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Momentos de imprudência e fanatismo

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04.05.2020 - 10:10:58

A atividade política, quando a pessoa luta por seus direitos, emite sua opinião ou dá o seu voto, parece muito simples. Um dos mestres nessa área no Brasil, à qual dedicou toda a sua vida, em 11 mandatos consecutivos como deputado federal, Ulisses Guimarães fazia uma observação importante. Para ele, sem a formação e o exercício da cidadania a nação continuará marcando passos, a política não atingirá seus fins, os partidos definharão e a democracia correrá riscos. “Ausentes a formação e o exercício da política, a República não garantirá a independência e a harmonia entre os poderes”, afirmava.

Na prática, a situação é um pouco diferente, e mais difícil. Isto porque a política, ontem como hoje, sempre envolveu discussões acaloradas, apaixonadas e dividiu as pessoas, diante da preferência de uns em relação à de amigos e colegas, o que, em muitos casos, acaba separando amizades.

É difícil mensurar o resultado de uma conversa e por isso, muitas vezes, sempre aparece alguém para dizer que não se deve, em grupo de amigos, discutir política, futebol ou religião.

Como atualmente, quando se torna complicado participar de uma discussão que envolva lulistas e bolsonaristas – não apoio nenhum dos dois grupos –, pois cada qual radicaliza para o seu lado, na defesa dos ídolos que veneram – na expressão utilizada por Leon Trotsky, na série para a tv dirigida por Alexander Kott e Konstantin Statsky –, deixando de enxergar questões importantes quando se começa uma conversa.

Não que a pessoa deva se omitir, mas não compensa querer dialogar com quem já vem disposto a desconstruir qualquer argumento que você tenha, buscando prevalecer a sua opinião e seus posicionamentos, o que prejudica a convivência e o próprio relacionamento. Não se discute a política, mas a idealização do que deveria ser feito e, na verdade, não se concretiza.

Às vezes, as pessoas acabam se exaltando ao querer manifestar sua opinião, não apenas em grupos reduzidos, mas ao encontrar pessoas com as quais não concorda.

Dias atrás, conversando com o jornalista Lorimá Dionísio Gualberto (Mazinho) – amigo há 50 anos e com quem fizemos um importante trabalho, nos anos 1980, de dinamização da Associação Goiana de Imprensa (AGI), ele como Presidente e eu como Secretário-Geral (na sequência a presidi por dois mandatos consecutivos) –, lembrou-me de uma imprudência que eu havia cometido, na década de 1960, quando passávamos por um grupo de jovens integrantes de um grupo conservador.

1964 dividiu o país quando os militares deram o golpe e assumiram o poder federal, impondo fortes restrições em muitas atividades, limitando as liberdades e promovendo violenta repressão política, com prisões, torturas e desaparecimentos de militantes, tanto do movimento estudantil, como sindical e da atividade partidária.

Esse clima, em muitos locais, estimulava o espírito de luta, criava oportunidade para a ampla discussão das mais diversas questões nacionais e locais e, de outro lado, gerava insegurança, deixando a todos em permanente vigília e tensão. Em especial diante da forma agressiva como alguns grupos, identificados com os militares, agiam na perseguição às pessoas que, em seus critérios, consideravam adversários do regime implantado.

Dentre esses grupos, um deles é o integralismo, movimento político surgido na década de 1930, influenciado pelos ideais e práticas fascistas que se desenvolveram na Europa após o fim da I Guerra Mundial, de acordo com o site ‘Brasil Escola’. Foi fundado com o nome de Ação Integralista Brasileira (AIB), quando o jornalista Plínio Salgado lançou o ‘Manifesto de Outubro’, em 1932, e tinha como lema “Deus, pátria e família”. Conhecido como o fascismo brasileiro, era um movimento nacionalista, autoritário, tradicionalista e baseado em preceitos religiosos, cabendo ao Estado manter a unificação integral da sociedade por meio da coerção. Seus integrantes eram conhecidos como camisas verdes, pelo uniforme nessa cor. Em 1960, Plínio Corrêa de Oliveira, que fora deputado federal Constituinte em 1934, criou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), mantendo a inspiração católica tradicionalista e que pautava sua ação no combate às ideias maçônicas, socialistas e comunistas.

Esse pessoal da TFP, com suas bandeiras ultrapassadas, como a restauração da monarquia tradicional, nacionalista e antiparlamentar, com o monarca como chefe de Estado e concentrando em si as funções governativas e executivas, sempre foi visto com desconfiança pelos estudantes mais politizados, que não perdiam a oportunidade de criticá-los.

Passados tantos anos e assistindo as agressões de grupos partidários pelas redes sociais nos lembramos de episódio que protagonizamos, há 50 anos, de maneira ingênua e imprudente. Poderia ter resultado em sérias consequências, diante da forma agressiva e violenta como esses radicais atuavam, o que os tornavam temidos.

Tinha ganho uma carona do colega e estávamos indo para minha casa, no bairro de Campinas, quando, em determinado momento, passamos por um desses grupos, formado por umas 40 pessoas e identificados como de integralistas, pela roupa que usavam, camisas verdes, pela forma como agiam, em grupo, e pelas palavras de ordem que berravam.
 
Do carro gritei:
– Vão trabalhar, vagabundos.

Um ato infantil e provocativo, que não mudou o pensamento e a atitude deles, e poderia, de outra parte, estimular agressões e violências, que não interessa a ninguém.

A radicalização é improdutiva, não muda cenários e dificulta a convivência, como tem se tornado comum nas redes sociais e mesmo em discussões, quando os dois lados prejudicam o debate ao fazerem a defesa fanática de seus ídolos.
 
Jales Naves é escritor e jornalista, presidiu a Associação Goiana de Imprensa em dois mandatos consecutivos (1985-1991). 

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por Jales Naves

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