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Música e Holocausto

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28.08.2019 - 15:31:08

Paulo Guicheney é professor na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (EMAC/UFG). No segundo semestre de 2017, iniciou seu doutoramento em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa. E, neste momento, dedica-se ao processo de elaboração de sua tese que, entre outras etapas, contempla o estudo das estratégias composicionais e escolhas estéticas adotadas pela compositora israelense Chaya Czernowin (1957), na criação da ópera “Pnima… ins Innere” (2000). Trata-se de uma obra que aborda a temática do Holocausto.
 
Othaniel Alcântara: O que motivou você a escolher esse tema? E, em linhas gerais, como “Pnima… ins Innere” se relaciona com o Holocausto?
 
Paulo Guicheney: “Pnima” é inspirada no primeiro capítulo do romance “Ver: amor” de David Grossman (1954), um livro formalmente bastante complexo. A ópera é um “diálogo” entre Momik, um menino de nove anos de idade, e seu avô, sobrevivente do Holocausto, Wasserman. O velho retorna mudo dos campos de extermínio – sua fala torna-se desintegrada em um amontoado de ruídos – e a criança é inundada pela angústia de compreender sua história. A interioridade do trauma, a incapacidade de falar sobre o horror são estruturais na peça. Assim, “Pnima” é uma ópera puramente sonora, não há texto, não há libreto. É essa voz-sem-palavra que narra o “resto do Holocausto” (pensando em Agamben) o que fez com que eu a estudasse.
 

Compositor Paulo Guicheney (Foto: Othaniel Alcântara)
 
Othaniel Alcântara: Chaya Czernowin e David Grossman tiveram familiares envolvidos naquele genocídio?
 
Paulo Guicheney: É uma boa pergunta, porque diz respeito também ao que há, ou não, de autobiográfico em uma obra sobre o Holocausto. Czernowin é filha de sobreviventes, “Pnima” é dedicada a seus pais. O Holocausto era um assunto evitado em Israel antes do julgamento de Eichmann, portanto é natural deduzir que o silêncio dos adultos, essa recusa em falar, causou uma impressão profunda na geração dos dois autores. Grossman afirmou ter escrito “Ver: Amor” para vingar o assassinato de Bruno Schulz. O trauma que ele experimentou ao saber da morte absurda do escritor polonês – ele diz que perdeu a vontade de viver após sabê-lo – o levou, entre outros motivos, a escrever o romance. Czernowin, por sua vez, diz que, quando criança, vivia em um ambiente ensolarado e sentia-se protegida, mas que, ao mesmo tempo, percebia algo que não poderia tocar. Tanto “Pnima” quanto “Ver: amor” tratam desse mergulho interno em direção ao trauma.
 
Othaniel Alcântara: A instrumentação de “Pnima… ins Innere” apresenta uma orquestra de cordas, percussão, um grupo de seis solistas – que inclui sopros, cordas e um singing saw (serrote) –  e mais um conjunto de quatro vozes (duas masculinas e duas femininas). Qual o papel de cada um desses agrupamentos nessa narrativa?
 
Paulo Guicheney: Os personagens são constituídos por duas vozes cada um: as vozes femininas são para a criança, as masculinas para o avô. Há um contínuo voz-instrumento, diferentes qualidades sonoras que transitam entre esses dois espaços. Em alguns momentos, esses espaços são um só: a voz torna-se instrumento e o grupo instrumental torna-se voz. Assim como, também ocorre de determinados instrumentos estarem associados a um dos personagens, por exemplo: o sax, o trombone e os contrabaixos ao velho; a viola e o clarinete baixo à criança. “Pnima” não é uma ópera tradicional, nela não existem melodias e árias, são os complexos sonoros que a estruturam.

Clique aqui e confira o trailer de “Pnima”, encenada em Stuttgart, Alemanha.

 

Othaniel Alcântara: Em 1947, a partir de um relato verídico, o compositor judeu austríaco Arnold Schoenberg escreveu “Um Sobrevivente de Varsóvia” (A Survivor from Warsaw). O final dessa obra é muito emocionante. Um coro – representando os prisioneiros – canta em hebraico a tradicional oração “Shemá Israel”, enquanto caminham para a câmara de gás. O que você acha dessa peça?
 
Paulo Guicheney: Concordo contigo, o coral é belíssimo. Me faz lembrar o filme de Andrzej Wajda sobre o Dr. Korczak, quando na cena final o vagão que leva as crianças em direção à morte se abre e elas correm livres. Nós sabemos que isso não aconteceu, elas foram todas assassinadas, assim como o canto das vítimas não as salvou da câmara de gás. O que une essas duas obras é a ideia de que o que nos constitui enquanto seres humanos deve ser superior à barbárie. O “Sobrevivente” é, sim, uma obra notável por várias razões, tanto estéticas quanto políticas. Ela é um documento contra a barbárie. Podemos lê-la como uma resposta à questão colocada por Adorno sobre a possibilidade de uma lírica após Auschwitz; assim como também o é a obra de Paul Celan. Composta ao final da vida de Schoenberg, a peça é sua última obra prima e demonstra como o compositor continuou audacioso, mesmo em seu opus final. Basta compará-la às obras do Stravinsky desse período (“Missa” e “Orpheus”) e às do jovem Boulez (“Le Soleil des eaux” e “Segunda Sonata”), o primeiro, um tanto quanto conservador e o último, comprometido com uma iconoclastia aniquiladora.
 
Othaniel Alcântara:  O próprio Schoenberg sofreu discriminação racial por parte dos líderes do Regime. Assim, fico imaginando o aspecto emocional envolvido no processo de composição da peça “Um Sobrevivente de Varsóvia”. Qual a sua opinião a respeito desse assunto?
 
Paulo Guicheney: O impacto dessas perseguições deve ter sido imenso, naturalmente. As cartas do compositor, principalmente a partir de 1938, sempre trazem comentários sobre a situação de amigos e familiares que estavam em poder dos nazistas. Schoenberg foi demitido em Setembro de 1933, o que foi uma violação de seu contrato com a Academia Prussiana de Artes. A (nova) diretriz era, então, que a influência judaica na Academia deveria ser eliminada, segundo uma frase de Max von Schillings, seu diretor. É interessante constatar como o texto do “Sobrevivente” diz respeito também à vida de Schoenberg. A “antiga oração que eles negligenciaram por tantos anos – o credo esquecido!” é a própria (re)conversão do compositor ao Judaísmo. Schoenberg tornou-se cristão em 1898. Ao abandonar a Alemanha, em 1933, abraçou, mais uma vez, a fé judaica em uma sinagoga de Paris.
 
“Um Sobrevivente de Varsóvia” – Reg.: Simon Rattle
 
Othaniel Alcântara: Outro nome que me veio à cabeça, neste momento, foi o do francês Oliver Messiaen (1908-1992), autor de “Quarteto para o fim do tempo” (Quatour pour la fin du temps), para violino, violoncelo, clarinete e piano. Messiaen escreveu essa peça entre 1940 e 1941, enquanto era prisioneiro de guerra. A referida obra tem relação direta com o Holocausto?
 
Paulo Guicheney: Não, não tem relação. Parece-me uma boa ideia aclarar essa diferença. O “Quarteto” é uma obra profundamente católica, assim como seu compositor. Este “tempo” que tem seu fim é o prelúdio para um novo tempo, a vida eterna, conforme a tradição cristã. Schoenberg e Czernowin estão comprometidos com o trauma causado pela Shoah, é disso que tratam sua peças. Messiaen opera em um outro registro.
 
Othaniel Alcântara: Mas existiu alguma produção musical elaborada nos campos de prisioneiros?
 
Paulo Guicheney: É preciso diferenciar a experiência de Messiaen, por mais terrível que possa ter sido, em um campo de concentração (Konzentratrionslager), o Stalag VIII-A, da (não)vida em um campo de extermínio (Vernichtungslager), onde as condições para a composição (em partitura) eram nulas. Havia uma orquestra no Gueto de Varsóvia, a Zydowska Orkiestra Symfoniczna, assim como várias outras em Auschwitz. Entretanto, a única coisa realmente elaborada que existiu nos campos de extermínio foi a morte, o assassinato em escala industrial de inocentes.
 
Othaniel Alcântara: Para encerrar, qual a importância de pesquisas acadêmicas envolvendo música e holocausto?
 
Paulo Guicheney: Eu encontrei mais de 15 óperas, além de incontáveis composições sobre o Holocausto. É uma produção expressiva que precisa ser conhecida, pois ela é uma afirmação da importância da vida. Ela luta contra o inumano, contra a barbárie – tão em voga em nossos dias, inclusive aqui no Brasil. Isso nos leva a pensar em como estas composições têm uma importância que transcende seu aspecto exclusivamente estético. Talvez toda grande obra de arte seja assim: elas atestam nossa humanidade.
 
Obrigado pela entrevista*.
 
*A presente entrevista, realizada via e-mail, foi finalizada em 25/08/2019.
 
 

 
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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. [email protected]

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