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Não me venham com um dia só

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08.03.2021 - 15:15:17
 
Não é dia de comemoração, é dia de resistência. Já há alguns anos que o dia 8 de março provoca em mim sentimentos contrários ao que deveria. Referência à luta das mulheres no percurso da história, a data se mostra, mais uma vez, um momento para reforçar os estereótipos de gênero e para enfatizar ações que continuam a provocar dor. A data, que era para ser dia de reflexão sobre os direitos pelos quais ainda temos que lutar para ter, se torna um dia só a mais para reforçarem o caráter de feminilidade do ser mulher — sensibilidade, beleza, cuidado, delicadeza e resiliência — e para ouvirmos mais daquelas “piadinhas” bestas do tipo machistas, preconceituosas, misóginas.
 
Eu não sei mais lidar com “parabéns” em dia desses. Penso nas mulheres que morreram na fábrica em março de 1911, penso nas mulheres que morrem todos os dias, vítimas de feminicídio, mortas em grande parte em situações de violência doméstica, penso nas mulheres que morrem… E nas que vivem submetidas à violência física e/ou psicológica. Penso nos meus privilégios, que, mesmo sendo muitos, não me livram de relações abusivas tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Imagino quão pior é para as mulheres que não usufruem dos mesmos.
 
Felicitações não me servem, muito menos neste dia em especial. Eu quero liberdades para todas as mulheres: de ir e vir, de trabalhar com o que as realiza — e receber o equivalente ao que qualquer pessoa que exerce aquela função recebe — , de se relacionar com quem lhes faz bem, de ser esteticamente como lhes convêm, de viver como quiserem. Tudo isso, sem serem alvo de assédio moral e/ou sexual. Liberdade de dizer o que pensam e serem ouvidas.
 
Por isso e por tanto mais, não me venham com um dia só… Eu quero todos. Que todos os dias sejam de debate e reflexão sobre os espaços aos quais ainda somos impedidas de chegar. Que todos os dias sejam de empatia para entender que as vivências de cada mulher importam. Que todos os dias sejam de perceber que ainda há muito pelo que lutar — até porque não temos nem a garantia da manutenção dos direitos já adquiridos. Que todos os dias sejam de diálogo e que não nos calem.

*Raphaela Ferro é jornalista, mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professora universitária. 

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por Raphaela Ferro

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