Raphaela Ferro
Goiânia –
Os primeiros dias na prefeitura de Senador Canedo foram bem movimentados para Fernando Pellozo (PSD). Ele enumera as situações pelas quais já passou em dois meses de gestão: falta de água em decorrência do rompimento de adutoras, greve de médicos da rede municipal que estavam sem receber salário, inundação na Vila São José, indefinição sobre tratamento da bebê Elisa, com síndrome de hipoplasia do coração esquerdo
, sem contar as ações voltadas para lidar com a pandemia de covid-19. Por isso, ele considera que sua gestão mesmo, na verdade, vai começar neste mês de março.
Os desafios atropelaram as prioridades apresentadas no período de campanha, como a criação de um hospital na cidade e a regularização da questão da falta de água, que é um problema recorrente em Senador Canedo, assim como a questão do transporte público. Além disso, afirma que pretende propor reformulação do plano diretor da cidade. “Vamos revisá-lo e discuti-lo com a sociedade”, enfatiza, lembrando que na última aprovação, em 2019, foi um dos manifestantes contrários à aprovação do plano diretor na Câmara de Vereadores.
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Em entrevista na sede do jornal A Redação, Pellozo lembrou da votação de mais de 63% na eleição, o que acredita ter justificativa no fato de a população reconhecer seu trabalho como fisioterapeuta no serviço público municipal e também como gestor, além do apoio do senador Vanderlan Cardoso e a rejeição ao prefeito anterior, Divino Lemes (Podemos). Segundo Pellozo, na chegada à prefeitura, o que encontrou foi uma uma dívida que ele acredita que pode chegar a R$ 200 milhões.
Jornal A Redação: Como tem sido o início da gestão na prefeitura de Senador Canedo?
Fernando Pellozo: Ainda estamos passando por um profundo processo de reconstrução administrativa. Já sabíamos que pegaríamos esse cenário. Recebemos a cidade sem água, com greve de médicos, sem a folha de pagamento do mês de dezembro paga. Foram desafios imediatos que a gente teve que resolver. Tinha bairros há 15 dias sem água e conseguimos resolver em 12 dias. Com as chuvas, romperam algumas adutoras e voltou a faltar água. A gente está substituindo a tubulação de plástico por uma tubulação de aço carbônico para que isso não volte a acontecer. Já deixamos o sistema mais robusto, conseguimos encher os reservatórios. Conseguimos pagar a folha de dezembro em duas vezes em janeiro. Isso afetou a saúde financeira que já está frágil. Estimamos uma dívida que pode variar de R$ 100 milhões a R$ 200 milhões, incluindo empréstimos que foram feitos. A gente não tem uma noção mais sólida da situação financeira ainda. Sabemos que está crítica. Eu ainda não comecei a administrar, a gente está só resolvendo esses focos de incêndio. Tem médico lá que, quando a gente assumiu, estava desde agosto sem receber.
AR: Como o senhor pretende lidar com a questão da falta de água, que é recorrente?
F.P.: São vários problemas. Inicialmente, faltava água porque faltava combustível em um sistema de captação chamado Sozinha. Construíram uma subestação, mas nunca ligaram. Essa estação, essa captação, funciona com geradores que consomem mais de 2.400 litros de diesel por dia. Isso dá em torno de R$ 250 mil a R$ 300 mil de combustível por mês. Eles não pagavam combustível, por isso desligavam os geradores. Renegociamos uma dívida junto à Enel. Agora, a gente vai ligar a subestação para parar esse problema da alimentação dos geradores. A curto prazo foi resolvido. Conseguimos encher os reservatórios e estamos desenvolvendo um plano emergencial para o período de seca que está chegando, porque o problema lá é crônico. Nós temos um reservatório de 10 milhões de litros que fica na parte mais alta da cidade, mas quase nunca fica cheio porque o consumo é muito alto. Então, não sobra para encher. Quando rompe uma adutora, esvazia. Os primeiros setores a ficarem sem água são esses da parte mais alta e, até encher de novo, são os últimos aonde chega a água quando conserta o problema. Nessas regiões, nós já ativamos sete poços artesianos que estavam desativados, faltam oito para reativar para que eles não dependam só desse reservatório. A médio prazo vamos fazer algumas modificações no sistema.
AR: Dá para pensar em uma prioridade da gestão agora?
F.P.: A água é prioridade, e a limpeza. Em janeiro, foram retiradas 22 mil toneladas de entulho da cidade. E gastou-se 280 toneladas de massa asfáltica só para tapar buraco, nem é recapeamento. Então, as prioridades foram a água, a limpeza urbana e recompor o quadro de médico nas unidades de urgência. E teve a inundação na Vila São João, quando rompeu uma barragem e 13 famílias ficaram desalojadas. Demos toda a assistência, cedemos um Cmei [Centro Municipal de Educação Infantil] que tinha lá bem próximo e levamos alimentação. Todos já arrumaram casa para morar e o lugar foi desocupado, porque é uma área de preservação permanente que eles tinham invadido há muitos anos. Eles procuraram outras casas. Aconteceu de tudo (nesse início de gestão). Teve o caso da bebezinha, da Elisa, que a gente teve que pagar o tratamento dela em São Paulo.
AR: Como foi o desenvolvimento dessa situação?
F.P.: Nós temos a nossa assistência médica própria também, é o Iamesc, Instituto de Assistência Médica dos Servidores de Senador Canedo. A mãe dessa bebê é dependente do pai, que trabalha na prefeitura. A médica dela falou que o bebê tinha a síndrome hipoplásica cardíaca esquerda e que só seria possível tratar em São Paulo. Ela foi à Justiça e conseguiu uma liminar do juiz mandando pagar o tratamento lá. A conversa inicial é de que seria R$ 1,5 milhão. A gente não teria condições. Como é dinheiro público, a regra é entrar na Justiça. Conseguimos reverter a situação para que o tratamento fosse feito em Goiânia. E aí, ficou a briga: faz em Goiânia, não faz… Se não autorizar, você não pode pagar, o dinheiro não é meu. Quando a gente decidiu pagar, foi negado pela Justiça. A mãe foi para São Paulo mesmo assim, sem garantia de nada. Virou uma comoção nas redes, na imprensa, eu querendo pagar e esperando, até que a desembargadora autorizou, nós pagamos e foi feito o parto da Elisa no outro dia.
AR: Como o senhor vê esse início de mandato tão movimentado?
F.P.: Isso é o que eu estou lembrando de falar aqui, que marcou muito. Então, nesse sentido, a nossa gestão, para mim, começa em março. Para falar "vamos administrar a cidade, vamos começar a repensar"… Ainda tem o transporte público que está passando por uma crise violenta e eu tenho que tentar dar uma solução.
AR: Qual é a maior preocupação a respeito? O senhor conseguiu aumentar o número de carros para Senador Canedo?
F.P.: Ainda não. Em relação à covid-19, agora, é uma grande necessidade. Se não me engano, hoje trafegam de Goiânia para Senador Canedo através da linha da Metrobus cerca de 14 mil passageiros. O número de carros está insuficiente mesmo. Na verdade, o que a gente quer é fazer um plano diretor de mobilidade urbana que vai envolver o transporte coletivo, não só o ônibus, mas outras formas de transporte, fazer ciclofaixas na cidade, começar a estimular isso. Estamos trabalhando na questão do plano de mobilidade urbana, no plano diretor de mobilidade urbana, que vai olhar o trânsito na cidade não só com foco no agora.
AR: Como é o plano diretor da cidade hoje?
F.P.: Ele foi revisado no final de 2019. Inclusive, eu fui um dos manifestantes na porta da Câmara em 2019, porque não houve participação popular efetiva. Eu sou morador de lá e não fui convidado a discutir o plano diretor. Ele foi aprovado no dia 31 de dezembro de 2019, ao apagar das luzes. Até então, a gente não sabia o que tinha sido discutido, a questão da expansão urbana. Nós não fomos convidados a discutir embora disseram que sim. Hoje, o Ministério Público pediu a relação das áreas que foram doadas, dá para fazer realmente um novo plano diretor. A gente vai revisá-lo e discuti-lo com a sociedade.
AR: Como equilibrar esses projetos com as dívidas que o senhor falou que a prefeitura tem no momento?
F.P.: Primeiro, é pegar essa situação financeira, e agora nesse cenário de pandemia estamos bem cuidadosos, e ver o que tem que ser feito. Tem essas questões da água, que é prioridade. Na saúde, ainda não incluo a questão da construção do hospital municipal, mas seu planejamento. Em um levantamento preliminar, para repor os remédios, leites e dietas que estão faltando desde janeiro, a gente gastaria cerca de R$ 5 milhões. Então, a gente ainda está fazendo um levantamento dessas necessidades reais e já fazendo orçamento. Hoje, a água é prioridade, a saúde é nossa prioridade… Feito isso, a gente tem, em um segundo momento, condições de ver essa questão do endividamento.
AR: Dá para caminhar sem essa percepção real de endividamento?
F.P.: Nós estamos caminhando porque a gente está fazendo só o básico. No momento, não estamos investindo, retomando obras muito devagar, muito lentamente, mas já estamos. A construção do Paço Municipal foi retomada no dia 22. Estava parada desde a época do Vanderlan (Cardoso), tem 11 anos. Para nós, foi motivo de alegria porque as estruturas físicas das secretarias e da prefeitura estão lastimáveis, assim como as dos postos de saúde, das escolas. Conversei com o secretário de Educação no sentido de reformar todas as escolas antes da retomada das aulas presenciais, são 48 escolas municipais.