Logo

Não dá mais: tem de haver uma mudança

WhatsAppFacebookLinkedInX
22.07.2021 - 16:18:17

O nauseante episódio ocorrido ontem (21/07) nas proximidades do camelódromo da Praça da Bíblia, em Goiânia (GO), quando o advogado Orcélio Ferreira Júnior foi agredido por policiais do Grupamento de Intervenção Rápida Ostensiva (Giro) enquanto tentava intervir na prisão de um flanelinha é um exemplo infelizmente bastante eloquente do desprestígio da advocacia goiana, de um modo geral, e criminal, especialmente. 

Em todas as profissões, há o joio e há o trigo. Em todas. Por isso adianto que reconheço e sei que, também na polícia, há profissionais honrados, de excelência e que merecem o mesmo respeito com que nos tratam. O que ocorreu ontem não representa, portanto, toda a corporação, isso é óbvio. Mas há de ser apurado com firmeza, porque ontem se cruzou o limite do aceitável. Chega!
 
Pela natureza de nossas funções, nós, advogados criminalistas, vivemos às voltas em delegacias, complexos prisionais, balcões de fóruns – principalmente quando nas subseções, casas de albergado, unidades de internação de adolescentes entre outros locais evidentemente carregados de uma energia pesada, histórias tristes, eventualmente perigosos, de estruturas quase sempre precárias. São ambientes que, entretanto, não podemos nos furtar a frequentar, para conseguirmos cumprir a contento nosso trabalho.

Há tempos temos denunciado, sempre sem sucesso, a quantidade de vezes em que nossos direitos e prerrogativas, no exercício de nosso ofício, são desrespeitados frequentemente, para não dizer diariamente. E, mais grave ainda, essa não é uma realidade vivida apenas pelos criminalistas. Advogados e advogadas de outras áreas também passam por isso, em outros contextos. Eu, que convivo com colegas que militam nessa área, conheço uma infinidade de fatos absurdos, dignos da mais pura indignação e que jamais chegaram a público. Em alguns casos, porque, de tanto vivenciar isso, alguns se tornaram resilientes à situação e desistiram de exigir o devido respeito; noutros, porque de alguma forma, a depender do caso, se sentem ameaçados mas, para a grande maioria, o que é pior, porque perderam totalmente a confiança na instituição que deveria nos representar efetivamente.

Houve um tempo em que ser advogado ou advogada era fator de prestígio. A liturgia era respeitada. O tratamento dispensado à categoria pelas autoridades policiais era cordial, respeitoso e digno da grandeza e importância de nossa atuação, tanto para as pessoas cujos interesses eram defendidos quanto para a sociedade. O artigo 133 da Constituição Federal e, também o  artigo 2º da Lei nº 8.906/1994,  reconhece ser, a advocacia, função indispensável à Administração da Justiça, por se tratar de um serviço de interesse público, com função social, mesmo quando em atuação apenas no âmbito privado.

Somos, portanto, uma categoria de profissionais que, em termos hierárquicos, se posiciona em pé de igualdade com a magistratura e o Ministério Público. 

A realidade, contudo, é bem diferente do que manda a Carta Magna e isso precisa mudar. 

Repito: Isso vai ter de mudar e urgentemente! Aliás, há muitas mudanças que já passaram da hora de acontecer.
O que ocorreu ontem com nosso colega Orcélio Ferreira Júnior é inadmissível, repugnante, inconcebível, inaceitável e não ficará, ah, mas não mesmo, livre de consequências.

Eu acredito na força da mobilização. Eu acredito no poder da união. Ontem à noite, me reuni com outros colegas criminalistas, tão impactados e solidários quanto eu com a situação de Orcélio e o encontramos na Central de Flagrantes, onde, injuriados, exauridos, decidimos que chegamos ao limite. Não dá mais. 

Os dias passarão, mas esse fato, anotem, acompanharemos diuturnamente, e de muito perto, na expectativa de que seja devidamente apurado pelo Ministério Público, pela Secretaria de Segurança Pública e pela Corregedoria Geral da Polícia Militar.  E, francamente, essa será apenas uma primeira demonstração do que a advocacia goiana pode e deve fazer, ainda que desprovida de representatividade efetiva. Unidos podemos muito. E faremos. Vamos virar essa chave e mudar esse estado de coisas. O que não dá mais para aceitar é ver um colega cuja profissão é considerada essencial para a sociedade ser tratado como uma marginal, um bandido Somos a advocacia. Temos honra e dignidade e exigimos respeito para todos. E o teremos. De uma forma ou de outra.

Pedro Paulo de Medeiros é advogado criminalista
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Paulo De Medeiros

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]