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O bombo que nos inspira

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20.10.2011 - 11:28:45

Domingo passado amanheceu nublado, um pouco frio e com bastante neblina em Lisboa e na cidadezinha ali do outro lado da margem, Seixal, apesar da região ainda estar quente ultimamente. Desci no cais dali e, meio perdida em meio à neblina, um motorista de ônibus resolveu me ajudar. Fugiu da sua rota para me levar na praça Primeiro de Maio. Depois de uns dez minutos, ele me olha pelo retrovisor e diz: “menina, a praça é logo ali”. E só poderia ser ali mesmo, pois foi quando ouvi muitos tambores a bater.

Meu coração bateu junto. Era o grupo de percussão tradicional portuguesa Tocá Rufar, que já tinha ouvido falar do trabalho no Brasil por conta do Festival Portugal a Rufar, realizado pelo grupo, que reúne grupos de bombo de todo o mundo. Meu coração bateu junto por aquele som me remeter ao meu país e tocar minhas paixões: a cultura brasileira, a percussão e Passarinhos do Cerrado, meu grupo de música.

Eram crianças, adultos, idosos tocando bombos, bombinhos e caixas sob a regência de Maria, quem gentilmente me ligou agendando a visita, assim que enviei e-mail falando do meu trabalho com Passarinhos e que gostaria de assistir a um ensaio. Eram iniciantes que estavam aprendendo ritmos como malhão há dois domingos. Depois deles, ensaiariam os intermediários e em seguida os membros da orquestra, formado por, aproximadamente, 50 pessoas.

O Tocá Rufar se ocupa em fazer trabalho de formação, gratuitamente, com qualquer pessoa que queira aprender os ritmos tradicionais portugueses. Também fazem apresentações de diferentes espetáculos com a orquestra e realizam o Festival Portugal a Rufar todo primeiro dia de verão. Por trás desse trabalho todo, quatro pessoas na produção, apenas. E muitos voluntários.

Quem me contou tudo isso foi Isabel, que estava no canto vendendo camisetas e blusas de frio do Tocá Rufar. Mãe de dois adolescentes da orquestra, ela é uma das voluntárias e não disfarçava sua alegria em estar ali, ajudando o grupo, num domingo de manhã. Pacientemente, me contava de todo trabalho do grupo, me ensinava as letras das músicas e respondia a todas minhas curiosidades. Uma delas, eu não esperava a resposta que ouvi, que me fez imensamente mais admiradora do grupo e me deixou reflexiva por uns bons dias.

Questionei Isabel o porquê da logo “o bombo que nos inspira”, escrito nas camisetas e agasalhos. “Porque é ele que nos inspirou a continuar nosso trabalho, depois do incêndio em março”. Questionei que incêndio foi esse. “Nossa sede pegou fogo em março. Perdemos tudo: equipamento de som, palco, seis mil instrumentos e tudo mais”. Era por isso que ensaiavam nas ruas e ainda não sabem onde vão continuar o trabalho quando inverno chegar. Aguardam autorização do corpo de bombeiros para ensaiar em sua sede.

Diante da forte crise que Portugal passa, o Tocá Rufar não tem a quem recorrer, a não ser realmente à inspiração que o bombo traz, à vontade dos voluntários e ao amor por aquilo que fazem. Isabel disse que o presidente da Câmara de Seixal (prefeito) é muito prestativo e tem tentado ajudar ao máximo, mas a situação econômica da cidade e do país realmente não favorece. Depois de saber disso, voltei a observar Maria ensinando aquela gente, engasguei, me sentei e admirei.

De repente, vejo andando um homem de uns 40 a 50 anos, moreno, cabelo grande grisalho amarrado, fumando um cigarro, com um agasalho do Tocá Rufar. Tinha jeito de mestre e não me enganei. “Ali, Nádia, é ele o Rui!”, disse Isabel sobre o pioneiro do grupo. Fui então conversar com ele. Muito simpático e aberto, me recebeu bem e me contou mais sobre o grupo e sobre o incêndio. Ele estima um prejuízo de 1 milhão e 400 mil Euros. E tem mais, a sede, que era de propriedade deles, ainda não tinha sido quitada. Por outro lado, sem nenhum tom lamurioso em sua fala, ele contou que só esse ano já tinham feito mais de cem apresentações. É com o dinheiro da venda dos shows que estão se recuperando.

Rui também me contou como foi fazer o festival esse ano, que acontece sempre em maio. Ou seja, a dois meses do evento, a tragédia. Sem palcos, sem equipamentos de som, sem ajuda de custo para trazer outros grupos de bombo, o festival aconteceu. Os grupos de fora se organizaram para conseguir transporte até Seixal e então fizeram cortejos e apresentações pelas ruas. Não pararam e não vão parar. Para o ano que vem, o festival será realizado com 50% do orçamento que geralmente tinham.

Maria, Rui, Isabel e todos envolvidos com o Tocá Rufar me fizeram pensar no verdadeiro significado de um trabalho cultural. Pensei nas dificuldades que temos em Goiás de conseguirmos financiar projetos culturais, nos problemas com nossas leis de incentivo e no justo desânimo que isso gera aos produtores e artistas. Ainda que falte muito para cultura ter seu devido reconhecimento e investimento, nunca deve faltar a inspiração e a paixão, que vão além de vontades e projetos individuais. Rui e membros da orquestra ensinam professores de ensino básico os ritmos tradicionais para passar aos pequenos nas escolas. É uma paixão pela cultura nacional, é um compromisso com a história e com o país. Valeu, Tocá Rufar! Que a lição sirva para tantos fazedores de arte.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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