual Escola de Música da UFRJ). No final dos anos 1930, Eleazar deixou seu posto de tubista na Banda da Marinha para, entre outros empregos, atuar como músico instrumentista na Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1940, tornou-se Regente Assistente da recém-criada Orquestra Sinfônica Brasileira2  (OSB).

Para mais detalhes sobre tal fase da carreira desse ícone da regência brasileira, leia texto Maestro Eleazar de Carvalho: o início de sua carreira.
 

Tentando a sorte nos Estados Unidos
 
Nos anos 1940, a música sinfônica no Brasil era, ainda, muito incipiente. Obstinado, como sugeri na introdução deste texto, Eleazar de Carvalho acabaria tomando uma importante decisão para a o desenvolvimento de sua carreira musical: estudar e conviver com os maiores nomes da regência mundial.
 
Ao que tudo indica, o empurrão que faltava veio com a proibição3  dos cassinos no Brasil, no início de 1946. Pelo menos foi o que percebi através do depoimento a mim concedido, em agosto de 2020, pelo sobrinho do maestro Eleazar de Carvalho, o também conhecido maestro Emilio Cesar de Carvalho (Emilio De Cesar), nascido em 1947. Obviamente que tais memórias foram passadas a Emilio pelo seu pai Esaú Afonso de Carvalho que, naquele tempo, assessorava o irmão Eleazar na direção dos corpos artísticos (orquestra e coro) mantidos pelo “Cassino da Urca” do Rio de Janeiro. Cumpre dizer que, desde a sua abertura – em 1933 -, o mencionado estabelecimento era um local bastante frequentado pela elite carioca. 
 
Ao expor suas memórias na aludida entrevista, Emilio De Cesar afirma que aquele emprego no “Cassino da Urca” do Rio de Janeiro era, seguramente, a maior fonte de renda para os dois irmãos cearenses. Emilio prossegue explicitando que Eleazar de Carvalho, em particular, logo que pegou a indenização a que tinha direito após ter sido demitido do Cassino, comunicou ao irmão e aos amigos: “Eu vou viajar, eu vou viajar e vou ganhar o mundo! Se eu não conseguir isso, vocês nunca mais vão ouvir falar de mim”.
 
Assim, ainda no ano de 1946, Eleazar de Carvalho desembarcou em solo norte-americano. Ora, sabe-se que nos anos 1940, devido à Segunda Guerra Mundial, a terra do “Tio Sam” se tornaria o refúgio de uma grande parcela dos principais músicos que atuavam na Europa. O articulista Leonardo Martinelli, ao abordar essa história na Revista Concerto (03/2012), afirma que o maestro Eleazar, naquele momento, “soube tirar proveito da política de boa vizinhança então estabelecida entre Brasil e Estados Unidos”. A propósito, sobre este episódio, o maestro José Siqueira, fundador da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), esclarece:

"O João Alberto, político que serviu longos anos a Getúlio [Vargas] e que continuava a ser uma personalidade de prestígio, fora aos Estados Unidos e ofereceu uma vaga no avião a Eleazar de Carvalho, que queria aperfeiçoar-se no exterior. A OSB licenciou seu regente substituto concedendo-lhe um auxílio financeiro que complementei do meu próprio bolso. Eleazar viajou com 30 contos (…)". (José Siqueira citado por Corrêa, 2004, p. 49).
 

Depois de algumas tentativas frustradas em Nova York e na Filadélfia, Eleazar de Carvalho (1912-1996) chegou à capital do estado de Massachusetts, sede da Orquestra Sinfônica de Boston. O corpo sinfônico desta orquestra, naquela ocasião, contava com os serviços do russo Serge Koussevitzky4  (1874-1951) no posto de Regente Titular. 
 
Na realidade, o encontro entre Eleazar de Carvalho e Koussevitzky ocorreu no prestigiado Festival de Tanglewood5 , no Berkshine Music Center. Para Martinelli, na mencionada matéria da Revista Concerto, o próprio Eleazar de Carvalho, em testemunho escrito constante do acervo da Fundação que leva o seu nome, narra como conseguiu uma oportunidade para conversar com Koussevitzky:
 
“Afirmei que trazia uma mensagem do Presidente do Brasil
e que esta deveria ser entregue ao mestre.
Fui recebido.
‘E a mensagem?’, perguntou Koussevitzky. ‘É verbal, senhor’.
E, apesar da reação de surpresa, continuei:
‘Peço-lhe cinco minutos à frente da orquestra.
Se julgar que não tenho qualquer possibilidade,
voltarei e viverei de caça e da pesca no meu país’”.
 
É pertinente deixar registrado aqui, a elucidação do maestro Emilio De Cesar acerca do termo “orquestra”, grafado na citação supra. Para Emilio, no curso de regência ministrado por Koussevitzky, em Tanglewood, os alunos selecionados tinham o privilégio de praticar a sua performance à frente da própria Orquestra Sinfônica de Boston.
 
Sabe-se que, no final das contas, depois da passagem acima citada, ocorrida no Festival de Tanglewood de 1946, o cearense Eleazar de Carvalho (1912-1996) foi apadrinhado pelo maestro Serge Koussevitzky (1874-1951). 
 
Meu entrevistado, o maestro Emilio de Cesar salienta que, no ano seguinte, já como aluno do mestre russo, seu tio dividiu as atribuições do cargo de Regente Assistente da Orquestra Sinfônica de Boston com ninguém menos do que o norte-americano Leonard Bernstein6  (1918-1990).

 


Leonard Bernstein, Serge Koussevitzky e Eleazar de Carvalho
Foto tirada em 
Tanglewood, EUA.
Acervo da OSB; foto de Howards S. Babbit Jr.

Disponível em Orquestra Sinfônica Brasileira –
Sérgio Nepomuceno Alvim Corrêa

 
 
A partir de então, o maestro Eleazar de Carvalho passou a ser constantemente convidado a reger importantes orquestras pelo mundo. Sérgio Nepomuceno Alvim Corrêa (2004, p. 139) destaca em sua publicação Orquestra Sinfônica Brasileira, que “as Filarmônicas de Berlim, Viena, Londres e Israel, além das cinco grandes americanas [Big Five]: Boston, Cleveland, Philadelphia, Chicago e Nova York” foram, em alguma oportunidade, regidas pelo Maestro Eleazar de Carvalho. 
 
O maestro Emilio de Cesar complementa tal informação afirmando que Eleazar de Carvalho atuou como regente em várias localidades do mundo: na América Central, na América do Sul, em “tudo quanto é lugar no Brasil” e na Europa. Para Emílio,
 
Ele só não regeu na “Cortina de ferro” [Países comunistas da Europa, durante a Guerra Fria]. Ele teve convites, mas ele não ia…. Se não, ele não conseguiria entrar de novo nos Estados Unidos, entendeu? Então ele não vai”.
 
Na continuação desse texto, pretendo abordar os acontecimentos que levaram Eleazar de Carvalho a assumir seu primeiro posto fixo como Regente Titular em uma orquestra nos Estados Unidos. Também planejo falar sobre a sua atuação no campo pedagógico, incluindo o Festival de Tanglewood (EUA), o Festival de Campos do Jordão, no Estado de São Paulo, além do Movimento da Juventude Musical Brasileira e dos Concertos para a Juventude. É claro que não será negligenciada sua passagem pelas orquestras brasileiras, dentre elas a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP).
 
Leia também: 

Maestro Eleazar de Carvalho: o início de sua carreira (08/10/2020)

NOTAS:
 

1) Biografia de Sophia de Mello Breyner Andresen: https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=296
 
2) A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) foi fundada em julho de 1940, como uma sociedade anônima. Para Nepomuceno (2004, pp. 18 e 139), o fundador foi o maestro José Siqueira, com o apoio do empresário Roberto Marinho. Eleazar de Carvalho teve três passagens como Regente Titular pela OSB: de 1951 a 1957; de 1960 a 1962; de 1966 a 1969.
 
3) A proibição dos cassinos em território brasileiro ocorreu via decreto-lei, datado de 30/04/1946, assinado pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), cujo mandato ocorreu entre os anos 1946 e 1951.
 
4) Serge Aleksandrovich Koussevitzky (1874-1951): era maestro, compositor e baixista russo. Regeu a Orquestra Sinfônica de Boston de 1924 até 1959.
 
5) Tanglewood é uma propriedade rural localizada entre as cidades de Lenox e Stockbridge, no Estado de Massachusetts. Lá, no Berkshine Music Center, acontece o prestigiado festival organizado pela Orquestra Sinfônica de Boston. Nas palavras de Emilio de Cesar, o Festival de Tanglewood – realizado nos meses de julho e agosto – é um dos melhores cursos de verão dos Estados Unidos, “se não for o melhor (…). Na época, era assim, o suprassumo”. O Festival de Campos do Jordão (SP), criado pelo maestro Eleazar de Carvalho, foi inspirado no Festival de Tanglewood.
 
6) Leonard Bernstein (1918-1990), embora nascido na cidade de Lawrence, no estado de Massachusetts, era filho de pais emigrantes judeus ucranianos. Em 1935, foi admitido no curso de Música da Universidade de Harvard, graduando-se em 1939. Participou do Festival de Tanglewood, em 1940, na classe do maestro russo Serge Koussevitzky. Foi Regente Assistente de Koussevitzky na Orquestra Sinfônica de Boston. Em 1945, foi nomeado diretor da Sinfônica da Cidade de Nova York. Em 1957, foi nomeado diretor da prestigiada Orquestra Filarmônica de Nova York.

REFERÊNCIAS:

Carvalho, Emilio Cesar de. (2020, Agosto). Entrevista concedida a Othaniel Alcântara Júnior (gravada em vídeo, aplicativo Zoom).
Corrêa, Sérgio Nepomuceno Alvim. (2004). Orquestra Sinfônica Brasileira, 1940-2000. Rio de Janeiro: Funarte.
Martinelli, Leonardo. (2012, Março). Maestro Soberano. Revista Concerto, Ano XVII, N. 181, pp. 24-27.
 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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