Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – No ambiente empresarial, as pessoas são treinadas – e corretamente – para pensar em retorno, prazo, risco, investimento e resultados. “Mas nem toda construção humana cabe inteiramente nessa lógica”, afirmou a advogada Luciana Arruda. Poeta e autora do programa “A Mulher e a Palavra”, em parceria com o Instituto Carlos André, ela foi a palestrante no evento que a ACIEG Mulher realizou na terça-feira, dia 22, no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Sua trajetória profissional passou pela gestão jurídica e por ambientes de estratégia e liderança e, nos últimos anos, dedica-se especialmente aos estudos da linguagem e do pensamento, em diálogo com a psicanálise, a filosofia e a política.
A mesa diretora dos trabalhos (Foto: Matheus Martins/ACIEG)
O convite para falar a provocou de maneira muito particular. “Há algo profundamente significativo em estarmos dentro do IHGG para conversar sobre cultura, memória e a força do legado. Esse não é apenas um lugar onde se preservam documentos, fotografias ou registros do passado. Este lugar materializa uma decisão: a de que algumas coisas não podem simplesmente desaparecer”. Em busca de respostas, ela mesmo indagou: Como medir o retorno de preservar uma memória? Em quanto tempo se mede o impacto da educação de uma geração? Qual é o prazo de maturação de uma instituição que pretende sobreviver aos próprios fundadores?
Há frutos, como frisou, que pertencem a um tempo que não se controla. E, diante disso, a pergunta deixa de ser apenas “o que nos motiva a começar” e passa a ser “o que nos sustenta a permanecer”. “O que sustenta alguém quando a recompensa deixa de ser a própria colheita?”. Ela mesma responde: “Não existe uma única resposta. Pode ser convicção, responsabilidade, amor, fé. Pode ser a compreensão de que algumas coisas são dignas de serem construídas, mesmo quando não seremos nós a receber o crédito por elas. Aliás, seremos nós a morrer por elas. Como Cristo”.
Cultura
Luciana explicou que ao se falar de cultura no ambiente empresarial as urgências são muito concretas. “Nós, empresárias, lidamos com faturamento, pessoas, estratégias, riscos e decisões. Por isso, a cultura pode acabar ocupando o lugar daquilo que reconhecemos como importante, mas deixamos para depois”, afirmou.
Os presentes ao evento da ACIEG Mulher (Foto: Matheus Martins/ACIEG)
O problema, como ressaltou, é que essa lógica costuma partir de uma pergunta: “Onde a cultura entra na empresa?”. Ela preferiu inverter a direção da pergunta: “De que cultura nasceu a maneira como fazemos empresa?”.
Para ela, antes da estratégia, da planilha e do indicador, existe uma forma de compreender o mundo. “Existe uma concepção daquilo que merece o nosso esforço, daquilo em que vale a pena investir e, em última instância, daquilo que consideramos digno de permanecer”.
– “É nesse sentido que a cultura me interessa aqui. Não apenas como clima organizacional ou valores inscritos numa parede. Tudo isso pode expressar uma cultura, mas a cultura é anterior”, disse. “A própria palavra nos conduz à ideia de cultivo. E cultivar estabelece uma relação com o tempo: quem cultiva prepara, planta, cuida e espera. Existe uma distância entre plantar e colher”.
Estratégia organiza aquilo que se quer construir, esclareceu. “Cultura determina, antes disso, aquilo que consideramos digno de ser construído”. Isso também reposiciona a empresária. “Nós não apenas estamos inseridas numa cultura; nós a produzimos pela maneira como conduzimos relações, pelas escolhas que fazemos, por aquilo em que investimos, pelo que preservamos e pelo que transmitimos”.
Uma empresa interfere na vida das pessoas e na cidade. “Forma comportamentos. Faz determinadas coisas prosperarem e permite que outras desapareçam. Quando alguém decide que alguma coisa merece continuar existindo depois de si, essa decisão já ultrapassou a economia. Há ali uma visão de mundo. E é justamente a pergunta sobre aquilo que permanece que nos leva à memória”.
Memória
Luciana tem pensado muito sobre memória. Uma das distinções que se tornou importante para ela é que memória e lembrança não são exatamente a mesma coisa. Como explicou, a lembrança pode estar em uma fotografia, numa música, numa casa, numa mesa que pertenceu a alguém da família. “A memória faz algo além: ela nos situa. Faz-nos perceber que entramos numa história que já estava acontecendo quando chegamos”, destaca. “A memória nos liberta da ilusão de que começamos em nós mesmos”.
“Nenhuma de nós começou em si mesma. Recebemos uma língua que não criamos, instituições que não fundamos, conhecimentos produzidos por outros, valores, oportunidades e patrimônio. E recebemos também coisas mais difíceis: erros, ausências, silêncios. Por isso, memória não pode ser confundida com idealização do passado”. “Memória não é nostalgia. Preservar não significa congelar”.
Levar a memória a sério, para ela, exige olhar para aquilo que merece ser celebrado e também para aquilo que precisa ser compreendido. “A memória permite que o passado converse com o presente”, frisou. “É por isso que um lugar como este importa tanto. Quando uma sociedade preserva seus registros e sua história, ela não está simplesmente olhando para trás; está preservando condições para continuar compreendendo a si mesma”. Reconheceu que nos últimos meses essa questão deixou de ser apenas intelectual. “Ela tocou a minha própria história”.
História
Há cerca de quatro meses, Luciana começou a buscar com mais atenção a história das mulheres que vieram antes dela, especialmente a história de sua bisavó materna, que foi raptada pelo cangaço. “Ela nunca voltou para casa. Há uma parte de sua história que desapareceu com ela. Não sabemos exatamente o que aconteceu depois, como foram seus últimos dias ou onde foi enterrada”.
Quando começou a olhar para essa história, com mais consciência, algo lhe atravessou: “algumas histórias chegam até nós pela palavra. Outras chegam justamente pela falta dela”, sublinhou. “O silêncio também pode atravessar gerações”, realçou. “Não tenho como preencher esse silêncio. Não posso reconstruir o que não foi registrado. Não sei o que ela pensava, o que sentia ou o que teria dito se tivesse podido contar a própria história. Não falo por ela”.
A memória dela modificou a consciência com que usa “a voz que é minha”. “Hoje eu posso falar, escrever, estudar, perguntar, discordar, ocupar espaços. E faço isso sabendo que eu também não comecei em mim mesma”. “Há uma história antes de mim. Há mulheres antes de mim. Há também silêncios antes de mim”, salientou, para completar: “A memória não modifica o passado. Ela modifica a relação que o presente estabelece com aquilo que recebeu”.
Foi justamente essa palavra – recebeu – que a conduziu ao legado.
Herança, legado
No ambiente empresarial, legado costuma aparecer associado à sucessão, ao patrimônio, à empresa familiar e à continuidade, mas Luciana enfatiza que receber alguma coisa e construir um legado não são a mesma coisa. “Um patrimônio pode ser herdado e desaparecer. Uma empresa pode atravessar uma geração e não atravessar a seguinte. Um sobrenome pode permanecer enquanto aquilo que lhe conferia significado se perde”. Para ela, “herança é aquilo que recebemos. Legado é aquilo que fazemos com o que recebemos”.
Entre uma coisa e outra aparece – como enfatizou – uma palavra que não está no debate, mas atravessa todas as outras: responsabilidade. “Nós não escolhemos nossos ancestrais nem tudo aquilo que chegará até nós. Mas há um momento em que aquilo que recebemos passa pelas nossas mãos. A partir daí, já não estamos falando apenas sobre o passado. Estamos falando sobre nós”.
Desapego
“O que faremos com aquilo que chegou até nós?”.
Essa pergunta levou Luciana a outra questão: o desapego. “Não o desapego do planejamento, da estratégia ou do pragmatismo – isso seria ingênuo. Nós somos empresárias. Planejamento importa, resultado importa e uma empresa que pretende atravessar gerações precisa ser economicamente sustentável”.
O desapego a que ela se referiu é outro: o da necessidade de controlar toda a colheita. “Se estamos falando seriamente sobre legado, precisamos admitir que algumas coisas que construímos só produzirão seus frutos quando já não estivermos aqui”.
O que leva alguém a construir algo que talvez não veja terminado? Explicou com a visão moderna, de treinamento para o empreendimento de uma forma global. “O legado começa quando o horizonte da nossa ação ultrapassa os limites da nossa própria biografia”.
O que permanece
Para Luciana, é especialmente significativo pensar sobre o que se recebe e o que permanece aqui. “Quando olhamos para a história do nosso Estado encontramos pessoas que construíram empresas e instituições, participaram da vida pública e interferiram, de diferentes maneiras, na nossa formação econômica, social e cultural”. “Não precisamos idealizá-las para reconhecer isso. Aliás, não devemos”.
Como acentuou, receber uma história não é o mesmo que construir um legado. “Uma geração pode receber um nome, uma empresa, uma reputação, um patrimônio e oportunidades. Pode receber também expectativas, rupturas e pesos. A questão começa no que fazemos depois”.
“Honrar aquilo que veio antes não significa necessariamente reproduzi-lo. Pode significar continuar, transformar, corrigir um caminho ou recuperar aquilo que foi esquecido. O que recebemos não precisa permanecer imóvel para permanecer vivo”.
Legado, como frisou, é aquilo que continua produzindo sentido quando já não se está mais presente para controlá-lo. “E essa compreensão exige humildade. Em algum momento, aquilo que construímos precisará existir sem nós: uma empresa sem sua fundadora, uma instituição conduzida por pessoas que seus idealizadores nunca conhecerão, uma história contada por quem não estava lá quando ela aconteceu.
“Quando volto à história da minha bisavó, isso ganha outro significado. Uma mulher cuja história permaneceu durante décadas quase como um silêncio dentro da minha família fez com que, gerações depois, uma bisneta começasse a procurá-la. Ela jamais poderia saber disso”.
Responder com consciência
“Nós não sabemos onde aquilo que plantamos terminará”, afirmou. “Aquilo que julgamos grandioso pode desaparecer. E alguma coisa pequena, à qual não demos tanta importância, pode atravessar gerações. Por isso, nossa responsabilidade não é controlar o futuro. É responder com consciência ao presente”.
Três definições ao concluir sua palestra: cultura é o solo que nos ensina aquilo que merece ser cultivado; memória é aquilo que nos impede de acreditar que começamos em nós mesmas; e legado é o que fazemos com aquilo que recebemos quando aceitamos que nem toda colheita será nossa. Entre as três existe uma palavra que não conseguimos evitar: responsabilidade.
“Enquanto ouvimos as histórias desta manhã podemos pensar também nas nossas. Não apenas no que pretendemos deixar um dia, mas no que já recebemos. Porque o legado começa antes da pergunta “O que eu vou deixar?”. Começa quando perguntamos: O que chegou até mim? E, a partir daí, o que encontrará o mundo depois de passar por minhas mãos?”.
