Logo

O feitiço virou contra o feiticeiro

WhatsAppFacebookLinkedInX
06.05.2025 - 08:59:00

Em excelente matéria no Canal Meio no último sábado, o jornalista Yan Boechat explica um dos impasses cruciais expostos pela guerra tarifária do governo Trump em seu projeto para retornar aos EUA do passado: como brigar com a China que detém hoje praticamente um monopólio sobre a produção dos chamados minerais “terras raras” que são vitais para a indústria tecnológica?
 
Esse é um grupo de 17 elementos químicos metálicos com propriedades magnéticas, catalíticas e ópticas excepcionais. Por isso, explica Boechat, são fundamentais para a fabricação de componentes da maior parte das tecnologias que estruturam nosso mundo e orientam a transição energética que vivemos, como turbinas eólicas, carros elétricos e híbridos, telas de smartphones, tablets, TVs e computadores, fibras ópticas, equipamentos médicos e todo tipo de sistemas de defesa, como radares e navegação de mísseis.
 
Primeira ironia, a guerra tarifária de Trump já prejudica linhas de produção da indústria de alta tecnologia em função da escassez de imãs chineses, produzidos com base nesses minerais, conforme admitido pelo próprio Elon Musk em recente conversa com investidores de suas empresas.
 
Essa não é, entretanto, a mais funesta das ironias escancaradas pelas políticas do novo governo americano. Boechat explica também que o virtual monopólio chinês sobre a mineração dos terras raras e a produção de ímãs é fruto de escolhas políticas que revelam muito da hipocrisia e de contradições difíceis de superar no capitalismo globalizado. 
 
Nos anos 1990, países ricos, como os Estados Unidos e a França, abandonaram seus projetos de mineração de terras raras em função de seus altos custos ambientais. Esses minerais estão presentes em muitos pontos da crosta terrestre, mas em baixíssimas concentrações e sempre associados a vários outros elementos. Por isso, seu processo de extração e processamento é complexo, oneroso e deixa um rastro nefasto de poluição e contaminação. EUA e França detinham, até cerca de 30 anos atrás, o monopólio de sua mineração e a tecnologia de fabricação dos ímãs que os têm como base. Todavia, naquela época, diante da despolarização geopolítica, com o fim do Império Soviético, parecia fazer muito mais sentido livrar-se do ônus ambiental e, terceirizando essa produção a países em desenvolvimento, ficar apenas com o bônus da tecnologia.
 
O dilema agora incontornável, face à desconfiança americana e europeia para com a China, é resultado portanto de uma dinâmica que se manifesta em todos os setores econômicos. Em um mundo tão desigual, a qualidade de vida nos países ricos é sustentada e ampliada às expensas daqueles menos desenvolvidos – e sobretudo dos mais pobres entres os pobres, que suportam os custos ambientais da produção dos bens e serviços que geram bem-estar na Europa e nos EUA. Por isso, não faz nenhum sentido discutir a preservação do meio ambiente dissociada do problema das desigualdades entre países e dentro deles. 
 
Não se trata entretanto de cair numa falsa escolha entre preservar ou reduzir a pobreza, como se falar em meio ambiente fosse uma espécie de frescura burguesa diante da premência da miséria. Ao contrário, a lógica que provoca desequilíbrios ambientais é a mesma que gera a estarrecedora desigualdade social com que convivemos.  São os pobres que mais sofrem com a degradação ambiental. O exemplo dos terras raras ilustra isso com perfeição.
 
Como aponta Yan Boechat, a Mongólia Interior, no norte da China, principal polo de produção desses elementos, abriga cenários distópicos de degradação ambiental, em função de sua mineração e processamento: contaminação radioativa, lagos tóxicos, aumento dos casos de câncer e doenças respiratórias, vastas áreas contaminadas.  
 
Essa paisagem é um alerta em relação aos custos ocultos da transição para tecnologias tidas como "verdes", como carros elétricos e turbinas eólicas, que dependem fortemente de terras raras, embora prometam reduzir as emissões de carbono.
 
Na verdade, num mundo que tem a inovação tecnológica e o aumento sem fim do consumo como motores da vida em sociedade, estamos todos imbricados nessa complexa e difícil rede de escolhas. É o celular novo que pretendo comprar este ano que puxa toda essa cadeia . Sem esquecer que são os investimentos na indústria de defesa (ou da guerra, melhor dizendo) que sustentam a pesquisa tecnológica de ponta que amanhã nos dará smartphones mais baratos e eficientes.
 
Diante dessa teia embaraçada e das escolhas difíceis com que ela nos confronta o tempo todo, recomenda-se cuidado com discursos simplificadores e com o moralismo político sob pena de expormos nossa própria hipocrisia. O feitiço parece ter virado contra o feiticeiro, no caso dos terras raras, mas isso não é necessariamente uma boa notícia.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]