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Museus às moscas

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30.07.2011 - 09:52:02


Raisa Ramos

Existem mais de 60 museus e centros culturais mapeados em todo o Estado pela Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel). Mas a pergunta que não quer calar é: quantos museus goianos você já visitou? Ou melhor: você já visitou algum? Um ou outro pode dar resposta afirmativa, mas o número ainda é baixo. Por quê? Os acervos são interessantes; a localidade, acessível; o preço – quando há cobrança -, irrisório. Será que os goianos, por tradição, não gostam de frequentar esses lugares?
 
A diretora de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado, Deolinda Taveira, discorda. "A visitação é pouca, mas não tem a ver com tradição. Goianos saem daqui e vão visitar museus de outras cidades". A diretora tem razão e é fácil comprovar a teoria. Basta vasculhar os álbuns de fotos que amigos disponibilizam nas redes sociais. As chances de encontrar registros de pessoas em museus paulistas, cariocas ou até mesmo europeus são grandes. Vânia Braga, funcionária da casa de Pedro Ludivico Teixeira, concorda com a opinião de Deolinda e também critica a pouca procura: "É como diz o ditado 'em casa de ferreiro, o espeto é de pau'. Nós não conhecemos nossa própria cultura, mas temos interesse na cultura dos outros". 
 
Se a situação da Capital é crítica, no interior é ainda pior. Durante as férias, com exceção dos lugares onde o turismo é forte, como Goiás e Pirenópolis, as instituições praticamente fecham as portas. "Lá [no interior], é bem precário. Um dia estão fechados, outro dia trocam os funcionários, que inclusive não têm qualificação para o serviço", conta Deolinda, apontando a falta de rotina de alguns estabelecimentos interioranos.
 
Michelle Fernandes, coordenadora do Memorial do Cerrado, um dos mais visitados de Goiânia, fala que, além da baixa procura, o público também reclama do preço da entrada. "As pessoas preferem pagar R$ 10 para ir ao cinema do que para ir ao museu. Elas não valorizam os objetos expostos". O Memorial, um dos poucos lugares que cobram entrada, é ligado à Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).
 
Explicações
Diretora do Museu Antropológico (MA), vinculado à Universidade Federal de Goiás (UFG), e antropóloga por formação, Nei Clara de Lima responde à primeira pergunta feita na entrevista (e colocada no primeiro parágrafo desta matéria) com outra pergunta: "Que goiano é esse?" Ela mesma responde: "Goianos são de todos os lugares, eles vêm de Minas, do Mato Grosso, do Maranhão… Parece que goiano nasce aqui, tem uma tradição rural e não se urbaniza nunca. Mas não é bem assim". A professora aposentada explica que museus surgiram da elite e para a elite, para ela se ver e fazer história. "Basta ver os grandes museus da Europa", exemplifica.
 
"Nesse caso, realmente a população não tem costume de frequentar esses lugares. A classe média não se sente confortável. Pensa-se que, para visitar museus, deve-se ter um refinamento cultural, conhecimentos literários etc. Mas não é verdade", analisa Nei Clara. A antropóloga fala também de outro tipo de museu, os etnográficos, que, segundo ela, não falam para a elite, mas sim retratam as histórias e culturas tradicionais. Por isso, eles deveriam atrair mais público. Deveriam, mas não atraem. Para entender o porquê, a diretora explica: "Tem-se também a ideia de que museu é lugar de coisa velha. Ouço isso o tempo todo. E nossa cultura tem apego à modernidade. Temos repulsa ao velho, a sermos relacionados às nossas raízes rurais". E o que os etnográficos expõem são justamente essas raízes.
 
Publicidade e melhorias
Outro aspecto que contribui para a baixa visitação, segundo Deolinda Taveira, é a falta de divulgação. "Isso tem de ser postura do Estado, tem de tornar o museu mais atrativo". Nei Clara já pensa que tal investivento sanaria o problema apenas momentaneamente. Para a diretora do MA, o que se está fazendo para tornar os estabelecimentos mais convidativos para o público é trabalhar a própria concepção expositiva. Arquitetos são contratados para aproveitar melhor a iluminação interna, as cores e os ambientes. A interação com os visitantes também é importante. "Hoje, praticamente todas as exposições trabalham com mídias digitais, assim o público tem mais interação com a obra", acrescenta. Deolinda concorda: "Museu tem de interagir com o usuário. Ele ainda não está inserido no nosso cotidiano. Mas estamos trabalhando para isso".
 
Em 2010, a UFG abriu o curso de museologia na instituição, com o objetivo justamente de ampliar a discussão e formar profissionais qualificados. "Eu, como antropóloga, acredito que as coisas demoram para mudar. É um trabalho menos 'marketeiro' e mais pedagógico", diz Nei Clara, que toma conta de um acervo total de quase 150 mil peças.
 
Do jeito que está, a maioria dos museus tem uma média de, mais ou menos, 50 visitantes diários. Alguns têm mais, com aproximadamente 60, outros menos, em torno de 40, mas a diferença é pouca. O número também varia nas férias, já que grande parte do público é composto por estudantes do ensino básico, que fazem excursões através das escolas. Este julho, entretanto, foi atípico por conta do Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizados na Capital. Se estudantes são o público número 1 dos museus locais, os turistas ficam logo atrás. Visitantes do interior, de outros Estados, ou até mesmo de fora do País também comparecem frequentemente nas casas culturais. Ou seja, são os conterrâneos mesmo que deixam a desejar.
 
Esperanças
Todos os entrevistados, contudo, têm uma opinião em comum: essa situação está começando a mudar. Para Henrique de Freitas, diretor de um dos museus mais visitados do Estado o Zoroastro Artiaga, afirma que a tendência agora é só aumentar. "O hábito está mudando graças às escolas, que trazem as crianças para cá, e também à imprensa, que ajuda a divulgar", conta. O Zoroastro, inclusive, para atrair mais pessoas, abriu suas portas para o programa Música no Museu, em que cantores se apresentam no palco do estabelecimento todos os domingos de manhã, a partir das 10 horas. O próximo espetáculo, do dia 31, contará com o músico Lucas Mendes. A entrada é franca. 
 
O lugar, localizado na Praça Cívica, é uma exceção: cerca de 80% dos visitantes são moradores locais. "Geralmente são pessoas que moram aqui a vida toda mas nunca tinham ido ao museu. Isso é ótimo. Sinal de que estão redescobrindo a cidade", vibra. Vânia Braga, do Museu Pedro Ludovico Teixeira, também é positiva: "Já vejo pais trazendo os filhos nas férias e já aconteceu de as crianças, depois de virem com a escola, trazerem os pais para conhecer", comemora. Como os historiadores gostam de dizer, é conhecendo o passado que se entende o presente e se planeja um futuro melhor. Visitar os museus locais, portanto, é essencial na rotina dos goianos.
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por Redacao Jornal

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