Logo
Fabrício Cândido (Foto: reprodução)

O CNJ também está legislando?

WhatsAppFacebookLinkedInX
15.06.2026 - 12:29:25

Recente edição do Provimento nº 216/2026 da Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) trouxe novas diretrizes para os processos de recuperação judicial e falência envolvendo produtores rurais. O objetivo das mudanças é legítimo e até louvável: promover maior uniformidade na condução desses processos, especialmente em comarcas sem varas especializadas.

Mas o debate aqui, contudo, não está necessariamente no mérito das mudanças, mas na sua forma, que revela uma prática recorrente no Judiciário brasileiro, altamente nociva aos preceitos do Estado de Direito.

A Constituição atribuiu ao CNJ importantes funções de controle administrativo, financeiro e disciplinar do Poder Judiciário, mas não lhe concede a competência para legislar. No exemplo em questão, o Provimento nº 216/2026, cria regras e obrigações que se sobrepõem a leis vigentes, que foram debatidas e editadas pelo Congresso Nacional – as leis 11.101/2005 e 14.112.2020.

A edição do Provimento 216 é mais um capítulo de um fenômeno que vem se tornando cada vez mais frequente no Brasil: a expansão do poder normativo do Judiciário. Durante anos, o debate sobre ativismo judicial esteve concentrado nas decisões dos tribunais, em especial de nossa Suprema Corte. Hoje, esse fenômeno avança para uma nova fronteira: órgãos integrantes da própria estrutura do Poder Judiciário.

Não se trata de discutir se determinada regra é boa ou ruim, mas de nos atermos a uma fundamental questão institucional: no Estado de Direito, a legitimidade das normas decorre não apenas de seu conteúdo, mas também da autoridade constitucional de quem as produz. Foi justamente para evitar a concentração de funções em uma única estrutura de poder, que Montesquieu formulou a teoria da separação dos poderes. Sua advertência permanece atual: a liberdade não depende da virtude dos governantes, mas da existência de limites institucionais capazes de impedir que um Poder avance sobre as atribuições dos outros.

Se aceitarmos que órgãos administrativos do Judiciário comecem a raptar as prerrogativas constitucionais reservados ao Legislativo, mesmo que para dirimir uma necessidade prática, estaremos substituindo a vontade do legislador, eleito pelo povo, pela conveniência institucional. Hoje esse rapto da função de legislar chega ao tema da recuperação judicial do produtor rural. Amanhã poderá ser de quaisquer outros. Mais do que boas intenções, a defesa da segurança jurídica exige respeito aos limites constitucionais de cada Poder.

*Fabrício Cândido é advogado, CEO do Escritório Celso Cândido de Souza Advogados, especialista em Direito da Economia e da Empresa (FGV/RJ), em Direito Civil e Processo Civil e em Direito Imobiliário (FACAB/SP). É também membro das comissões de Direito Imobiliário e Direito Empresarial da OAB Goiás

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrício Cândido

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]