São Paulo – Você provavelmente passou por conteúdos deste tipo navegando nas redes sociais nas últimas semanas: novelinhas geradas por inteligência artificial protagonizadas por frutas em corpos humanos, envolvidas em histórias sobre romances e a vida cotidiana.
São as “novelas das frutas”, que acompanham as aventuras de personagens como a Moranguete e o Abacatudo e, sob a máscara de entretenimento inofensivo, reforçam estereótipos de gênero e discursos misóginos, segundo especialistas.
As novelas das frutas não surgiram no Brasil. A moda veio de fora, mas é difícil traçar sua origem. Antes mesmo das novelas, vimos a tendência das frutas e legumes falantes e irritadiços, que davam dicas de armazenamento e consumo.
Segundo reportagem do Wall Street Journal, a tendência das novelas começou a crescer com Fruit Love Island, versão com as frutas antropomórficas do reality americano Love Island. O formato foi popularizado em perfis do TikTok como @ai.cinema021 e alcançou cerca de 10 milhões de visualizações cada na primeira semana depois do lançamento, no início de março deste ano. O perfil já passa dos 2,7 milhões de seguidores no TikTok.
Ver essa foto no Instagram
No reality original em questão, diversos jovens solteiros vão para uma ilha luxuosa e precisam competir por amor e dinheiro. O objetivo é formar casais e enfrentar os desafios em busca do prêmio final. Na versão gerada por IA, acontece praticamente a mesma coisa. A diferença é que os competidores são frutas como banana, morango, uva e abacaxi, que se beijam, flertam, choram e traem.
Embora já tenham se espalhado para além deste perfil inicial, a identidade de quem está por trás das novelas de IA — e, portanto, de quem está lucrando com isso — ainda é um mistério.
Formato brasileiro
Se nos Estados Unidos o formato ganhou força na estilização de um reality, a versão nacional assume suas próprias particularidades, incluindo gírias locais e dilemas comuns em novelas tradicionais. A embalagem colorida ajudou a popularizar os vídeos curtos, embora seus conteúdos nem sempre sejam tão corriqueiros assim. As frutas reproduzem lógicas misóginas e estereótipos de superioridade masculina, enquanto as frutas femininas são normalmente interesseiras e infiéis.
Considerando o ritmo desenfreado de produção desse tipo de vídeo, não demorou para que a história fosse além. Algumas redes já foram permeadas também por conteúdos pornográficos das frutas. O desafio de controlar e verificar a criação e disseminação deste material torna-se ainda maior.
O crescimento das novelas verticais
Mas por que esses vídeos viralizaram tão rapidamente? O fato é que a criação dos vídeos por IA pega carona em duas tendências fortes em redes sociais: o consumo cada vez maior de conteúdos rápidos e a falta de atenção ligada ao excesso de telas. Diante desta espécie de impaciência crônica que parece tomar conta de gerações cada vez mais novas, sobra um espaço do entretenimento a ser preenchido.
A própria Globo já localizou esta tendência do consumo de novelas verticais e busca ocupar este espaço com produções como Loquinha, Uma Babá Milionária, Meu Marido Me Vendeu Para Meu Ex, Cinderela e o Segredo do Pobre Milionário, entre outras.
Mesmo assim, as novelas das frutas parecem ter dominado o espaço com mais facilidade.
Como são os episódios?
Há uma variedade incontável de novelas e histórias paralelas geradas por IA. A maioria identificada pela reportagem traz histórias de casais e envolve casos de traição. Em um dos episódios, Monraguete dá à luz o filho e Abacatudo, o pai, rejeita a criança por ela ter uma mancha. Mãe e filho então vão morar sozinhos.
Em outro episódio, Moranguete é uma garota de programa e o Abacatudo a contrata por 10 anos — após perguntar qual o preço que ela cobra e ela responder que são R$ 200 por hora. Eles constroem uma vida romântica juntos e têm uma filha. Mas, ao completarem os dez anos, ela ignora os apelos dele e abandona a filha para voltar aos programas.
Em outra, a Maçã é namorada do Bananão e vai à casa que ele divide com o Abacatudo. Ela reclama que o namorado está estudando demais e que sente falta dele. Mais tarde, torna-se amante do Abacatudo após aceitar suas investidas. (Agência Estado)
