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Angelita (Foto: reprodução)

Morre Angelita Gama, uma das médicas mais premiadas do Brasil

Ela estava internada desde 6 de maio e tinha 93 anos

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31.05.2026 - 10:25:12

São Paulo – Morreu neste sábado (30/5), aos 93 anos, a médica e pesquisadora Angelita Habr-Gama, referência mundial em coloproctologia. Ela estava internada desde 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz. A causa da morte não foi divulgada.

Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, filha dos libaneses Nagibi e Kalil, Angelita Habr-Gama chegou a São Paulo depois da morte do irmão Nader, aos 14 anos, por apendicite supurada. Com medo de que o mesmo acontecesse com os outros filhos, os pais decidiram se mudar e fincar raízes em uma capital. O ano era 1939 e Angelita tinha 6 anos.

Aqui, a adolescente Angelita teve de vencer a resistência de Kalil ao decidir prestar Medicina – ele preferia que ela seguisse a carreira de professora. Insistiu e, em 1952, foi aprovada para ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Ao terminar a graduação, enfrentou a desconfiança de alguns dos professores quando decidiu tentar a carreira de cirurgiã. “O chefe que escolhia o pessoal para a residência de cirurgia me falou: ‘são só oito vagas, você vai casar, ter filhos, esquecer a cirurgia e vai ter ocupado a vaga de um rapaz'”, contou em entrevista a Fabiana Cambricoli.

“Eu não aceitei. Disse que eu entrei na faculdade de medicina em oitavo lugar, fui a primeira colocada nos rodízios de internato e que eu tinha o direito de optar pela cirurgia também. O diretor da faculdade ligou para o chefe da seleção e disse que eu podia me inscrever no concurso de residência em cirurgia. Eu fiz o concurso em 1957 e passei em primeiro lugar”, disse na mesma entrevista. Ao ser aprovada, Angelita tornou-se a primeira mulher a fazer residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP.

Ao fim da residência em cirurgia geral, ela decidiu especializar-se nas operações do intestino e buscou um estágio no Hospital St. Marks, em Londres, único no mundo focado nessa especialidade. Inicialmente, foi rejeitada pelo fato de o hospital só aceitar homens. “Enviei muitas cartas, mandei também cartas de professores meus aqui dizendo que eu era boa mesmo”. Insistiu mais uma vez e foi a primeira mulher a ser admitida na instituição, em 1962.

“Eu insisti e em uma última carta escrevi: ‘Não se preocupem, pois vocês irão gostar de mim. Sou um tipo diferente do que vocês estão acostumados’. Afinal, me aceitaram, arrumei a mala e fui”, relembrou em entrevista à assessoria de imprensa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

De volta ao País, ela retomou seu trabalho no Hospital das Clínicas da FMUSP e foi a primeira mulher a chefiar o Departamento de Cirurgia. Também atuou para que o Ministério da Educação reconhecesse a coloproctologia como uma especialidade – até então, a área era englobada pela cirurgia digestiva.

Já uma reconhecida cirurgiã, Angelita integrou a equipe que cuidou de Tancredo Neves (1910-1985). Foi ela, a única mulher na equipe médica, que foi dizer à dona Risoleta que não havia mais esperanças, como contou Maria Fernanda Rodrigues ao noticiar o lançamento da biografia da médica, Não, Não é Resposta, escrita por Ignácio de Loyola Brandão.

Em nota divulgada neste domingo, 31, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz lamentou a morte de Angelita. “Desde 1980, Angelita Habr -Gama fazia parte do corpo clínico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o que sempre foi motivo de grande orgulho para a instituição e todos os seus colaboradores”, disse o hospital.

“Conselho de administração, direção, corpo clínico e assistencial e colaboradores do Hospital Alemão Oswaldo Cruz estão profundamente consternados com esta perda irreparável para medicina brasileira. Perdemos uma grande profissional e uma colega de quem sempre iremos nos lembrar com respeito, gratidão, carinho e admiração. Nos solidarizamos com a família neste momento de grande dor”, acrescentou.

Reconhecimento internacional

Ao longo dos anos, Angelita acumulou conquistas na carreira: tornou-se professora emérita da FMUSP, membro de várias sociedades médicas, destacada cientista na pesquisa de tratamento do câncer colorretal e detentora de dezenas de prêmios nacionais e internacionais.

Trabalhadora incansável, Angelita foi obrigada a parar durante a pandemia de covid-19. Diagnosticada com o novo coronavírus, ela passou 50 dias internada na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

Ao ter alta, contou à jornalista Sonia Racy que pretendia voltar a atender seus pacientes o quanto antes. “Acredito que na semana que vem já terei condições”, disse à época.

Dois anos depois, Angelita foi reconhecida pela Universidade de Stanford como uma das médicas que mais contribuíram para o desenvolvimento da Ciência no mundo. “Esse reconhecimento é um estímulo para os médicos e cientistas brasileiros, é um estímulo para progressão na carreira de outras pesquisadoras”, disse ao jornalista Ítalo Lo Re ao comentar o feito.

No ano seguinte, em 2023, Angelita alcançou outro feito inédito: foi a primeira mulher no mundo a receber a medalha Bigelow, reconhecimento criado pela renomada Sociedade de Cirurgia de Boston, dos Estados Unidos, para laurear cirurgiões com destacada contribuição para o progresso científico e ensino da cirurgia.

“Eu sempre trabalhei por gosto e prazer. O sucesso foi uma consequência do gosto e da dedicação ao trabalho. Então, as medalhas vêm, mas não mudam a minha maneira de ser”, disse Angelita na ocasião.

Ao justificar a escolha da brasileira, a Sociedade de Cirurgia de Boston destacou a pesquisa inovadora de Angelita e colegas sobre o uso de químio e radioterapia para o tratamento de câncer de reto sem a obrigatoriedade de posterior cirurgia.

O protocolo, criado na década de 1990 pela médica, prevê que, em vez de operar todos os pacientes com esse tipo de tumor, se utilize quimioterapia e radioterapia. Após as intervenções, o paciente é examinado para verificar se a lesão permanece. Se sim, ele é operado. Se não, ele segue sendo acompanhado.

O grupo de pesquisa de Angelita descobriu que, em muitos casos, a doença desaparecia e não era necessário realizar uma cirurgia na qual, muitas vezes, era necessário remover o reto e o esfíncter, obrigando o paciente a usar permanentemente uma bolsa de colostomia. A abordagem, portanto, garantia o mesmo resultado aos pacientes que tivessem resposta satisfatória à químio e rádio, mas com grande impacto positivo na qualidade de vida do doente.

Em 2024, o Watch and Wait foi incorporado às novas diretrizes americanas para câncer de reto. Foi a primeira vez que as diretrizes da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, na sigla em inglês) para tratamento de câncer de reto avançado incluíram contribuições de médicos latino-americanos. (Agência Estado)

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por Agência Estado

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