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(Foto: reprodução)

Mulheres rompem barreiras em Goiás e se destacam em profissões historicamente dominadas por homens

Da cabine do ônibus ao canteiro de obras, profissionais mostram que competência não tem gênero e abrem caminho para novas gerações

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08.03.2026 - 08:40:01

 Goiânia – O Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), marca décadas de lutas por igualdade e reconhecimento. Mas, para além das datas comemorativas, a transformação acontece no cotidiano, nos canteiros de obras, ao volante dos ônibus, no trabalho no alto dos postes de energia. Profissões que durante gerações foram vistas como “território exclusivamente masculino” hoje contam com a presença crescente de mulheres que mostram, todos os dias, que competência não tem gênero.

Em Goiânia e região metropolitana, essa realidade se mostra nas histórias de Sandra da Silva Lira Ferreira, Maria Natália Nunes Sousa Gomes de Castro e Marisa Menaides. Eletricista, motorista de ônibus e operária de restauro, respectivamente, elas enfrentam desafios semelhantes em áreas diferentes: o preconceito, a desconfiança, a comparação constante. Mas enfrentam também com determinação, técnica e a certeza de que o espaço é delas por direito.

Sandra em sua atividade como eletricista. Foto: Arquivo pessoal.

“O lugar da mulher é onde ela quiser”

Sandra da Silva Lira Ferreira tem apenas três meses na profissão de eletricista, mas já conhece bem o peso das dúvidas alheias. Sandra participou da formação na Escola de Eletricistas da Equatorial Goiás.”No início, algumas pessoas achavam que eu não iria conseguir”, conta. Moradora de Trindade, na região metropolitana de Goiânia, ela chegou à área elétrica através de um conhecido que falou sobre uma escola de formação. “Me inscrevi e fui determinada a aprender.”

A motivação era clara e objetiva: “O conhecimento na área elétrica, ter uma profissão que pudesse me trazer dignidade para mim e minha família.” As críticas vieram, mas não abalaram a determinação. “Sempre fui muito determinada, tenho muita vontade de seguir carreira. Quando recebo uma crítica negativa, não abaixo a cabeça. Pelo contrário, insisto mais ainda, pois sei que tudo faz parte do processo.”

O cotidiano no trabalho surpreendeu positivamente. “Desde a chegada até a saída, sou tratada com muito respeito e admiração.” Sandra não está sozinha — trabalha com outra mulher na equipe. “Nós nos apoiamos muito, o incentivo é mútuo. Vejo uma grande oportunidade e faço o meu melhor com muita perseverança.”

O maior desafio continua sendo a comparação física. “Muitas vezes a comparação de força”, admite. “Mas todo serviço pode sim ser executado por uma mulher.” A reação de colegas e clientes compensa qualquer dificuldade. “Muitos se admiram e me parabenizam pelo esforço que faço todos os dias.”

Para Sandra, a profissão representa “superação e dignidade”. Sobre ser referência em uma área onde mulheres são minoria, ela se diz honrada. “Sei que é um desafio, porém tenho muita persistência e foco. Todo trabalho vale a pena.”

O recado para outras mulheres que têm receio de entrar na área elétrica é direto: “Que se empenhem, tenham foco e determinação, porque o lugar da mulher é onde ela quiser.”

Do acaso à realização profissional

Maria Natália Nunes Sousa Gomes de Castro dirige ônibus desde 2014. O caminho até o volante começou quase por acaso. Amigos diziam que ela dirigia bem, que deveria ser motorista. O irmão do meio, a quem admira, havia tirado a categoria para veículos grandes. “Eu achei aquilo interessante. Aí eu falei: acho que eu vou virar motorista.”

Começou dirigindo táxi, apenas alguns meses. Em uma das viagens, viu uma faixa na HP: “Precisa-se de novos motoristas, com ou sem experiência, ambos os sexos.” Fez o processo seletivo na Rápido Araguaia, passou pela escolinha, começou a trabalhar no transporte. “Descobri que aquilo que eu gostava, aquilo que era a minha vida.”

De lá para cá, Natália passou pelas empresas reunidas e hoje trabalha na Metrobus, realizando um sonho. “Quem gosta do transporte acha magnífico aqueles veículos grandes.”

Os primeiros anos foram difíceis. Poucas mulheres dirigiam ônibus em Goiânia. “Muitos passageiros viam as mulheres chegando nas paradas de ônibus, aí muitos não iam, ficavam olhando. Eu via a boca mexendo: ‘Ah, não, é mulher, não vou não.'”

Natália é motorista de ônibus desde 2014 (Foto: arquivo pessoal)

Admiração

Com o tempo, a resistência virou admiração. “As pessoas começaram a gostar. Nossa, eu gostei dela, ela é melhor do que muitos homens, a mulher é muito mais atenciosa”, passou a ouvir. Turistas de outros estados pediam fotos. “Para me levar lá pro meu estado, que no meu estado não tem mulher dirigindo. É muito bonito.”

Um dos momentos mais marcantes foi inspirar outra mulher a entrar para o transporte. “Uma pessoa que um dia me cruzou no acaso e perguntou como virava motorista. Hoje ela é uma parceira nossa também no transporte e hoje trabalha até em Portugal. Então é uma conquista muito grande pra mim.”

O dia a dia traz desafios variados. Natália faz a linha Goiânia extensa, “muito pesada, mas muito boa de fazer”. No trânsito, alguns motoristas ainda usam o gênero como desculpa. “Querem dizer assim: ‘Tá vendo? É mulher. Isso aí é porque é mulher.’ Outros se sentem admirados.”

Respeito

Uma atitude que Natália adotou, mesmo sem ser obrigação, é conversar com jovens que tentam pular a catraca. “Eu chego e converso, peço, e eles não pulam. Eles respeitam ser mulher. Eu acho isso gratificante.”

Os colegas de trabalho são parceiros. “Respeitam a gente, tratam a gente com carinho, com educação, ajudam. No trabalho, eu não tenho tido dificuldade por onde passei. O pessoal tudo me ajuda.”

A presença feminina no transporte coletivo cresce a cada ano. “Cada vez que passa, o transporte vai mudando, vai se adequando. Nós mulheres vamos ganhando espaços maiores”, observa Natália. Para ela, isso acontece porque “a mulher tem uma delicadeza, uma leveza de conduzir as situações”.

O conselho para quem sonha em dirigir ônibus reflete sua própria trajetória: “Cada mulher tem um sonho e ela pode sim, ela pode correr atrás. E outra: nunca é tarde. Se você tem um sonho, você pode. E no transporte, você pode mais ainda, porque tem um mundo de oportunidades.”

Preservando o passado, construindo o futuro

Marisa Menaides trabalhou a vida inteira na construção civil antes de migrar para a área de restauração. Atualmente, ela atua como assistente de obras no restauro da Casa-Museu Bernardo Élis, em Goiânia, a serviço da Elysium Sociedade Cultural, empresa responsável pela recuperação desse importante patrimônio histórico da capital.

“Para mim é um prazer, eu amo o que eu faço, faço com prazer”, afirma Marisa sobre o trabalho no projeto da Elysium. A experiência no canteiro de obras é transformadora. “Está sendo muito emocionante para mim fazer o restauro nessa galeria de arte. É muito maravilhoso, significativo na minha vida, uma experiência inexplicável.”

Os desafios aparecem diariamente. “Preconceito de outras pessoas, de homens, vendo a mulher trabalhar, reconstruindo, restaurando.” Ainda assim, Marisa enxerga avanços. “A situação da mulher na atividade é um progresso significativo.”

O que preocupa é a falta de mão de obra. “Há muitas vagas, mas não existem pessoas para concluir, para fechar essas vagas, para ir para o canteiro de obra, trabalhar, pôr a mão na massa, pôr a mão nas madeiras, restaurando, cuidando.”

Para Marisa, a jornada dupla faz parte da vida de quem escolhe essa profissão. “Nós temos família, jornada dupla de trabalho, mas faz parte. É com esforço, é com garra, determinação. Tem que ter vontade.”

A rotina no canteiro da Elysium começa com a organização do espaço. “A gente chega na obra de manhã, começa a organização do local de trabalho, tira as fotos.” O cuidado com a fidelidade histórica é constante. “Tem que ver as mesmas cores, pela edição, como é que eram, para manter a mesma fórmula depois de restaurado.”

Técnica

Restaurar é diferente de construir. “Enquanto uma obra convencional busca a efetividade, construir e a padronização, a restauração é uma intervenção ético-cultural.” O trabalho exige análise cuidadosa. “A restauração analisa a trajetória do objeto no tempo, buscando não apagar ou deformar os traços do passado.”

Um momento marcou Marisa profundamente durante o trabalho na Casa Bernardo Élis: a quantidade de livros preservados no museu. “Várias coleções preservadas. Eu fiquei assim um pouco emocionada, porque são tantas coisas ali que o tempo vai conservar, que o museu vai guardar. A história de Goiânia ali no instituto.”

A casa, que mostrava sinais do tempo, será transformada em memorial pela Elysium. “Aquela casa que já estava se deformando pelo tempo vai ser um memorial em Goiânia.” Marisa faz um apelo aos goianos. “Precisam ir visitar depois de restaurado, precisa conhecer e guardar, cuidar, mantendo a história original daquele instituto.”

Marisa Menaides em obra de restauração. Foto: Arquivo pessoal.

Competência não tem gênero

Sandra, Natália e Marisa representam uma transformação que acontece em silêncio, mas com impacto duradouro. Enquanto Sandra ajusta circuitos elétricos em Trindade, Natália conduz passageiros pelas ruas de Goiânia e Marisa restaura a memória da cidade pela Elysium, outras mulheres observam, se inspiram, ousam.

As barreiras vão caindo, não porque alguém concedeu permissão, mas porque mulheres como elas provam, todos os dias, que competência não tem gênero. Com ferramentas nas mãos, volantes firmes, conhecimento técnico e muita determinação, elas constroem um caminho que outras poderão seguir com menos resistência.

O lugar da mulher, afinal, é onde ela quiser estar. E essas três profissionais estão exatamente onde escolheram: fazendo o que amam, com dignidade, respeito e a satisfação de quem sabe que todo trabalho vale a pena.

 

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por Samuel Straioto

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