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Nenhum lugar é seguro para uma mulher!

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07.12.2025 - 09:00:03

Acabamos de viver uma semana terrível, com 3 casos de violência e assassinatos de mulheres, que chocaram o país. Douglas Alves da Silva atropelou e arrastou com o carro a ex-namorada, que teve as duas pernas amputadas e segue em coma, em um hospital, em São Paulo. Bruno Lopes Barreto deu seis tiros na ex-namorada, na pastelaria onde ela trabalhava, em São Paulo. João Antônio Miranda Tello Ramos Gonçalves matou a tiros sua chefe e uma colega de trabalho, no Rio de Janeiro.

Estes crimes bárbaros dizem respeito a todos nós. Nós fazemos parte de uma sociedade cruel, machista, misógina, feminicida, que violenta e mata as mulheres, todos os dias. Não podemos fazer de conta que esses crimes não nos dizem respeito. Eles acontecem em todas as classes sociais, não são fatos isolados e fazem parte de uma cultura que não respeita as mulheres. São as piadas machistas, a desigualdade de oportunidades, os assédios, as ameaças, os tapas e empurrões, os espancamentos e estrangulamentos, os estupros e assassinatos.

A violência contra a mulher aumentou, no Brasil. O estudo Visível e Invisível: Vitimização de Meninas e Mulheres do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que 21,4 milhões de brasileiras ou 37,5% das mulheres, no país, sofreram algum tipo de violência. É o maior número da série histórica do estudo, que está em sua quinta edição e foi realizado em parceria com o Instituto Data Folha, em março.

Nós mulheres temos medo de caminhar sozinhas à noite, de usar um short, de pegar um uber, de terminar um relacionamento, de denunciar um chefe por assédio. Vivemos com um medo constante!

Mãe de menina
Há poucos dias, não pude buscar minha filha na escola, ela quis voltar de uber e eu não deixei, apesar de que meu filho volta de uber sozinho, quando precisa. Ela me questionou, com razão. Foi na semana passada, quando foram noticiados os casos brutais citados acima. Eu estava assustada por ser mulher, por todas as mulheres e por ser mãe de menina.

Nenhum lugar é seguro para uma mulher
Nenhum lugar é seguro para uma mulher, no Brasil. Homens matam mulheres em casa, no trabalho, quando caminham nas ruas de dia e noite. Alegam ciúmes, que não aceitam o fim de um relacionamento, que não admitem pensamentos contrários aos seus, que não aceitam ser chefiados por mulheres e mesmo quando não as conhecem.

Vivemos em um país, que é o campeão mundial, em números absolutos, de feminicídio, crime cometido contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Companheiros e ex-companheiros, na maioria dos casos, matam 4 mulheres por dia, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. É preciso parar com esta matança.

Na frente dos filhos
Quase 30% dos casos de violência contra a mulher acontecem em casa, na frente dos filhos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Crianças aprendem que é assim que se trata uma mulher e que esta é a forma de funcionamento de uma família. Quando crescem, tendem a repetir com as suas companheiras, o que presenciaram, em casa.

O patriarcado e o feminicídio
O patriarcado criou e cultiva a cultura do ódio às mulheres. Tem raízes na fundação do Brasil, como explica a historiadora Lilia Schwarcz, em sua rede social: “O Brasil foi criado, a partir do símbolo e da força do patriarcado. Durante o período colonial, aportavam aqui, muito mais homens que mulheres, que se tornavam donos absolutos de grandes propriedades de terras. Se comportavam como soberanos, eram donos das plantações, dos escravizados e escravizadas, que eram obrigadas a se submeter a um duplo domínio: do trabalho e do estupro. Tinham o controle sobre a lei, o comércio, a religião, a vida e a morte. Essa desigualdade patriarcal teve influência profunda sobre as relações de gênero e as práticas de subordinação das mulheres. E essa estrutura funda a misoginia e o feminicídio, como práticas sociais naturalizadas”.

As redes sociais, a imprensa e o feminicídio
Nas redes sociais, o ódio às mulheres é escancarado em inúmeros perfis, que estimulam à misoginia – o ódio contra as mulheres, que está na raiz de uma sociedade, que valoriza os homens e desrespeita as mulheres – e dão combustível à matança de mulheres. Um exemplo são os red pills, grupos formados por homens jovens, em sua maioria, com discursos sexistas – baseados na crença de que o gênero masculino é superior ao feminino – que acreditam viver em uma sociedade corrompida pelas mulheres e com diversos adeptos do movimento envolvidos em crimes de ódio contra as mulheres.

De acordo com o estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 16,1% ou 8,5 milhões das mulheres, no Brasil, relataram ter sido vítimas de crime de stalking, a prática de perseguição física ou online, que passou a ser crime, tipificado no Código Penal, em 2021.

Segundo um estudo de dezembro de 2024 do NetLab, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 42% dos vídeos analisados, no YouTube, abordavam temas com desprezo às mulheres e estimulavam a violência masculina. Um negócio que se tornou lucrativo e que monetiza a plataforma de vídeos.

Na imprensa tradicional, a imagem de mulheres vítimas de violência e assassinatos é exposta, exaustivamente, para chamar a audiência, e resulta em mais um tipo de punição às vítimas, quando o foco deveria estar no agressor, com a foto ou vídeo de quem agride e mata.

É preciso substituir a voz passiva, normalmente usadas nas coberturas jornalísticas, como: “mulheres são mortas”, pela voz ativa “homens matam mulheres”. É preciso encarar o problema. Parar de dar justificativas, como: “o marido matou, porque estava descontrolado”, “o namorado matou, porque foi traído”, “o funcionário matou, porque não queria ser chefiado por uma mulher”.

Não existe justificativa para o crime, não existe crime passional e crime em defesa da honra. Este tipo de crime não é fato isolado, são tragédias diárias, que não podem mais ser normalizadas. Assassinatos e estupros não podem ser minimizados e precisamos entender, de uma vez por todas, que as mulheres, alvos de violência e assassinatos, não são culpadas pelos crimes cometidos contra elas.

As leis e as políticas públicas
Precisamos usar o nome certo: feminicídio. Este é o nome do assassinato de mulheres, em razão de seu gênero. O feminicídio foi tipificado como crime hediondo, inafiançável e imprescritível, por lei, apenas, em 2015, e em 2024, uma nova lei passou a punição de 12 a 30 anos para 20 a 40 anos de prisão.

Já a Lei Maria da Penha completará 20 anos, desde a sua criação, em 2026. Foi um grande avanço, porque reconheceu 5 tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Prevê o afastamento do agressor, proibição de aproximação, garante o apoio à vítima, como moradia, encaminhamento para programas de proteção, assistência social, à saúde e criou juizados especializados.

Conquistas importantes, sem dúvida. Mas muito ainda não saiu do papel. Em grande parte das cidades brasileiras, o que está previsto, na lei, ainda não foi implementado, mesmo depois de duas décadas.

Em entrevista ao jornal Nexo, a pesquisadora do Fórum Brasileira de Segurança Pública, Manoela Miklos, reconhece avanços, como a criação do Ministério das Mulheres, em 2023, mas lembra que o contingenciamento de gastos do governo federal reduziu o orçamento da pasta em quase 10% entre 2024 e 2025.

“Todo o avanço no ganho de direitos humanos e civis sempre é seguido por uma tentativa de retrocesso, de manutenção de um status quo, que era conveniente para todos. Se soma a isso, a presença de líderes políticos, que têm discursos misóginos, o que autoriza comportamentos violentos contra a mulher e faz com que muitos homens, em casa, se sintam autorizados a cometer agressões, porque ouvem que é normal e é correto”, afirmou Manoela Miklos ao jornal Nexo.

Precisamos de políticas públicas efetivas no combate ao feminicídio, de medidas de prevenção ao crime, de proteção e acolhimento às vítimas, de punição dos criminosos, de campanhas de conscientização, levar o tema para as escolas, treinar os policiais e as autoridades para que saibam lidar com o problema e que parem com os discursos machistas e misóginos, mudar o enfoque da imprensa, responsabilizar os autores dos discursos, que incitam o ódio contra as mulheres nas redes e as plataformas digitais, que dão lugar a esses discursos.

Não se cale!
Ligue para a emergência, através do numero 190, no momento em que uma agressão estiver acontecendo. Ligue 180, para a Central de Atendimento à Mulher, que oferece um serviço gratuito, confidencial, por 24 horas e que recebe denúncias e fornece orientações sobre a rede de atendimento.

Neste domingo, dia 7, haverá o Ato Nacional Pelo Fim da Violência contra as Mulheres e a Mobilização Nacional Mulheres Vivas. Se informe sobre onde será, na sua cidade. Em Goiânia, o Mulheres Vivas será na Praça Universitária, a partir das 15 horas. Participe!

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por Eliane de Carvalho

*Jornalista formada pela UFG, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), onde mora há 5 anos

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