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O cântico de paz de Andressa Toledo

15.04.2019 - 15:23:49
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O século 20 conheceu figuras que encarnaram os extremos da evolução espiritual na humanidade. Ao mesmo tempo em que viveram nos últimos cem anos do milênio passado indivíduos que foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas, também existiram aqueles outros indivíduos que tiveram uma existência que se contrapôs diametralmente aos primeiros.
 
Um dos maiores exemplos de pacifismo do último século foi, sem dúvida, Mahtma Gandhi. O líder indiano libertou seu país da colonização britânica pregando basicamente duas propostas como plataforma de atuação: o amor à verdade e a não violência. Ambas, quando concretizadas em profundidade, como conseguiu o Mahatma, traduzem-se em uma palavra simples mas profunda: paz. Afirmou o líder pacifista da Índia que não existe um caminho para a paz; a paz é o caminho. Assim, estudá-la, meditá-la, cantá-la está na pauta do dia mais do que nunca.
 
Ao longo do seu desenvolvimento a internet se tornou um espaço democrático do ponto de vista cultural. Em ambientes virtuais como o “Youtube” é possível encontrar autoproduções extremamente excêntricas, bem como outras de qualidade surpreendente. A produção musical e audiovisual de Anna Rita Araújo,  Daniel Moraes e Andrei Renato, do Estúdio Vírgula, possível de ser apreciada no “link” <https://www.youtube.com/watch?v=Rgo0wwi5s4w> é um bom exemplo da segunda modalidade.
 
O vídeo apresenta a performance artística de Andressa Toledo com a participação especial de Cacá Rezende, Lohane Noleto e Vanessa Bertolini na interpretação da música “Cante a Paz”, do álbum “Rumo à Evolução”. Composição de Andressa Toledo, a canção interpretada pelo afinado quarteto trabalha o tema da paz numa perspectiva bastante sintonizada com a essência da mensagem do evangelho de Jesus Cristo numa abordagem ecumênica.
 
A temática pacifista sempre foi controversa em suas múltiplas abordagens na cultura universal. Em “A Montanha Mágica”, o clássico romance do escritor alemão Thomas Mann, uma das personagens defende a guerra como sendo o único caminho possível para a paz. Na canção “A Paz”, composição do consagrado cantor Gilberto Gil, o músico baiano canta em determinado momento: “A paz/Como aquela grande explosão/Uma bomba sobre o Japão/Fez nascer o Japão da paz”, trecho que remete à explosão nuclear da Segunda Guerra Mundial no país do sol nascente, bem como a um discurso evangelicamente enviesado de que para chegar-se à paz é necessário percorrer o caminho da guerra, como sugere o personagem de Mann.
 
A letra de “Cante a Paz” apresenta, por sua vez, uma perspectiva diferente, mais em consonância com o espírito do evangelho, que remete à externalização da paz que cada um guarda dentro de si, o que pressupõe, muitas vezes, todo um processo de crescimento interior que se estende por toda uma vida. “Cante a paz/Cante bem forte/E seja a paz na esperança/Cante a paz em seus atos/(…) Cante com amor/Seu mundo interior”.
 
A composição de cunho espiritual de Andressa Toledo encontra ecos no pensamento de Chico Xavier/Emmanuel, dois outros gigantes do pacifismo crístico no século 20. Em “Pão Nosso”, uma das pouco mais de quatrocentas obras psicografadas por Chico Xavier, o autor espiritual faz uma análise minimalista de importantes passagens do evangelho. Nesse trabalho, o guia espiritual de Francisco Cândido Xavier apresenta toda uma gama de erudição e sabedoria na abordagem em torno do pensamento de Jesus e seus discípulos no contexto da Boa Nova.
 
Nessa obra ímpar pela sua natureza, a lição de número 65, intitulada “Tenhamos Paz”, trata do versículo 13 do 5º capítulo da Primeira Epístola de São Paulo ao Tessalonicenses, assim redigido pelo apóstolo de Jesus: “Tende paz entre vós”. Em sua análise do texto paulino, Emmanuel/Chico Xavier escrevem: “Se não é possível respirar num clima de paz perfeita, entre as criaturas, em face da ignorância e da belicosidade que predominam na estrada humana, é razoável procure o aprendiz a serenidade interior, diante dos conflitos que buscam envolvê-lo a cada instante”.
 
Na sequência desse pensamento, os autores discorrem sobre os centros de percepção do ser, que interpretam acontecimentos exteriores com a ótica que lhes são próprias, o que conduz, muitas vezes, a lamentáveis equívocos de interpretação que redundam na perda da paz interior tão necessária nas tribulações da vida moderna. Uma rápida olhada pelas discussões políticas nas redes sociais confirma o pensamento de Emmanuel/Xavier nesse sentido.
 
Concluem os autores suas asserções com estas palavras: “Quanto nos seja possível, façamos serenidade em torno de nossos passos, ante os conflitos da esfera em que nos achamos. Sem calma, é impossível observar e trabalhar para o bem. Sem paz, dentro de nós, jamais alcançaremos os círculos da paz verdadeira”.
 
A paz verdadeira, conforme se depreende das palavras do “Pão Nosso”, vai muito além de uma bomba sobre o Japão. A paz verdadeira vai muito além da eliminação belicista dos adversários de quaisquer naturezas. O caminho da paz começa no interior de cada um. Como disse um certo galileu, o reino de Deus está dentro de cada um de nós. É o recado de Andressa Toledo na composição e na exuberante performance de “Cante a Paz”.
 
*Gismair Martins Teixeira é professor e Doutor em Letras pela UFG 
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por Gismair Martins Teixeira

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