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Mulheres que falam com lobos

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10.05.2026 - 11:05:31
Estreou, recentemente, na plataforma HBOMax a polêmica versão cinematográfica do clássico “Morro dos Ventos Uivantes” (2025), escrita em 1847, por Emily Brontë.
O arquétipo da protagonista, Catherine Earnshaw, se encaixa, em parte, na descrição da ‘mulher selvagem’, expressão consagrada pela literatura junguiana do best-seller, “Mulheres que Correm com lobos”, de 1992, da escritora Clarissa Pinkola Estès.
Catherine é daquelas figuras femininas que atravessa a rudeza da paisagem dos morros sob os ventos tempestuosos em busca de liberdade e autonomia. Embora trágico e melancólico, a obra ressalta características intrínsecas à essência feminina.
Desejos carnais, presunção por sua classe social e cultural, abuso de autoridade, ambição econômica, necessidade de segurança e fragilidade emocional e física. Características subliminares ou explícitas em personagens de contos de fadas, deusas da mitologia, figuras  lendárias como bruxas, feiticeiras ou curandeiras que povoam o imaginário coletivo.
Aributos estes, que podem contribuir ao fortalecimento e à longevidade  quando bem articulados, mas que se tornam profundamente nocivos quando mal direcionados.
Muitas mulheres, distanciadas de sua essência, ora contestam o sistema de forma abrupta e subversiva, ora se submetem a ele por falta de opção ou compreensão. Se desconectam de sua fonte libertadora, revitalizadora, geradora.  Se negligenciam de resguardar seu ventre, seu bem materno, território poderoso de criação,  reprodução e perpetuação.
Violentadas ao longo da história por estruturas patriarcais, por homens, por outras mulheres, pelos próprios mecanismos de opressão, continuamos adiante, nos equilibrando sobre o salto alto, entre morros e penhascos uivantes.
Pode se incluir no salto, um abismo ainda maior, uma nefasta selvageria e doentia busca pela insaciável beleza perfeita e  juventude eterna.
Um surto coletivo pela aparência descartável de ser um objeto de desejo,  um produto de consumo para degustação, um instrumento de ascensão política e social.
Mas a que custo?
Eva Perón, Princesa Diana, Marilyn Monroe e sua contemporânea, Jacqueline Onassis, ou Maria Callas, Grace Kelly, a insolente Pagu, ou mesmo Tarsila do Amaral, dentre outras.
Sejam por enfermidades, tragédias, ou conflitos íntimos, muitas parecem revelar um desequilíbrio emocional, físico e espiritual que, em algum momento, se desfaleceram da saúde plena e do bem estar pessoal.
Contudo, o sentido mais terno da expressão: ‘mulher selvagem’ seria a que cresce na selva, na floresta, que entende das plantas, das ervas, que cultiva flores, que sabe o nome dos bichos e dos frutos, que sabe o nome das cores que pintam o dia e o ciclo da Lua, no céu da noite.
Aquela que ama sem sufocar, que trabalha sem se escravizar, que cuida sem cobrar.
Dizer que não existem mais mulheres como antigamente é uma verdade mordaz, no entanto, olha onde chegamos. Mulheres aos 30 ou 40 anos que optam, ou não conseguem ser mães. Mulheres, aos 50 anos, que querem levar uma vida de 25. Mulheres que entregam seu corpo: seus seios e suas partes íntimas a cirurgias estéticas ilusórias e efêmeras. Mulheres que trocam livros por redes sociais, trocam a naturalidade por cosméticos artificiais.
Depois de tantas lutas históricas,  políticas, sociais, culturais e sexuais será que nós, mulheres e mães, ainda saberemos uivar com uma loba, assim como o fizeram nossas ancestrais?
No Dia das Mães, talvez valha homenagear aquelas que ainda preservam algo dessa força ancestral, mães que mantém viva a coragem de ser múltiplas, intensas e indomáveis, que fazem jus a verdadeira ‘mulher selvagem’   como tantas Catherine Denueve, Constanza Pascolato, J.K. Rowling, Elsa Schiapparelli, Tina Turner, Sofia Coppolla, Fernanda Torres, Maria Fernanda Cândido, Adriana Varejão ou Tatiana Sampaio.
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por Tatiana Potrich

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