Logo

Morro da Baleia

WhatsAppFacebookLinkedInX
20.05.2025 - 08:40:00

Ela o admirava a certa distância. Ele estava ensimesmado, abraçado aos joelhos, o olhar perdido no vasto campo ondulado pelo vento que apenas uma vereda distante cortava. De lá, os buritis acenavam em seu verde intenso celebrando o frescor da água das nascentes.
 
A luz de denso amarelo do fim do dia batia em cheio no rosto dele e o deixava ainda mais bonito e um pouco selvagem.
 
Havia algo, entretanto, desde o dia anterior, como se um fina parede invisível tivesse se erguido entre os dois ou como se um objeto incômodo tivesse sido colocado no espaço que os separava e ambos soubessem que estava ali, mas nenhum dos dois quisesse ser o primeiro a admiti-lo para o outro.
 
Uma rajada forte deixou o ar ainda mais frio. Ela fechou os olhos e respirou fundo. Veio-lhe a imagem da avó. Fora costureira. Viera da Galícia aos seis anos de idade, com os pais e cinco irmãos. O que uma experiência radical como essa imprime em alguém?O que resta quando atravessar o oceano é melhor que permanecer em casa? O que significa uma terra natal que não acolhe? Crescer em um lugar que acaba se tornando seu, mas que nunca o é inteiramente? 

Um pedaço da gente sempre fica para trás quando se atravessa uma fronteira.

 
Estoica. A avó fora a pessoa mais estoica que já conhecera. Dura, mas serena, afetuosa, mas conformada. Só a vira chorar uma vez, quando a filha mais velha morrera.
 
As memórias foram interrompidas pela voz dele:
 
-A seca chegou mesmo. Você sente?
 
-Você acha que não vai chover mais?
 
-Não vai – ele fez uma pausa antes de continuar: -Já reparou como chega sutil, devagarzinho? Primeiro, vem um vento manso que começa a mudar a própria textura do ar. Mas a gente percebe mesmo que chegou pra ficar porque a luz muda – ele fez um gesto vago em direção ao sol poente. – Fica mais fria e amarela. Mesmo a gente estando nos trópicos, ela fica mais oblíqua, bate mais de lado, principalmente de manhã cedo e no fim da tarde. As sombras ficam mais longas. A atmosfera fica mais dramática.
 
-Eu gosto do mês de maio – ela seguia admirando os contornos do rosto dele avermelhados pelo sol: a barba tingida pela luz, os lábios grossos, o nariz anguloso, o cabelo bagunçado pelo vento. – São os meses mais bonitos do Cerrado. A vegetação ainda tá verde, os campos ficam ondulados nos lugares altos, faz frio de manhãzinha. Me faz pensar na fazenda dos meus avós.
 
-É a época de subir as montanhas.
 
-Tomar banho de cachoeira.
 
-Orvalho gelado.
 
-Chá de erva cidreira.
 
-Eu gosto dessa época também, mas eu fico estranho.
 
Ela esperou que continuasse a frase – não queria apressá-lo -, mas ele não disse mais nada.
 
Na trilha de volta, viram um veado nas encostas mais baixas que se assustou e fugiu assim que os viu.
 
A brisa, com o sol já escondido atrás do morro, tornou-se mais gelada. Ela subiu o zíper da jaqueta até o queixo e enfiou as mãos nos bolsos. As luzes se acendendo nas casas distantes ofereciam uma promessa de aconchego que era o oposto do que ela sentia naquele momento. Lembrou-se novamente da avó, e teve vontade de estar perto dela. Perguntou-se se a solidão que sentia era parecida com a que a avó experimentara olhando para o azul sem fim do Atlântico da amurada do navio, no caminho da Espanha para o Brasil.
 
De algum sítio longínquo, chegavam os acordes de uma sanfona, que identificou como as notas iniciais de “Boate Azul”. Ela cantarolou baixinho: “Doente de amor, procurei remédio na vida noturna…”
 
-Não sabia que você gostava de música sertaneja – ele disse.
 
-Eu gosto. Gosto bastante.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]