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Instituto Inhotim, "Narcissus Garden", por Yayoi Kusama, 2025
Instituto Inhotim, "Narcissus Garden", por Yayoi Kusama, 2025

Mundo Real

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07.12.2025 - 09:00:54
Em entrevista para o programa “Dando a Real” com Leandro Demori, a escritora e filósofa paulista, Marilena Chaui revela o lado obscuro das redes sociais e suas consequências:
“Há uma nova subjetividade produzida por esse ‘Mundo Digital’. Primeiro, é uma subjetividade narcisista, ou seja, existir é ser visto. Se você não é visto, você não existe. Então, ser visto é a primeira marca do narcisismo. Só que, como você depende, para ser visto, do olhar do outro, e você não tem o controle sobre o olhar do outro, você ininterruptamente, e como Freud dizia, o narcisismo é inseparável da depressão. Então, você tem uma subjetividade nova, que é narcisista, depressiva, e que depende desesperadamente do olhar alheio. E por isso ela depende do influencer, do coach, do não sei quem. Ela depende desses olhares todos que garantem que ela existe. Ora, quando ela não tem esses olhares externos de garantia para si própria, ela entra em depressão”.
Em 1966, a artista japonesa Yayoi Kusama realizou uma ação subversiva e clandestina, na entrada da Bienal de Veneza colocando à venda, por 2 dólares esferas metalizadas de plásticos com a descrição, “seu narcisismo à venda”. Promovendo seu trabalho e subvertendo as premissas do mercado artístico ao senil comércio de rua, Kusama atinge a audiência desejada e se torna uma das mais aclamadas artistas da contemporaneidade.
Em 2009, o Instituto Inhotim concebe um espaço especial, projetado pelos Arquitetos Associados, para abrigar uma releitura deste trabalho de esferas, agora em metal, que ela denominou de ‘tapete cinético’, num espelho d’água, localizado na cobertura do Centro de Educação e Cultura Burle Marx. Ali, a obra “Narcissus Garden”, ou “Jardim de Narciso” ganha uma nova perspectiva e uma crítica sagaz da curadora e historiadora chinesa, Danielle Shang:
“No entanto, o profundo tom narcísico foi ironicamente amplificado não apenas pela ostentação generalizada da artista, mas também pela audiência na era da Internet. Seduzidos por suas próprias imagens refletidas nas superfícies convexas, os espectadores tiram fotografias com um smartphone e as carregam instantaneamente nas redes sociais para o resto do mundo ver. O impulso de capturar e disseminar o momento em que a própria imagem se une a um objeto privilegiado em uma instituição privilegiada parece motivar a obsessão pelo eu. Para acentuar ainda mais o efeito de olhar para os seus múltiplos eus, muitas instalações agora ocorrem na água, onde o Narciso original da mitologia grega se apaixonou pelo seu próprio reflexo e acabou por se afogar”.
Eu acrescentaria que, não apenas nossa ‘obsessão pelo eu’, mas a ‘depressão subjetiva’ que se instaurou entre nós, tal como viver a serviço da aprovação do olhar do outro. O que Chaui chamou de servidão:
“Você tem a ilusão da autonomia, né? A ilusão da liberdade. E onde está a servidão? O fato de que você é um usuário. Você não é o criador de nada daquilo, você é um simples usuário. E o criador são os grandes oligopólios que controlam a sua mente, os seus sentimentos, o seu corpo, a sua vida”.
Chega a ser cômico se não fosse trágico o nosso próprio afogamento coletivo no mar de ilusões virtuais das oligarquias.
Quem sabe, talvez, antes de nos afogarmos com nosso próprio ego, possamos olhar em volta, com atenção e respirar com calma, com mais alma, no ‘Mundo Real’, onde realmente vivemos.
Instituto Inhotim, “Narcissus Garden”, por Yayoi Kusama, 2025
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por Tatiana Potrich

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