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Nossos jardins minados

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27.07.2020 - 09:10:00
 
Goiânia – Somos todos escritores. Se transcrevêssemos o que falamos e pensamos, teríamos diálogos, crônicas, reflexões evolutivas, poesias… Julgamentos infantis, preconceitos velados… Criações épicas, doces monstruosidades… Temos gritos parados no peito. Estufas de livros encadernados de musgo, tumores floridos. Gritos em forma de texto, palavras latentes como bombas enterradas em jardins sufocados.

Tudo o que não dizemos também é literatura. Dizem que as letras que ruminamos encontram frestas no corpo para desabrocharem em forma de pequenas dinamites coloridas, capazes de estragos brutais e grandes desmatamentos. Tudo o que não dizemos também é literatura.

Quando cortamos as asas de nossas palavras, elas despencam no terreno do corpo e se transformam em plantas. Imagine-se regando um corpo de terra, um céu de pensamentos, palavras que voam, letras-sementes. Voei com o sol e uma bicicleta e da minha boca alegre desabrochou uma rosa.

Queria poder ensinar a alegria, dizer que li que somos tudo o que não somos. Se varrêssemos as folhas, nos encontraríamos. Hortas verticais de legumes verdes, espinhos de pontas arredondadas, pés de feijão gigantes. Há pegadas sobre nosso jardim, de atritos às vezes, de traumas, rancores, eu sei. Sobre nossa lama, a tempestade lava nossas dores, com amores, amigos e descobertas botânicas.

Somos tanto amor, tanta terra, tanta imensidão. Campos de lavanda sem fim em horizontes arredondados pelo infinito. Queria poder ensinar a alegria, dizer que somos tudo o que não somos. Estou escrevendo entre matos altos e só vejo verde e céu. Só consigo ver a esperança daqui. Nossos abraços de adubos, pessoas que admiramos. Tanta flor, tanta cor, tanta chuva.

Um dia seremos todos jardins e riremos de quando víamos apenas a dor, fingíamos a perfeição e cobrávamos do outro o que não encontrávamos em nós. Gritos que deixamos de cultivar e que viraram alimento para nossas orquídeas.

Há tantas espécies, formatos, brisas perfumadas. Venham abelhas à nós, redemoinhos de borboletas, libélulas rasando sobre nossos lagos. Cobertores de fauna e flora. Venha a nós o instinto animal e protetor. 
 

A dor do caule cortado, a regeneração das mudas, a vida verde no cinza da radiação. Sol, clorofilas, nosso sangue que colore a complexidade das papoulas. Estrelícias, violetas, vitórias. Tudo o que não dizemos também é literatura.
 
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por Jefferson Schroeder

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