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No trânsito, #somostodosPatetas

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20.11.2014 - 20:16:51

Goiânia – A região onde moro, em Goiânia, passa por mudanças frequentes no trânsito: ruas que ganharam mão única, sinalização, sentidos alterados, conversões proibidas… Essas coisas que a engenharia de trânsito vez por outra tenta para melhorar o fluxo e tornar a cidade mais habitável. Mas uma coisa engenheiro nenhum consegue mudar: a cabeça do motorista.
 
Creio que seja um fenômeno nacional, mas em Goiânia a boçalidade, falta de educação, arrogância e autoritarismo de quem está ao volante assume status de patologia crônica. Qualquer um que perca pelo menos meia hora por dia nas vias da capital observa centenas de infrações diante de seu para-brisa.
 
Passo diariamente pelo Jardim Goiás, nas proximidades do Fórum. Ali, a Secretaria de Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT) implantou a mão única em várias ruas. Dois meses depois, quase todos os dias eu ainda me assusto com motoristas que teimam em trafegar na mão oposta. O raciocínio (ou a falta de) é que vale a pena se arriscar a provocar um acidente ou a ser multado que dirigir 200 metros a mais e andar na linha.
 
O fenômeno não é exatamente novo e nem é exclusivo daqui, já disse. Em 1950, a Disney já apresentava ao mundo o senhor Walker (personificado pelo Pateta), um pai amoroso com os filhos que se metamorfoseava em um maníaco assim que dava a partida no carro. O cidadão pacato assumia nova persona que xinga, acelera e atropela tudo o que vê pela frente. Algo bem na linha O Médico e o Monstro.
 
Mas por que agimos assim? Para o antropólogo Roberto da Matta, o trânsito reproduz as relações sociais no Brasil. Em resumo: quem tem mais, pode mais. Assim, aquele cara que tem um carrão se sente superior ao que anda num popular e, portanto, tem sempre a preferência. Este, por sua vez, passa por cima do que conduz uma lata-velha. Por fim, só resta ao motorista do calhambeque atropelar o pedestre. Há quem diga, também, que o homem tende a compensar com o carro o tamanho (ou falta de) de seu órgão sexual – o que não sei se é verdade ou lenda urbana.
 
Seja lá qual for a explicação, essa distorção é tão relevante que existem áreas da psicologia especializadas em estudar e tratar a indivíduo que se comporta de forma violenta no trânsito. Afinal, os acidentes matam quase 50 mil brasileiros por ano (coincidência ou não, um número aproximado ao de homicídios). Outros milhares de pessoas sobrevivem, mas levam sequelas para o resto da vida. A estimativa de prejuízos varia, mas algumas colocam em valores acima de R$ 40 bilhões anuais.
 
O Brasil criou uma legislação avançada (o Código de Trânsito Brasileiro), radicalizou na Lei Seca e recentemente aumentou exponencialmente o valor das multas para algumas infrações, como ultrapassagem em local proibido, participação em racha, etc. Porém, as mudanças legislativas pouco ou nada refletem na realidade das ruas.
 
A impressão é que a transgressão está impregnada em nosso DNA. O famoso jeitinho nos persegue em todas as nossas ações. A herança colonial (machismo, patriarcalismo, patrimonialismo, clientelismo e todos os ismos mais) não desgruda da nossa pele. Parece um carma. E no trânsito não poderia ser diferente.
 
Quem respeita as leis, especialmente as de trânsito, fica com jeitão de extraterrestre. Experimente, por exemplo, trafegar dentro do limite de velocidade na Marginal Botafogo (80 quilômetros por hora): imediatamente surgirão buzinadas, luz alta, dedos em riste e outras coisas que marcam nosso estágio civilizatório. No semáforo, basta um furar o sinal vermelho e o efeito manada é imediato. Parar antes da faixa de pedestre é manobra arriscada, pois o risco de algum carro entrar no porta-malas do seu carro é gigantesco.

Isso nos faz sentir um tremendo abestalhado quando paramos no trânsito engarrafado e os espertinhos passam felizes da vida pelo acostamento. E atire a primeira pedra quem nunca torceu para que esses espertinhos sejam flagrados pela fiscalização logo ali na frente, só para se frustrar ao vê-los seguirem adiante leves e faceiros.
 
Podemos estar do lado dos que seguem as regras ou dos que as ignoram, não importa. Não há como negar: no trânsito, somos todos Patetas.
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por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

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