Théo Mariano
Goiânia
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A vacinação contra o novo coronavírus no Brasil enfrentou, além das novas variantes e a rápida disseminação do vírus, um outro inimigo: a ausência, por parte do Ministério da Saúde, de uma otimização da distribuição dos imunizantes a partir de hotspots. Assim avalia o epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Curi Hallal, responsável por pesquisas como a que apontou quantas vidas brasileiras seriam salvas durante a pandemia caso o país tivesse adotado mais medidas de controle à doença. De acordo com o cálculo, 400 mil mortes a menos à época. Agora, comenta em entrevista exclusiva ao jornal A Redação, poderiam ter sido outras mais caso a estratégia para distribuir doses fosse diferente, mas recebe com "estranheza" a mudança do formato de distribuição anunciada pelo ministro Marcelo Queiroga.
Epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal. (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)
A logística de entrega dos lotes, organizada pelo Ministério da Saúde, levou em conta a distribuição proporcional das vacinas para Estados — ao menos na teoria. De acordo com Pedro Curi Hallal, a entrega das vacinas contra a covid-19 deveria considerar, sobretudo, as regiões mais vulneráveis do Brasil no decorrer da pandemia, chamados de hotspots. O Amazonas é um exemplo lembrado pelo epidemiologista ao tratar do tema. O Estado, quando viu seu sistema de saúde colapsar, com pacientes sufocados sem oxigênio em janeiro deste ano, deveria ter sido um dos priorizados para recebimento de mais imunizantes. “O Amazonas precisava ter recebido um caminhão de doses àquela época”, pondera Hallal.
Como define o Ministério da Saúde, a distribuição das vacinas até o início de agosto foi proporcional aos grupos prioritários. Em matéria explicativa publicada no portal de notícias da pasta, no dia 14 de junho, os carregamentos de imunizantes foram entregues com base nas estimativas populacionais dos grupos definidos pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 e conforme o quantitativo de doses disponibilizadas pelos laboratórios que fabricam as vacinas. Nesta decisão, argumenta Pedro Hallal, vê-se muito mais uma tentativa de fazer soar uma logística politicamente justa aos Estados do que, de fato, uma tentativa de otimizar a imunização no Brasil.

Em levantamento exclusivo a partir do cruzamento de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Localiza SUS, plataforma de monitoramento da vacinação disponibilizada pelo governo federal, o
AR identificou uma variação de quase 20% na proporção de vacinas contra a covid-19 entregues aos Estados até o final de julho. Conforme os números, São Paulo foi o que mais recebeu doses de acordo com a população: os imunizantes entregues eram o bastante para imunizar completamente 49,49% dos paulistas. No final do ranking está o Amapá, que recebeu quantitativo que permitiria concluir a vacinação em 31,63% dos amapaenses.
Goiás figurava em 15º.
A discrepância, explica Pedro Curi Hallal, pode ser justificada pelo método adotado no Ministério da Saúde de entregar os lotes a partir dos grupos prioritários, devido à pirâmide etária de cada Estado. Ainda assim, para se ter um número exato dos grupos, haveria necessidade da conclusão, por exemplo, do Censo 2020, pois jogaria luz à situação de cada um dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros. Apesar das considerações sobre as estratégias logísticas do envio das doses, o especialista cita que, no início da vacinação, não havia mobilizações por qualquer mudança no processo de direcionamento feito.
Enterro de dona Esther Melo da Silva no cemitério Parque Tarumã, em Manaus. (Foto: Amazônia Real)
“Não podemos parecer profetas do acontecido. Por outro lado, acompanhar e distribuir de acordo com a lógica epidemiológica era algo que vários colegas e eu, inclusive, defendemos. No caso do Amazonas, assinamos uma carta para que o Ministério priorizasse a vacinação lá”, prossegue o epidemiologista.
Equalização da entrega das doses
A alta diferença na proporção de doses entregues, exibida pelo levantamento do jornal A Redação, também fez com que o Ministério da Saúde adotasse novo modelo de distribuição das vacinas contra a covid-19. A mudança repentina, anunciada pelo ministro Marcelo Queiroga após reunião com o Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) e o Conselho Nacional de Secretarias Municipais da Saúde (Conasems), gerou atritos entre o governo federal e a gestão do Estado de São Paulo, que recebeu metade das doses previstas para o carregamento de vacinas da Pfizer entregue na última semana.
O déficit no lote rendeu críticas do governador João Doria via Twitter e até ameaça de processo contra o Ministério da Saúde. “A decisão, que como governador qualifico como arbitrária, representa a quebra do pacto federativo. E o governo federal decidiu punir quem fez o certo e quem foi eficiente na vacinação", disse Doria, na última quarta-feira (4), após a entrega do carregamento. Um dia após as falas do tucano, o Governo de São Paulo anunciou que entraria na Justiça contra o governo federal pela entrega das doses abaixo do previsto.
Governador de SP, João Doria, em coletiva de imprensa. (Foto: Governo do Estado de São Paulo)
Para rebater as acusações de João Doria, a secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do governo federal, Rosana Leite, afirmou que houve mudança na metodologia de distribuição dos imunizantes. Antes, como afirmado na matéria, a entrega era feita com base nos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde. Agora, a logística levaria em conta a vacinação por faixa etária nos Estados.
Em razão da disparidade das doses entregues, que pode ser verificada pelo levantamento do
AR, a pasta federal passou a “compensar” os governos mais atrasados na vacinação. Sobre a recente mudança no procedimento de entrega dos carregamentos, o epidemiologista Pedro Curi Hallal não conseguiu, ao longo da entrevista, identificar qualquer fator que servisse como justificativa. A única explicação, como afirmou, seria política. “A palavra que define essa alteração na estratégia é ‘estranheza’”.

Segundo o ranking elaborado pelo AR, os dez Estados que mais receberam vacinas contra a covid-19 até final do último mês foram São Paulo (49,49%), Rio Grande do Sul (47,76%), Rio de Janeiro (46,81%), Mato Grosso do Sul (46,05%), Paraná (43,07%), Santa Catarina (42,65%), Espírito Santo (42,46%), Minas Gerais (41,92%), Amazonas (41,76%) e Acre (40,69%). Todos esses receberam imunizantes o bastante para vacinar com duas doses, no caso da CoronaVac, Astrazeneca e Pfizer, e com uma dose, no caso da Janssen, mais de 40% de suas respectivas populações, de acordo com as estimativas populacionais atualizadas pelo IBGE.
Todas as outras 17 unidades federativas do País estão abaixo da média estipulada pela pesquisa para se ter a distribuição equalizada, que varia entre 39,5% e 40,5% aproximadamente. O ranking das entregas de vacinas, em cálculo proporcional por população estimada, segue da seguinte forma: Paraíba (38,11%), Maranhão (38,07%), Mato Grosso (37,97%), Rio Grande do Norte (37,9%), Goiás (37,32%), Roraima (37,11%), Bahia (36,99%), Distrito Federal (36,89%), Alagoas (36,84%), Pernambuco (36,83%), Sergipe (36,76%), Piauí (36,47%), Ceará (36,21%), Tocantins (34,95%), Rondônia (33,47%), Pará (33,01%) e Amapá (31,63%).
O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, durante entrevista coletiva sobre a metodologia de distribuição de doses da vacina Covid-19. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Para dar um capítulo final ao drama que envolve governo federal e a gestão paulista, o ministro Marcelo Queiroga confirmou a alteração na metodologia de distribuição das doses. Em coletiva de imprensa na manhã do dia 18 de agosto, o chefe da pasta federal anunciou e detalhou a alteração no processo de entrega das vacinas contra a covid-19. Segundo Queiroga, a logística de entrega irá igualar a porcentagem de doses entregues para os Estados vacinarem pessoas acima de 18 anos, conforme a quantidade de imunizantes distribuída até o momento.
A equalização dos lotes de vacinas cria um plano incerto no combate à pandemia do novo coronavírus. Por um lado, especialistas como Pedro Curi Hallal reforçam a importância de se priorizar os
hotspots da pandemia no país para amenizar os efeitos do vírus. Por outro, representantes estaduais, como o vice-presidente do Conass da região Centro-Oeste,
Ismael Alexandrino, defende a entrega equitária de vacinas e estima inclusive que Goiás, onde é secretário de Saúde, poderia receber até 20 mil doses a mais. No cabo de guerra da operacionalização dos imunizantes, quem assume a frente desta vez é o Conass.