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Minha primeira e desastrada aventura no Fusca verde

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25.04.2020 - 18:45:42

O ônibus parou ao primeiro aceno de mão.
 
Peguei minha pequena mala, subi e logo procurei um local vago para me acomodar, quando uma senhora, curiosa e preocupada com minha triste aparência, com as roupas rasgadas, cabelos desengonçados, arranhões em várias partes do corpo e sangue escorrendo pelo rosto, indagou:
 
– Por que você fez isso?
 
Meio irreverente, como todo jovem que não encontra justificativa para o que fez de errado e quer logo se livrar de novas perguntas, respondi:
 
– Era fim de semana, não tinha nada para fazer, resolvi jogar o carro contra o barranco.
 
E mais não se falou. Achei um lugar vago, sentei e fiquei a olhar o tempo, distante, pensativo.
 
Na verdade, não foi exatamente o que aconteceu nessa minha primeira e desastrada aventura no primeiro carro que comprei, um Volkswagen sedan, modelo Fusca, na cor verde, usado. Jornalista, há dois anos na profissão, fiz a aquisição do veículo seis meses antes desse passeio inaugural por uma via ainda não asfaltada.
 
O episódio, pela forma como ocorreu, era digno de ser registrado por uma máquina de filmar profissional, que capta todas as cenas e todos os ângulos, pelo espetáculo que ofereceu: motorista de cidade, sem experiência em estrada, ainda mais encascalhada recentemente, que não oferecia segurança, e a velocidade acima do recomendado naquele local, uma curva, em descida, só poderia resultar num acidente, mas em proporções maiores do que a que efetivamente se verificou.
 
Tudo foi muito rápido, sem permitir uma mudança no controle daquela situação inesperada.
 
O Fusca saiu da pista, capotou, jogou-me a uma certa distância – passei por entre dois fios de arame farpado e cai num pasto, com a roupa despedaçada e escoriações por todo o corpo –, e parou ao lado da estrada, com as rodas para cima, dificultando a saída dos outros três ocupantes, pela posição em que ficou.
 
Eu me levantei todo assustado, preocupado com os cortes no corpo, o sangue que escorria da cabeça e as roupas estraçalhadas. Míope, primeiro comecei a procurar os meus óculos. Não os encontrei onde cai, nem por perto e só fui achá-los dentro do automóvel.
 
Manhã ensolarada de sábado, 11 de julho de 1970.
 
O destino era a cidade de Ipameri, uma das mais antigas de Goiás, fundada 100 anos antes, na região sudeste, onde a ferrovia chegou em 1913, para transformar e dinamizar sua economia e sua sociedade. Foi pioneira em diversas atividades: a primeira do interior, antes mesmo da Capital, a contar com energia elétrica, gerada no próprio município e uma das primeiras do Centro-Oeste brasileiro a contar com esse tipo de energia; a ter água encanada; um dos primeiros jornais; o primeiro Sindicato Rural; a primeira emissora (Rádio Xavantes); o primeiro jóquei clube (Hipódromo Firmo Ribeiro), onde aconteciam competições de hipismo em nível nacional; uma sala de cinema, e a primeira de Goiás a ter instalada uma agência do Banco do Brasil.
 
O motivo da viagem era outro: período de férias escolares, os quatro, solteiros, queriam aproveitar o segundo final de semana de julho para visitar a tradicional Exposição Agropecuária, que levava muito movimento para a cidade, famosa por suas mulheres bonitas.
 
Conhecia o bancário Nériton Ribeiro, que era de Ipameri e participava do Clube de Castores da cidade, entidade que reunia jovens para um trabalho social e cultural. Ele havia passado num concurso público realizado em sua cidade para trabalhar no Banco do Estado de Goiás (BEG), e depois se mudou para Brasília, onde residiu em 1969. Por ter sido aprovado em 1970 no vestibular para o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (UFG) pediu sua transferência para Goiânia, já para fazer o primeiro ano, como integrante da terceira turma, quando nos reencontramos. Fui aprovado no segundo vestibular para cursar Jornalismo na Federal e tinha entrado no ano anterior, 1969.
 
Nériton convidou dois conterrâneos para irem conosco: Francisco, irmão do contador do BEG na sua cidade, Antônio Dias Carneiro, e Ivan Dias, filho do escrivão do cartório. Eles sempre voltavam, nas férias, para a sua cidade, e queriam aproveitar aquele final de semana em Ipameri, quando recebia muita gente, devido à festa agropecuária. Não conhecia esses dois e fui apresentado a eles ao buscá-los em suas casas para seguirmos ao sudeste goiano.
 
Era a primeira viagem fora de Goiânia que empreendia no Fusca verde, no qual ia trabalhar todos os dias, como repórter, primeiro na Rádio Brasil Central e depois na Agência Goiana de Notícias (AGN), ambas do Consórcio de Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado (CERNE), na Vila Nova, onde ingressara em julho de 1968. Morava do outro lado da cidade, no bairro de Campinas.
 
Aquela aventura deixou-me e aos amigos muito entusiasmados, já articulando mil atividades para aqueles dois dias, que prometiam.
 
Cada um devidamente alojado no automóvel, sem cinto de segurança, que não existia na época, a jornada, de 198 km entre Goiânia e Ipameri, estava apenas começando, de forma alegre e tranquila. A estrada, sem pavimentação, tinha pouco movimento e tudo indicava que o itinerário seria cumprido sem maiores atropelos.
 
Só não contávamos com o acaso, para complicar aquele passeio.
 
Foi justamente o que aconteceu, um pouco depois de Senador Canedo, que ainda era distrito de Goiânia, quando o imprevisto cortou aquele sonho de um final de semana festivo em Ipameri. Numa curva, mais acentuada, o carro derrapou, saiu da pista, capotou e me jogou para fora. Os outros três ocupantes nada sofreram, apenas pequenos cortes superficiais.
 
Logo, todos já estavam em pé, uns querendo saber como os outros estavam e o alívio de constatar que não tinha acontecido nada mais grave com nenhum dos quatro.
 
– E agora, o que fazer? Diante dessa primeira indagação rapidamente decidimos pegar uma carona e cuidar dos ferimentos.
 
Passados poucos minutos um veículo cujo motorista, aparentemente, reconheceu um de nós, parou e nos deu carona até Goiânia e, numa gentileza ainda mais especial, deixou-me em minha casa. Ivan e Chico ficaram em suas residências, e Nériton me acompanhou até Campinas, na casa dos meus pais, onde eu morava, e de onde, depois, fui até o Hospital Brasil Central, que ficava a dois quarteirões, para os curativos necessários.
 
Retornei para casa, para descansar, recuperar o fôlego e tratar dos ferimentos, para na segunda-feira providenciar o reboque do carro, do local do acidente até uma oficina mecânica.
 
Já ressabiado com tantas perguntas, repetidas, sobre o motivo do acidente, de forma meio irônica inventei a história do ônibus, para também azucrinar com os muitos amigos que foram me visitar. Dentre eles, o jornalista Lorimá Dionísio Gualberto (Mazinho), um dos mais respeitados profissionais da imprensa goiana, que recentemente, no grupo do whatsApp
 
‘Somos Pedro Gomes’, relatou esse episódio e sugeriu que escrevesse uma crônica contando como tudo aconteceu.
 
*Jales Naves, jornalista e escritor, presidiu a Associação Goiana de Imprensa (AGI) em dois mandatos consecutivos (1985-1991).
 
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por Jales Naves

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