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O elefante na sala

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01.10.2024 - 08:00:00

A semana que passou, com todo o turbilhão político característico de nosso tempo – Lula na ONU, o Brasil queimando, ataques de Israel ao Hezbollah no Líbano, Ucrânia, campanha eleitoral no Brasil e nos EUA – teve um debate importante, que merece ser repercutido. 
 
Houve muita gente sugerindo que Pablo Marçal deveria ser excluído dos debates, pois desrespeita regras básicas da civilidade política e seu partido, o PRTB, não tem representação no Congresso Nacional. A lei não obriga o convite a candidatos de uma legenda que tenha menos de cinco parlamentares federais.
 
Joel Pinheiro da Fonseca e Pedro Dória partiram de pontos diferentes para afirmarem que Marçal não deveria ser excluído dos debates. 
 
Em artigo na Folha, no último dia 23, o economista e filósofo responde a um texto, no mesmo jornal, em que o jornalista Leão Serva afirma que dar espaço a Pablo Marçal nos debates seria repetir o erro que permitiu a Hitler chegar ao poder. Segundo seu argumento, políticos como Marçal e Hitler usam os próprios espaços do debate democrático para subvertê-lo e, chegando ao poder, enfraquecer a democracia. Pior ainda, para ele, pela relevância atual das redes sociais no debate público, a imprensa viveria uma espécie de "Síndrome de Estocolmo", pois teria se tornado refém da audiência movida a cliques que figuras como Marçal geram.
 
Em resposta a Leão Serva, Joel defende que não cabe à imprensa o papel de tutelar a democracia, dizendo quem deve ou não ter voz no debate público. Argumenta ele que a imprensa profissional não pode mais se atribuir "o papel de megafone de poucas vozes", isto é, dos políticos tradicionais e dos especialistas de plantão, pois com as redes sociais hoje todas as pessoas "têm o megafone na mão".
 
Nesse sentido, o economista chama a atenção para um aspecto da crise contemporânea pouco discutido: ela é, na verdade, uma crise dos porta-vozes de modo geral. É mais óbvia a crise dos políticos como porta-vozes do povo. As pessoas estão infelizes com seus representantes no sistema democrático – vereadores, prefeitos, deputados, senadores, etc.
 
Trabalhando em campanha eleitoral, tenho acompanhado diariamente grupos focais e pesquisas quantitativas e qualitativas. Por mais que saibamos da descrença generalizada da população em relação à política, não deixa de impressionar o nível de ceticismo e cinismo que prevalece em todos os estratos e grupos sociais. 
 
Não são apenas os políticos, entretanto, que estão em questão. Como tenho dito aqui, também dois outros tipos de "porta-voz" já não gozam da confiança de outrora entre as pessoas: os cientistas e justamente os jornalistas. A ciência é a porta-voz da natureza no debate público, enquanto o jornalismo é uma espécie de porta-voz do debate público em si, um representante da própria esfera pública, a quem caberia filtrar e organizar as diferentes vozes do debate para torná-lo legível e equilibrado.
 
Para Joel Pinheiro, a imprensa precisa reavaliar seu papel, abandonando a pretensão de controlar o debate público e dedicando-se a elevar seu nível. Excluir do debate um candidato com 20% das intenções de voto na cidade de São Paulo seria silenciar as vozes de quase dois milhões de pessoas e aprofundar a crise de confiança no jornalismo e na democracia.
 
Pedro Dória vai em direção semelhante. Primeiro, afirma que igualar Marçal a Bolsonaro é fazer uma leitura pouco sutil em relação aos dois. Para ele, Marçal é um direitista radical, e Bolsonaro, um extremista. 
 
Não importa se à esquerda ou à direita, um extremista é aquele que efetivamente deseja subverter a ordem democrática, enquanto um radical não pretende rasgar a Constituição, mas aceita quebrar a lei para fazer avançar seus pontos de vista. Guilherme Boulos, exemplifica ele, já foi um radical: comandava invasões a imóveis no intuito de forçar o poder público a desapropriá-los em benefício de pessoas sem moradia. Nunca falou, entretanto, em dar golpe de Estado. Jones Manoel, por outro lado, é um extremista: prega a revolução e a instituição de um novo tipo de organização do poder. Da mesma forma, para Pedro Dória, Bolsonaro não apenas deseja subverter a ordem democrática, como de fato tentou fazê-lo em 8 de janeiro de 2023. Marçal, por outro lado, por mais que também tenha dificuldade em comer com garfo e faca, sempre afirma que sua ação política se dará pelos canais legítimos: negociar com os vereadores, nomear técnicos como secretários e assim por diante. 
 
Por isso, Pedro conclui na mesma linha de Joel, dizendo que silenciar alguém que, a despeito de seus defeitos, é tido como porta-voz por 20% da população de São Paulo, seria apenas aprofundar a crise de legitimidade da democracia. 
 
O que deve ser objeto de nossa atenção, no fim das contas, não é Marçal ou Bolsonaro, mas o fato de que um quinto da população brasileira ou de São Paulo se veja representado pelos valores e métodos de um e outro. Não será silenciando os porta-vozes que resolveremos o problema, que faremos desaparecer o elefante da sala.
 
É tão profundo o buraco em que nos encontramos que a reação uníssona e instantânea de meus amigos mais à esquerda ao artigo de Joel foi a do argumento ad hominem, a desqualificação de quem fala. Ouvi, por exemplo, que "Joel é o Caio Coppolla da Folha", comparando-o ao comentarista político da CNN Brasil. 
 
Igualar Joel Pinheiro da Fonseca a Caio Coppolla é olhar a realidade política pelo filtro binário da polarização e desconhecer o imenso desnível de inteligência que separa os dois. Joel é um grande intelectual, concorde-se ou não com suas posições políticas. Nesse sentido, é um liberal clássico, alguém que se situa no centro ou, no máximo, na centro-direita do espectro político. Coppolla é apenas o típico nerd direitista, como tantos, que sabe mastigar ideias de pensadores conservadores e oferecer frases de efeito ao gosto das redes sociais. Não é burro tampouco, mas está a anos-luz de distância intelectual de Joel.
 
Não é preciso concordar com a opinião de Joel ou Pedro Dória, mas descartá-las de saída, especialmente com argumentos que questionam sua legitimidade ou caráter, é um gesto infelizmente enraizado na mesma visão que deseja silenciar o Brasil pouco civilizado que saiu do armário na última década. É agir como o avestruz e enfiar a cabeça no buraco, enquanto, ao redor, o elefante quebra os móveis da sala porque nós nos recusamos a tomar conhecimento dele.
 
Ao invés de gritar contra o elefante na esperança de salvar a democracia, precisamos aprofundar ainda mais nosso sentimento democrático e genuinamente ouvi-lo – o que não significa concordar ou necessariamente ceder. Ao invés de tentar erguer muros para impedir sua entrada, precisamos ter mais jogo de cintura para lidar com o outro extremo do espectro, ouvindo, marcando posição, refletindo sobre nossos próprios pontos de vista, mudando-os, se for o caso, ou reafirmando-os – mas nunca sem dar voz e ouvir.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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