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O cientista Valery Legasov (Foto: USFCRFC/Wikimedia)

O cientista que sabia demais

Chernobyl, a série, culpa a política pelo desastre, mas o silêncio que permitiu a catástrofe não foi só dos burocratas, foi também dos cientistas

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14.04.2026 - 08:19:31

Na semana que passou, a série Emergência Radioativa e uma virose me levaram a rever Chernobyl, a série criada por Craig Mazin — conhecido pela também elogiada The Last of Us — e exibida mundialmente pela HBO.

As duas séries, por óbvio, dialogam profundamente com o tema da ciência.

Já havia comentando aqui que Emergência Radioativa teve o mérito de fazer renascer o debate sobre o acidente de Goiânia, que teimamos em apagar da memória, e sobretudo de o fazer lançando luz sobre o drama das vítimas e o tamanho de sua dor e perdas. O Césio foi uma tragédia que envolveu política, negligência e ciência, mas foi, antes de tudo, uma tragédia dos vulneráveis — foram impactadas, algumas perdendo suas vidas, essencialmente pessoas pobres.

Rever Chernobyl, entretanto, realçou os muitos problemas da série brasileira. Em Emergência Radioativa, a opção pelo melodrama simplifica exatamente a multidimensionalidade e complexidade da tragédia cujo maior mérito de Chernobyl é conseguir revelar. A história de Goiânia é reduzida a um jogo de vítimas e culpados em que a abertura da cápsula de Césio é basicamente uma consequência da maldade de algumas pessoas. A explosão da usina na Ucrânia, por outro lado, é um drama de personagens ambivalentes, cujas sombras e luzes existem em um contexto amplo de múltiplas forças pessoais, sociais, políticas e culturais.

Não que os impactados pelo césio não sejam vítimas, no sentido social, político e legal da palavra, mas no melodrama perdem quase toda agência porque são personagens chapados que estão ali apenas para confirmar o teatro do bem e do mal. A série da HBO passa com uma facilidade impressionante do micro ao macro — dos terríveis dramas das pessoas que não fazem parte dos livros de história à brutalidade das decisões político-institucionais e à responsabilidade do regime comunista. A série da Netflix, por sua vez, tem dificuldade, por exemplo, em retratar os representantes do Estado com um mínimo de ambivalência — são, como as vítimas, meros tipos, sem carne e osso, com a função apenas de representar vícios ou virtudes.

Por isso, vale nos aprofundarmos nos personagens de Boris Shcherbina e Valery Legasov, protagonistas de Chernobyl, tanto na realidade, quanto na série. O primeiro, representado pelo norueguês Stellan Skarsgård (que vimos recentemente em Valor Sentimental), foi o vice-primeiro ministro soviético designado para chefiar a contenção de danos e a descontaminação de Chernobyl. O segundo, encarnado pelo ator britânico Jared Harris, foi o cientista-chefe da comissão nomeada pelo governo soviético para gerir a crise, conter danos e investigar as causas do desastre. São dois personagens trágicos que, como disse também aqui, atingem seu ápice e são destruídos por Chernobyl — com ampla consciência dessa condição.

O desastre nuclear na antiga União Soviética teve, entre suas causas, sem dúvida, a negligência humana — por sua vez estimulada por um ambiente político e de trabalho tremendamente repressivo, onde silenciar ou desviar o olhar eram muitas vezes uma resposta mais confortável do que assumir responsabilidades. Todavia, um dos fatores principais para a tragédia foi na verdade um problema de design do modelo de reator RBMK, usado em Chernobyl e em várias outras usinas da URSS. Este vídeo explica de maneira didática como as hastes com pontas de grafite contribuíram para o problema.

Não se tratava de um erro técnico, mas de uma escolha de engenharia condicionada por restrições econômicas e pela busca de eficiência máxima ao menor custo possível. Cientistas já haviam alertado para esse risco, mas o governo soviético decidiu mantê-lo oculto por medo do impacto no cenário geopolítico da Guerra Fria e pelos altos custos para seu conserto.

Após Chernobyl, Valery Legasov passou a alertar de forma veemente a comunidade científica e o governo sobre as falhas estruturais que permitiram o desastre. Depois do reconhecimento inicial pelo papel crucial na contenção de danos e em evitar um desastre ainda maior, ele passou a sofrer represálias políticas, foi isolado pela própria comunidade científica oficial e teve seu nome inclusive omitido das honrarias de Estado. Mikhail Gorbachev negou pessoalmente a Legasov o título de Herói do Trabalho Socialista, a mais alta condecoração civil da URSS, concedida a todos os outros membros proeminentes da comissão de Chernobyl.

Em 27 de abril de 1988, exatamente dois anos e um dia após o desastre, Legasov se enforcou em seu apartamento. Antes disso, gravou fitas cassete onde detalhava não apenas as falhas técnicas do reator RBMK, mas a corrupção sistêmica e a falta de ética científica que permitiram que o desastre acontecesse. Após sua morte, a transcrição dessas gravações circulou na comunidade científica e na imprensa, tornando impossível para o governo ignorar as falhas do RBMK.

Em 1996, dez anos após o desastre e oito anos após sua morte, o então presidente Boris Yeltsin concedeu-lhe postumamente o título de Herói da Federação Russa, reconhecendo que sua coragem salvou a Europa e o mundo de uma catástrofe ainda maior.

Chernobyl constrói um belo retrato de Legasov — sombrio, hesitante e trágico. Sua ambivalência é sublinhada de forma inteligente, por exemplo, na cena em que o chefe da KGB o acusa exatamente de querer “bancar o herói” quando sempre fora, em realidade, um homem do partido, como todos eles, fazendo política para angariar poder e galgar posições no regime.

É curioso, entretanto, como Chernobyl omite o papel da própria comunidade científica no desastre e no destino trágico de Legasov. Todas as falhas são imputadas à política. A ciência não sai apenas ilesa, como ganha ares de heroína no sintomático voice over final.

Enquanto é levado pelos agentes da KGB de volta a Moscou após denunciar a falha do reator, Legasov nos diz:

“Ser cientista é ser ingênuo. Estamos tão focados em nossa busca pela verdade que não percebemos quantos de fato querem que a encontremos. Mas ela está sempre lá, quer a vejamos ou não, quer escolhamos vê-la ou não. A verdade não se importa com nossas necessidades ou desejos, não se importa com nossos governos, nossas ideologias, nossas religiões. Ela vai esperar por toda a eternidade. E este, afinal, é o presente de Chernobyl. Onde antes eu temia o custo da verdade, agora só me pergunto: qual é o custo das mentiras?”

Mentiras de fato têm custos. Como o próprio Gorbachev aponta, é muito provável que o colapso da União Soviética tenha começado em Chernobyl, com todas as mentiras, ocultações e a supressão do dissenso cobrando seu preço.

Todavia, olhar para a ciência exclusivamente como heroína na tragédia e retratar os cientistas como ingênuos é continuar suprimindo metade da história. Foram cientistas que descobriram a fissão do átomo e que também ajudaram a tornar legítimo seu uso em bombas atômicas, usinas nucleares ou aparelhos de radioterapia. O design mais barato das usinas RBMK foi também escolha de engenheiros e cientistas, não só de políticos gananciosos. O silêncio sobre essa falha, conhecida antes de Chernobyl, não foi um silêncio só dos políticos, mas de todo o establishment científico soviético. O próprio Legasov foi proscrito não apenas pelos burocratas do partido, mas por seus próprios pares, que passaram a ver, em sua verborragia e denuncismo, uma ameaça de que se revelasse exatamente sua própria cumplicidade.

Nesse sentido, com todos os seus méritos, Chernobyl poderia ter adicionado mais uma camada de complexidade ao drama se mostrasse também essa colaboração silenciosa da ciência para as causas do desastre. Afinal, é essa ideia de uma ciência neutra, que apenas descobre verdades “lá fora”, que contribui para ocultar sua face sombria — a que não mede riscos ou insiste em diminuí-los, a que silencia vozes dissidentes para não ameaçar poderes estabelecidos, a que minimiza impactos para não deter a marcha do progresso.

E aqui, o próprio Legasov nos oferece um modelo mais honesto para pensarmos o que significa fazer ciência com responsabilidade política hoje em dia. Afinal, ele mesmo não foi o cientista ingênuo que o voice over de seu personagem sugere. Ao contrário, foi algo bem mais interessante e humano: alguém que conhecia suas próprias limitações e comprometimentos e decidiu falar mesmo assim. Legasov entendeu que a ciência deriva sua fraqueza, mas também sua força, das conexões políticas que a legitimam e que ela ajuda a legitimar.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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