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Não se abandone mais

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05.05.2017 - 17:27:20
Querida Cláudia,
 
Como é triste o fim de uma relação. Enterrar com mágoa o que um dia foi regado com amor é bastante dolorido. Mas talvez seja necessário, para que a gente aprenda a se relacionar consigo mesmo de um modo mais saudável. Você me pergunta o que fazer para não sofrer mais assim. Se eu soubesse, já estaria milionária.
 
Términos de relações afetivas são sempre complicados. Depois de algumas decepções, cheguei à conclusão de que não há receita para o sucesso nessa área. Assim sendo, quem sou para te dizer rumo tomar. Posso, no máximo, opinar sobre o que não deve ser feito, porque a experiência nos ajuda a agir por exclusão.
 
Minha primeira sugestão é que você não se abandone mais. Você me contou que foi largada por ele. Discordo, acho que você se abandonou antes. Você se anulou tanto para que essa relação desse certo, abrindo mão dos seus desejos, amigos, até mesmo da sua personalidade, que não sobrou ninguém para ser deixada.
 
Ele não abandonou a mulher que conheceu. Deixou um fantasma, o espectro de alguém que não existe de fato. Olhar para você era como olhar para o vazio. Você quis tanto se tornar a mulher que pensava que ele desejava, que matou sua essência e se transformou numa serviçal, sempre pronta a atender os desejos dele.
 
Minha outra sugestão é que você não transforme mais sua vida em algo terrível, para que alguém tenha de salvá-la do seu inferno pessoal. Que você busque a arte, as viagens, os livros, os esportes, os amigos e os pequenos prazeres para enriquecerem seu dia a dia e te livrarem da ânsia de sair correndo da sua rotina. 
 
Não se transforme também na Mulher Maravilha de ninguém. Não busque alguém tão fraco, que não tenha nada a te oferecer além dos problemas e dilemas dele; que te faça acreditar que você não merece receber, mas apenas dar afeto. Procure a troca, a parceria de verdade, o ganha-ganha.
 
Você me fala que não sente apenas tristeza, mas também ódio, porque ele te trocou por outra mulher, com quem ele já estava te traindo há um tempo. Pois eu te digo para não odiá-la: você deveria agradecê-la. Graças a ela, você se livrou de um relacionamento tóxico e abusivo. Ela te fez um bem.
 
Se respeito é o que fazem na nossa frente e caráter é o que fazem pelas nossas costas, então por causa dela você descobriu exatamente o caráter do homem com quem estava. Não se compare com ela, não investigue, não fuce. Ela entrou na sua vida para te livrar de alguém que não te merecia, e cumpriu lindamente essa missão. 
 
Você me pergunta por onde recomeçar. Imagino seu vazio. Já estive no seu lugar. Ficamos tão ocas por dentro, que podemos sentir um vento gelado nos atravessando. Esse buraco não deve ser preenchido por outra pessoa, mas por você mesma. Porque é só quando não precisar de alguém, que você terá alguém que te mereça. 
 
Esse vazio que hoje te congela e oprime servirá para lembrar que você se deu demasiadamente para o outro, sem que restasse nada para si mesma, e que isso não pode mais acontecer. O buraco vai sumir, mas será um marco na sua vida: te recordará da importância do amor próprio, para que estar com alguém seja uma escolha, não uma necessidade. 
 
Comece recordando quais são os seus sonhos. Que metas você pretende alcançar e que deixou no meio do caminho, por causa dessa relação? Comece cuidando da sua saúde: exercite-se, coma bem, faça do seu corpo o seu templo. Comece vendo exposições de arte, assistindo a filmes que te interessam, ligando para os amigos de quem você se perdeu e que está com saudade. 
 
Comece valorizando sua única e preciosa personalidade. Aquela risada alta e engraçada que você solta, seu mau humor quando está com fome, o tom castanho mel do cabelo, a mania de comer abacaxi com sal, as músicas do Belle & Sebastian: pedaços seus que foram mutilados, porque ele não gostava de nada disso. Traga-os de volta. São detalhes, mas que fazem de você a pessoa especial que você é.  
 
Não tenha medo de realçar suas qualidades e assumir seus defeitos. É verdade que algumas falhas terão de ser trabalhadas, mas nunca suprimidas, porque é disso que é feita a sua humanidade; é nessas imperfeições e idiossincrasias que está o seu charme, a vida que você espalha por onde passa. 
 
A dor há de cessar, mas que o aprendizado trazido por ela fique, para que a tristeza não seja em vão. Ao final, você perceberá que essa decepção foi transformadora, porque fez de você alguém que se ama mais, que se respeita mais, e que por isso pode se relacionar com as outras pessoas de forma mais saudável. Fácil não é, mas quem disse que seria? É dessa dificuldade que você ressurgirá melhor.
 
Um grande beijo,
 
Fabrícia
 
P.S 1 – Leia este texto ouvindo “Fake plastic trees”, com Radiohead;
P.S 2- Texto baseado em carta da leitora, cujo nome foi trocado para preservar sua privacidade
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica) / [email protected]

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