Nádia Junqueira
“Você não trabalha? Só estuda?”. A pergunta é clássica entre os estudantes dedicados exclusivamente às suas pesquisas e que são remunerados por isso. Para receberem a bolsa no valor de R$1.200 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cienfífico e Tecnológico (Cnpq) ou Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), mestrandos devem participar de grupos de estudos, publicar artigos, fazer estágio docente (dar aulas no curso de graduação), além de assistir às aulas e desenvolver suas pesquisas. Tudo isso no prazo de dois anos. Há quem consiga se virar e cobrir todos seus custos com R$1200, há outros que optam por abrir mão da bolsa e trabalhar, pelo valor ser insuficiente para se manter. Há ainda quem se mantenha com a remuneração, com ajuda dos pais. Mas é unanimidade entre todos: o valor é baixo para quem opta por ser exclusivamente estudante.
Bolsistas de iniciação científica recebem R$ 360 pela pesquisa e doutorandos R$ 1.800. O coordenador de Transferência e Inovação Tecnológica da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós Graduação da Universidade Federal de Goiás (UFG), João Teodoro Pádua, concorda que os valores são baixos. Ele conta que, em 1990, ele saiu para fazer mestrado em São Paulo e recebia bolsa, além de salário, por já estar vinculado profissionalmente à universidade. “Proporcionalmente o valor é o mesmo de hoje. Para mim era bom. Mas hoje esse valor está defasado porque o custo de vida está mais alto. Para quem não tem salário, essa remuneração é baixa, não dá para sobreviver”, diz o professor.
Por outro lado, ele friza que hoje são mais de 90 mil bolsas oferecidas pelo Cnpq para pesquisadores nas diversas modalidades (iniciação científica, mestrado, doutorado e pós). “O mais importante é o resultado. Estamos formando muitos mestres e doutores. Hoje as produções científicas brasileiras representam 2,1% das mundiais. Há 10 anos não representávamos nem 1%”, argumenta. Ele conta que o crescente número de doutores é refletido na UFG. De acordo com Teodoro, com o Reuni (programa de reestruturação e expansão das universidades federais), foram admitidos em torno de mil professores. Destes, 80% são doutores e, quanto mais professores com esse título, mais vagas na pós-graduação.
Sobrevivendo de bolsa
Luana Heinen, mestranda em Direito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), se formou na UFG e fez uma importante decisão: seguir carreira acadêmica. Isso implicou, na verdade, em um enfrentamento, a começar em casa. “Minha família valoriza muito o trabalho. Eles acreditam que se você está na Academia, você está se escondendo, fugindo de enfrentar o mundo, se escorando em bolsas”. Ela afirma, no entanto, que gosta de estudar, pesquisar e dar aula. “Isso me satisfaz, encaro como escolha profissional que me exige dedicação. Me dedico mais que outras pessoas para ganhar muito menos, na verdade”, conta Luana comparando salário de um professor de graduação de Direito com de um juiz.
Esse mês a locação da kitinet em que Luana mora, ao lado da UFSC, vai aumentar R$70, e isso fará com que metade da bolsa seja dispensada somente para aluguel. “Bolsa não tem reajustes e todos os demais gastos têm. Por enquanto consigo pagar minhas contas, mas raramente sobra alguma coisa no fim do mês”. Luana conta que, por vezes, tem que recorrer à mãe quando tem que comprar algum remédio ou livro. Lucas Maia, goiano que mora em São Paulo, faz mestrado em Biologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Como Luana, é bolsista e concorda que a remuneração é muito baixa.
Morador de uma das cidades mais caras do país, Lucas afirma que a bolsa é insuficiente para cobrir suas despesas. Ele conta que, só com gastos de moradia, ele dispensa R$1000 por mês. “Esse regime de dedicação exclusiva nos impede de ter vínculos empregatícios. Mas mesmo que possamos trabalhar e ter direito à bolsa, a carreira acadêmica exige dedicação. A gente acaba trabalhando também de noite e fins de semana”, conta o estudante.
Dedicação
Além de desenvolver sua dissertação, Luana Heinen auxilia um professor com aulas na graduação, faz parte da comissão editorial de uma revista para discentes, participa de congressos e desenvolve artigos para publicação. Lucas Maia, além de se dedicar à sua pesquisa (em psicobiologia), organiza seminários, palestras, cursos de verão e participa de grupo de estudos. Isto é, um mestrado vai além de desenvolver dissertações e assistir a aulas. Para Luana, quem trabalha e faz mestrado, tem um menor envolvimento acadêmico e isso pode prejudicar até na tese. “Eles (colegas que trabalham) não participam tanto de congressos, por exemplo. Deixam de trocar experiências com quem está discutindo o mesmo assunto que eles, e conhecer novos autores da área e isso vai refletir em suas teses”, aponta.
Paula Cecília Faquim concluiu seu mestrado em Odontologia na UFG em 2009. Ela trabalhava em uma clínica particular e acabou optando por deixar seu trabalho para ser bolsista e dedicar exclusivamente à pesquisa. “Eu tinha muita atividade na faculdade. Optei pela bolsa porque estava difícil conciliar o mestrado e o trabalho”, conta Paula. Ela diz, ainda, que conseguiu se manter com a bolsa porque morava com os pais. “Para quem mora fora e tem que se manter com R$1200, não dá. Meus amigos mestrandos que moram em Piracicaba passam apertado”.
Para o professor João Teodoro, faz toda diferença para pesquisa e para universidade quem consegue ter dedicação total. “O aluno vive um ambiente mais fértil, participa de eventos, e o que fica ausente desse espaço prejudica a si e a universidade”, diz Teodoro. Quando o professor diz que o estudante prejudica a universidade, ele se refere a um processo cíclico dentro da pós-graduação. Ele explica que o estudante que se dedica exclusivamente à sua pesquisa acaba por publicar mais, participa mais efetivamente de grupos de estudos e isso faz com que o programa de sua pós-graduação seja melhor avaliado. Consequência disso será mais investimentos nesse programa.
Gastos com pesquisa
Além do baixo valor pago ao pesquisador, ainda há o problema de pouco investimento na pesquisa em si. A dentista Paula Cecília conta que teve altos gastos com seu mestrado. “A bolsa é para pesquisador, e não pesquisa. Mas acabei dispensando em torno de R$10 mil com meu mestrado”, reclama Paula. Apesar de pesquisas em áreas biológicas serem mais onerosas, Luana Heinen conta que falta na biblioteca de sua universidade bibliografia para sua pesquisa e que nem sempre consegue comprar os livros. Paula reclama da falta de verbas e incentivo para pesquisas. “A Fapeg (Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás) está muito defasada. E quando concorremos em editais do Cnpq, Centro Oeste quase nunca ganha, sempre Sudeste. Falta incentivo de fomento à pesquisa em Goiás”, contesta.
No site da Fapeg consta que quatro editais foram abertos em 2010, com resultados divulgados esse ano. O primeiro é de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional, que contemplou 14 pesquisas nos valores de R$20 a R$22 mil. O segundo, de Pesquisas para Fortalecimento de Políticas Públicas em Goiás, é o que mais concentra verba: um total de R$1 milhão e 200 mil distribuidos em 47 pesquisas contempladas. Outros dois são de formação: um de incentivo à mestrado em direito a servidores estaduais, que dispõe um total de R$432 mil. O outro contempla docentes efetivos da UEG, fornecendo 25 bolsas de R$1200.
Esse ano, até então, foi aberto apenas um edital para apoio à pesquisa, desenvolvimento e inovação em microempresas e empresas de pequeno porte de base tecnológica. Nove projetos serão contemplados com propostas entre R$100 e R$400 mil. João Teodoro defende a fundação dizendo que ainda é muito nova e as coisas não se resolvem “de uma hora para outra”. Ele afirma que, aos poucos, ela deve se consolidar e ampliar recursos. Enquanto isso, ele sugere que os cientistas busquem financiar suas pesquisas pelo Cnpq e Capes.
Lucas Maia, que pesquisa em São Paulo, reforça fala da dentista. “São Paulo é muito mais forte que Goiás, porque fazem distribuição da verba de acordo com quantidade de pessoas e produção científica, além de avaliarem qualidade dos programas de graduação e pós. O resultado é um número muito grande de bolsas”, explica. Ele reforça que a Fapeg é muito nova e é discrepante a diferença de verba com a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp). O mestrando em biologia foi contemplado recentemente com uma bolsa da Fapesp e começa a ser remunerado em setembro.
Trabalhar e ter bolsa
Àqueles contemplados por bolsa que desejam estar, ao mesmo tempo, no mercado de trabalho e academia, há uma alternativa. Desde 2010, a Capes e o Cnpq publicaram uma portaria permitindo aos bolsistas acumular bolsas com um vínculo empregatício remunerado. “Desde que venha a atuar profissionalmente na sua área de formação e cujo trabalho seja correlacionado com o tema da sua dissertação/tese e, portanto, quando tal vínculo empregatício seja resultante de sua condição de bolsista e como conseqüência do tipo de projeto que esteja desenvolvendo” como consta em nota divulgada em julho do ano passado. Isto exige, portanto, que a pesquisa do bolsista esteja diretamente ligada ao seu trabalho e vice-versa.
Essa relação íntima entre o projeto e o trabalho nem sempre é possível. Mas poderia ter privilegiado, por exemplo, o dentista e professor Leandro Martorell. Ele fez seu mestrado junto com Paula Cecília. Em 2009, essa portaria não existia e poderia dar certo para ele, que pesquisa saúde coletiva e seu trabalho é em Cais. Ele passou no processo seletivo para bolsa do mestrado, na mesma época que foi admitido num concurso público da prefeitura municipal de Goiânia. Ele optou pelo concurso. “É difícil deixar de trabalhar. Ser bolsista e ter dedicação exclusiva é uma opção que te deixa vários anos amarrado a um compromisso e depois, não necessariamente, seu título vai contribuir para entrar no mercado, de fato”. Leandro elogia essa possibilidade de acumular bolsa e vínculo empregatício remunerado. “Condiz com a realidade da maioria dos brasileiros”, argumenta. Otimista, João Teodoro afirma que o aumento do valor das bolsas, essa nova portaria, o crescente número de doutores e mestres é um processo sem volta.