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O brilho antes da perda

O que uma frase infantil revela sobre finitude e esperança

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10.02.2026 - 08:30:32

Tenho alguns textos inspiradores colados à minha frente na mesa de trabalho. Entre eles, a “Oração do Bom Humor”, de São Tomás More, e algumas frases que funcionam quase como bússolas para a pesquisa do doutorado: a ideia de que a razão não nos é simplesmente dada, mas construída; o lembrete de que o mapa não é o território; a noção de que a incerteza é epistemológica, não metafísica. Sentenças que ajudam a manter o pensamento em movimento — e a dúvida, no lugar certo.

Fernanda, minha filha, vendo esse hábito, decidiu acrescentar algumas de sua lavra: “O melhor pai do mundo está aqui”, “Te amo muito” e, a que me toca mais: “Sempre vou me lembrar de você”. 

Essa última, na inocência de seus nove anos, carrega, sem saber, uma percepção dolorosa da finitude. Ainda que a morte e nossa inevitável separação sejam ainda uma ideia vaga e difusa para sua infância, aí estão enunciados toda a dor e todo o mistério.

Não se trata de uma afirmação no presente, como “te amo”, mas de uma promessa para o futuro: mesmo que você não esteja por perto, mesmo que o tempo nos separe, não vou me esquecer.

Me lembrou um texto em que o grande psicanalista Hélio Pellegrino fala sobre sua mãe, uma senhora italiana que se vestia sempre de preto, como se o luto fosse condição humana perene, e que sempre chorava ao vê-lo. “Por que você chora, mãe?”, ele perguntava. “Porque logo você vai embora”, ela respondia entre as lágrimas. Dona Assunta, dizia ele, era “encharcada daquilo que Unamuno chamou de ‘o sentimento trágico da vida’” — a consciência dolorosa da mortalidade, da impermanência e da inevitabilidade da perda.

Fernanda tem o brilho nos olhos de quem ainda vê o mundo encantado. As amigas, seus gatos, os desenhos de Miyazaki, o Japão como reino misterioso — tudo compõe um cosmo ainda organizado e narcísico, no melhor sentido do termo. Às vezes, do nada, ela me pergunta: “Pai, quando a gente pode ir ao Japão?”. A pergunta não carrega ansiedade nem cálculo, apenas a certeza de que o mundo é vasto, promissor e, de algum modo, feito para ser alcançado. E é bom que seja assim.

Todavia, em algum momento não muito distante, quando as contradições se evidenciarem, e o mistério se impuser em sua definitiva inescrutabilidade, esse brilho tende a se apagar, e a consciência da finitude, prenunciada em sua mensagem no meu escritório, se tornará inevitável. 

Se tudo der certo, como espero que dê, Fernanda encontrará transcendência e sentido em coisas mais específicas: em Deus, quem sabe — apesar da maldade no mundo que Ele criou —; na curiosidade de conhecer o mundo, mesmo quando ele se mostrar ameaçador; na beleza, ainda que tantas coisas sejam sombrias; na autossuperação, sabendo que o fracasso nos acompanha desde sempre.

Se tudo der certo, como espero que dê, ela ganhará consciência da finitude, mas não perderá a esperança e não se renderá ao niilismo. Ao contrário, extrairá dessa consciência a urgência de viver sempre no presente, sem remoer o passado e sem se angustiar com as inevitáveis perdas do futuro.

Afinal, saber-se finito e fracassado, diria novamente Hélio Pellegrino, é o “preço do possível encontro com o outro”, que é a única possibilidade de sentido para o ser humano.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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