Andressa Bueno
Goiânia - “É muito mais fácil a gente ser castrada do que ser orientada”. A declaração e de Wilsara Alves, 37 anos, mulher preta do quilombo Nossa Senhora Aparecida, em Cromínia, Goiás. Para as mulheres quilombolas, o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, transcende uma simples data no calendário. Diante de uma vulnerabilidade entrelaçada à violência, a luta pela sobrevivência começa pela defesa do próprio território.
Por definição, os quilombos são grupos étnico-raciais formados por populações que resistiram cultural e socialmente ao longo da história. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1.696 municípios brasileiros abrigam comunidades quilombolas. Em Goiás, são 30.387 pessoas que se autodeclaram moradoras dessas comunidades.
O quilombo Nossa Senhora Aparecida ainda aguarda a certificação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Essa pendência levou Wilsara a buscar oportunidades de trabalho fora do quilombo, atuando como pedagoga. “Se a gente tivesse ressarcimento pelas pequenas coisas que fazemos, como o artesanato ou o plantio das ervas, por exemplo, nós não teríamos que sair do quilombo. Ervas ancestrais e sagradas, como a muda de poejo, vique e hortelã, são cultivadas em grande escala pelos centros urbanos, mas essas ervas vêm do interior. Nós plantamos e colhemos seguindo um ensinamento ancestral”, defende Wilsara.
Wilsara Alves, quilombola da comunidade Nossa Senhora Aparecida (Foto: Arquivo pessoal)
“Quando buscamos a nossa valorização, percebemos que há muito machismo dentro dos espaços de poder e nas decisões tomadas. Nós somos muito invisibilizadas. O machismo e o racismo afetam muito o nosso dia a dia. A gente tem que sempre ter um homem ali do lado para, às vezes, conseguir algum benefício”, diz Wilsara, ao comentar sobre a dificuldade de acesso do quilombo a questões básicas, como transporte para estudantes irem à faculdade em Goiânia, por exemplo.
O direito à saúde também é um desafio para as mulheres da comunidade. A pedagoga relata que muitas quilombolas sustentam suas famílias por meio da agricultura familiar, atividade que exige esforço físico intenso. Essa realidade é ainda mais preocupante considerando a predisposição dessas mulheres a desenvolver câncer de mama e de útero. O isolamento geográfico do quilombo dificulta o acesso a atendimento médico, disponível apenas em cidades maiores ou na capital.
Em um breve relato, Wilsara contabilizou três mulheres de sua família que passaram por cirurgias de remoção do útero e enfrentaram complicações médicas. Uma prima teve a bexiga perfurada durante o procedimento, situação semelhante à vivida pela própria Wilsara. “Quando eu fiz minha histerectomia por conta de miomas, aos 29 anos, peguei infecção hospitalar por negligência médica”, relembra.
Violência e "cultura do silêncio"
A cultura do silêncio, reforçada muitas vezes por questões religiosas, cala os casos de violência contra as mulheres do quilombo Nossa Senhora Aparecida. Wilsara Alves, pedagoga da comunidade e também turismóloga, afirma que a violência contra a mulher é tratada como um problema familiar, o que faz com que meninas e mulheres permaneçam presas a relações abusivas, muitas vezes sem sequer reconhecer a gravidade da situação em que vivem.
“É um ciclo de violências muito sérias. A gente já nasce sendo violentada”, desabafa, ao relembrar sua própria história. Wilsara foi abusada sexualmente aos 15 anos, engravidou e acabou casada com seu agressor por duas décadas. Sua mãe tentou denunciar o homem, mas foi silenciada. “Eu me perguntava: por que isso? Por que a gente se acostuma a ser maltratada. E aí, como que eu vou denunciar essa pessoa? É muito difícil para nós, quando somos violentadas. Falar sobre isso e aceitar que o que a gente passou é uma violência é difícil”, relata.
8 de março
Questionada sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Wilsara ressalta que a data é um marco de lutas, um momento para celebrar conquistas, mas também para refletir sobre os desafios que ainda precisam ser enfrentados. “É um dia para nos unirmos em solidariedade, reivindicarmos nossos direitos como mulheres, mas especialmente nós: mulheres negras, quilombolas e periféricas. Nós precisamos lembrar das lutas diárias que são atravessadas pelo racismo e pelo machismo, principalmente falando da área da saúde”, afirma.
A fala de Wilsara reforça a importância de olhar para as interseccionalidades que marcam a vida das mulheres quilombolas, destacando a necessidade de combater o machismo, mas principalmente o racismo estrutural que amplia suas vulnerabilidades.
Representatividade
Edma Soares, também integrante do quilombo Nossa Senhora Aparecida e tia de Wilsara, foi aprovada no curso de medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) para o ano letivo de 2025. A estudante ingressou por meio do programa UFGInclui e destaca a gratidão pela oportunidade de servir como inspiração para a juventude quilombola.
Edma Soares, caloura de medicina da UFG (Foto: Arquivo pessoal)
“É mostrar que a transformação vem através do estudo e do esforço pessoal. Quando a gente tem essa oportunidade, temos que mostrar que conseguimos sim. Não podemos desistir e achar que não é para a gente ou que não é possível. Ter essa oportunidade de representar, de ser fonte de inspiração, é um ganho imensurável”, enfatiza Edma.
A conquista de Edma não é apenas pessoal, mas um motivo de orgulho para toda a comunidade. “A nossa luta hoje é formar médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras pretas, do quilombo e que entendem a realidade de lá”, afirma Wilsara, sobrinha de Edma.
Cultura quilombola
Lucilene Kalunga, 42 anos, é integrante do quilombo Kalunga, o maior do estado de Goiás, localizado em Cavalcante. Turismóloga, assim como Wilsara, Lucilene trabalha na cidade, mas dedica-se a desenvolver atividades no quilombo e a levar sua cultura para além do território. Além de apresentar o cotidiano da comunidade aos turistas, as iniciativas promovidas por ela impulsionam a economia local.
Lucilene Kalunga, pertecente ao quilombo Kalunga (Foto: Arquivo pessoal)
“Eu faço esse trabalho de mostrar como é a nossa cultura. Essa semana eu estou aqui [quilombo Kalunga] e já visitamos algumas fazendas, casas e fizemos rapadura. Mostrei como se fazia a linha de algodão antigamente, como se tecia, fiava, e até como é o plantio. O modo de colher e de plantar, é o dia a dia mesmo do nosso quilombo, e aí acaba que a gente movimenta a economia da comunidade também”, relata.
A atuação de Lucilene preserva as tradições quilombolas e também fortalece a identidade cultural, além de gerar renda para a comunidade, demonstrando a importância do turismo como ferramenta de valorização e sustentabilidade.