A Redação
Goiânia – Quem trabalha com revenda de máquinas, insumos ou peças no interior de Goiás conhece bem o mês de outubro. O telefone começa a tocar cedo, antes das seis, e só para quando escurece. Do outro lado da linha está um produtor com a plantadeira parada no meio do talhão, um rolamento que quebrou, uma dúvida sobre a dose do inoculante ou uma carga de semente que não chegou. Nenhuma dessas ligações pode esperar até segunda-feira.
A safra 2026/27 deixa essa pressão ainda maior. Segundo números da Conab reunidos pelo Agrolink, Goiás deve colher 20,3 milhões de toneladas de soja em 5,2 milhões de hectares, cerca de 11% da produção nacional. O plantio, porém, começou devagar. Em 12 de outubro, apenas 7% da área prevista estava semeada no estado, contra uma média histórica de 10% para o período, reflexo de chuvas irregulares e de temperaturas que chegaram perto de 39 °C no Leste goiano em setembro.
Quando a chuva finalmente firma, todo mundo planta ao mesmo tempo. E cada dia perdido na soja encurta também a janela do milho segunda safra, que depende do calendário da oleaginosa. Uma máquina parada por dois dias em novembro não é um contratempo qualquer. É área que fica fora da janela ideal, com um efeito que aparece na colheita e, de novo, na safrinha.
Por isso o produtor liga.
Pode parecer contraditório num campo que se digitalizou tão rápido. A 9ª Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, da ABMRA, ouviu 3.100 produtores em 16 estados e mostrou que a internet já chega a 98% das propriedades, ainda que apenas pelo celular. O WhatsApp virou a principal ferramenta de consulta para decisões de negócio, usado por 96% dos entrevistados. Para pedir orçamento, mandar foto de nota fiscal ou combinar uma entrega, a mensagem resolve bem.
O problema é que a sede da fazenda não é a lavoura. O Indicador de Conectividade Rural da ConectarAgro mostra que a cobertura 4G ou 5G nas áreas agrícolas do país saltou de 18,7% para 33,9% em um ano, com avanço puxado por regiões próximas a rodovias como a BR-153, que corta Goiás. É um progresso real, mas que ainda deixa cerca de dois terços da área produtiva sem sinal de dados adequado. No meio do talhão, com a máquina parada e o sol na cabeça, muitas vezes a ligação completa onde o áudio do WhatsApp fica girando. E ninguém digita um parágrafo explicando um defeito hidráulico com a mão suja de graxa.
Do lado de quem atende, a conta raramente fecha. Revendas e concessionárias do interior funcionam com equipes enxutas, dimensionadas para o movimento médio do ano, e não para as semanas de pico do plantio. O resultado é conhecido: linha ocupada, chamada que cai na caixa postal, cliente que desiste e liga direto para o celular pessoal do vendedor ou do técnico. Essa última saída parece eficiente, mas cria outro problema. A conversa não fica registrada em lugar nenhum, o pedido passa a depender da memória de uma pessoa e, se ela está no campo atendendo outro cliente, o produtor fica sem resposta.
Organizar esse fluxo não exige abandonar o telefone. Exige tratá-lo como um canal de atendimento de verdade, com fila, prioridade e histórico, e não como um aparelho que toca em cima do balcão. Um software para call center, recurso que até pouco tempo parecia coisa de grande empresa, já permite, por exemplo, que um agente de IA atenda a primeira ligação, identifique se é uma emergência de máquina parada ou uma consulta sobre status de pedido e resolva sozinho o que é simples, como horário de funcionamento, disponibilidade de uma peça ou previsão de entrega. O que é urgente segue direto para o técnico certo, e quem não pode esperar na fila pede retorno em vez de ficar ouvindo música de espera.
A diferença mais útil, no entanto, aparece depois que a ligação termina. Quando a chamada é transcrita e resumida automaticamente no mesmo histórico em que estão as mensagens de WhatsApp e os e-mails daquele cliente, o técnico que pega o caso no dia seguinte não precisa perguntar tudo de novo. Ele já sabe qual é a máquina, o que foi tentado e qual peça foi separada. Em plena safra, poupar dez minutos em cada retorno significa ganhar horas por semana.
Há cuidados a tomar. Nenhum produtor quer atravessar um labirinto de menus para falar com alguém, e uma automação mal configurada irrita mais do que uma linha ocupada. A regra prática é usar a tecnologia para encaminhar e registrar, deixando que gente experiente resolva o que exige diagnóstico. Também vale revisitar as safras anteriores: em que semanas o volume de chamadas dispara, quais dúvidas se repetem, quanto tempo um pedido de peça leva entre a ligação e a entrega. Essas respostas costumam estar espalhadas em cadernos, planilhas e conversas de celular, e reuni-las é o primeiro passo para planejar o próximo pico.
Goiás discute muito, e com razão, a tecnologia dentro da porteira: agricultura de precisão, drones, sensores, telemetria. A relação entre quem planta e quem vende recebe menos atenção, embora pese no resultado da mesma forma. A revenda que atende bem na semana em que a plantadeira quebra ganha um cliente para as próximas safras. A que deixa o telefone tocar perde espaço para a concorrente da cidade vizinha, que atendeu primeiro.
Na safra, o atendimento também tem janela. E ela é tão curta quanto a do plantio.
