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O Amor, a Morte e as Paixões

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13.02.2017 - 10:50:28
 
Goiânia – Palco de sonhos. O encontro. Um sopro de luz no fim do túnel diante de uma programação de cinema contaminada pelo marasmo de filmes boçais com os quais nos defrontamos a cada ida aos shoppings centers. Pluralidade de ideias, um evento que prima pela democracia. A décima edição da mostra O Amor, a Morte e as Paixões será realizada de 15 de fevereiro a 1º de março, no Cine Lumière Bougainville.
 
A mostra reza a cartilha do crítico e programador Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa (e um grande cinéfilo): "Como crítico, não abro mão de minha subjetividade, e como programador, não abro mão de filme algum". É, justamente, este preceito que rege e faz com que este festival seja duradouro e que atraia público de todos os gostos.
 
A programação é composta por cem filmes de diferentes países, dos quais já assisti a vinte e sete deles. Com certeza, pelo meu lado subjetivo, alguns não entrariam em cartaz, mas compreendo a necessidade seguindo o preceito de Henri Langlois. Acima de tudo, os filmes precisam ser vistos. Os filmes mais badalados e que estão presentes em praticamente todas as salas durante o ano, muitas vezes não são nem de longe os melhores, ou sequer bons.
 
Nesta edição, dos filmes que vi, arrisco-me, indubitavelmente, a cravar que De Punhos Cerrados (1965), uma das maiores obras-primas de Marco Bellocchio, um dos melhores diretores do cinema italiano, seja o melhor filme. Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola, também merece destaque. Infelizmente, apenas estes dois filmes antigos fazem parte da programação. Para mim, seria preponderante que houvesse mais filmes com este perfil, pois este seria o momento ideal para a lapidação do gosto do espectador.
 
Os dois filmes recentes de Bellocchio estão na programação: Sangue do Meu Sangue (2015) e Belos Sonhos (2016). O primeiro é um filmaço em que o pecado surge como uma forma de resistência na sociedade italiana. O segundo é um dos que mais quero ver. Ouso dizer que, se houvesse somente esta trinca deste grande autor, a mostra já valeria a pena. 
 
Felizmente, a programação não para por aí, e se aprofunda em um panorama essencial do que há de melhor no cinema recente. Toni Erdmann (2016), de Maren Ade, é um dos melhores filmes que vi recentemente; Elle (2016), de Paul Verhoeven, é impregnado por ambiguidade e remonta às melhores comédias burguesas de Claude Chabrol; A Assassina (2015), de Hou Hsiao-Hsien, merece destaque especial, pois é um belo filme de um dos melhores diretores em atividade; A Criada (2016), do sul-coreano Chan-wood Park, transborda sensualidade em uma trama que respira o desejo.
 
Vale muito assistir a Incompreendida (2014), de Asia Argento – filha do mestre Dario Argento -, uma maravilhosa homenagem a Quando o Amor é Cruel (1966), um clássico absoluto do cinema italiano realizado por Luigi Comencini; John From (2015), de João Nicolau, é uma pérola e mostra a potência do cinema português; Phoenix (2014), de Cristian Petzold, e Romance à Francesa (2015), de Emmanuel Mouret, merecem atenção especial, assim como os belíssimos A Odisseia de Alice (2016), de Lucie Borleteau e Aquarius (2016), de Kléber Mendonça Filho.
 
O novo filme de Richard Linklater – Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (2016) – é um filme despretensioso, de uma leveza que é inexorável brotar o sorriso no rosto ao término da sessão. La La Land, filme que abocanhou inúmeros prêmios e favorito ao Oscar, é um belo musical. Há outros bons filmes indicados pela academia como A Chegada (2016), Manchester à Beira-Mar (2016), A Qualquer Custo (2016) e Até o Último Homem (2016).
 
A ausência de alguns mestres como Júlio Bressane, Kiyoshi Kurosawa, Eugène Green, Paul Vecchiali, Johnnie To, Apichatpong Weerasethakul e mais um ou outro que, possivelmente, deva ter me esquecido é muito sentida, mas é inevitável. Todavia, esta mostra, idealizada pelos amigos Lisandro Nogueira e Gérson dos Santos em 2001, é um ato de resistência admirável e uma ótima alternativa a quem não gosta de carnaval.
 
Espero que o espectro da mostra a transcenda e bons filmes se tornem uma rotina, uma vez que Goiânia está tão carente deles, bem como que o público não seja abundante, somente, durante o evento, mas que faça do bom cinema uma prática corriqueira. Cinema perene que não é esquecido ao término da sessão e que sempre ecoa em nossas mentes e preenche, brilhantemente, uma gravíssima lacuna. 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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