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Nasci filha

10.05.2024 - 12:21:00
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Já nasci filha, mas minha mãe não nasceu mãe. Essa versão de mainha nasceu junto comigo. Unidas na dor, no choro e na descoberta de um novo mundo. Sempre estivemos juntas em tudo, desde as madrugadas de cólica de menina bebê às de menina mulher. A flor mamãe acompanhou todas as primazias que tive: os primeiros passos, o primeiro dia de aula, a primeira formatura, o primeiro namorado, o primeiro salário.
 
Seu ventre foi o primeiro universo que toquei, seu coração foi a primeira música que ouvi, estive imersa em ti. Enquanto eu, informe, era gerada do lado de dentro, podia sentir que do lado de fora você era gerada também. Notei suas indecisões sobre mim, o medo de me ter, o peso da responsabilidade, a indecisão na cor do meu quarto.
 
Seu ímpeto, de me permitir nascer, a fez trilhar um caminho de renúncias. Renúncia do corpo estético, do sono regulado, da carreira, das viagens espontâneas e de tantas outras metas. Ainda hoje, busco fazer valer a pena cada sacrifício, no entanto, nada que eu faça é capaz de mudar seu amor, pois nunca foi sobre mim, mas sobre sua entrega e caráter, valores impressos em ti.
 
Nasci de uma mulher comum, um indivíduo, um dado dentro da população mundial, porém para mim… ela é tudo! Não a vejo pelos olhos da estatística ou algo distante, mas como uma base estrutural, um alicerce que me mantém de pé. És o primeiro verdadeiro amor que já conheci.
 
Não há mágoas em meu peito. Sei que em cada detalhe deste o melhor que podia, nas condições que tinha. Peço perdão por cada birra do adolescente que há em mim e insiste em sobreviver.
 
Hoje sou menina mulher e ainda me sento em seu colo, te conto tudo e ainda pergunto se hoje é um bom dia para lavar o cabelo, ou se amanhã fará frio. Já me servem seus sapatos e trabalho com os ternos que eram seus.
 
As fases têm-me feito crescer e voar, contudo, sei que em ti terei sempre um lar. Mesmo que ainda a coragem me vacile em meu peito, sei que estou pronta e que formasse uma mulher que irá viver com destreza, até morrer e renascer mãe.

*Mariana Brandão: jornalista, produtora cênica e escritora

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por Mariana BrandÃo

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