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Meu mineiro preferido

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20.09.2011 - 12:19:59

 

 
Uma das minhas grandes admirações de menina era a estante de livros da casa do meu avô Marini. Eram muitos e ele gostava de assinar e datar cada livro que juntava à sua coleção, além de bater o seu carimbo de médico. Até hoje, quando encontro um livro com a sua marca registrada, bate uma saudade e nostalgia daquela minha meninice.
 
Meu avô era um leitor voraz e, como bom mineiro, tinha uma predileção pelos seus conterrâneos. Eram vários autores, mas agora não vou me lembrar de todos, porque, para mim, desde o início, nunca houve outro, apenas ele, Fernando Sabino. Foi amor à primeira palavra.
 
É dele um dos livros que mais me tocaram na minha adolescência e que preciso reler com urgência. Chama-se O Encontro Marcado (Civilização Brasileira, 1956) e arrisco a dizer que é um dos melhores romances sobre a juventude e especialmente sobre a amizade. Assunto que Sabino conhecia muito bem, pois só a morte o separou dos seus queridos Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Helio Pellegrino.
 
Os quatro, apesar das diferenças de personalidade e opinião, compartilharam durante toda a vida o amor pela literatura, viagens, política e, claro, por Minas Gerais.
Foram amigos da vida inteira e o registro dessa amizade invejável pode ser lido na compilação de correspondências trocadas pelos quatro, no livro Cartas na Mesa (Record, 2002). Na capa do livro, a dedicatória de Sabino aos amigos, já mortos, é comovente: “Aos três parceiros, meus amigos para sempre”.
 
Do Sabino, também amo seus livros de contos e, ao lado de Luiz Fernando Veríssimo, é o meu preferido. Sabia retratar como ninguém as situações corriqueiras da vida, mazelas, mal-entendidos. Seu texto O último cigarro é um tratado sobre o vício. Recheado de um humor contido e de comparações propositadamente exageradas, bem a sua maneira, esse conto e ainda Depois do último cigarro foram publicados no livro A Falta que Ela Me Faz (Record, 9ª edição, 1981). Apesar de ter sido escrito há 30 anos, os textos citados não perderam em nada o frescor e atualidade. Coisas de um gênio.
 
A única escorregada do escritor foi na década de 90 quando escreveu Zélia, uma paixão, no auge do governo Collor. Não sei, mas imagino que Sabino arrependeu-se muito de ter escrito essa biografia encomendada, que lhe arranhou a imagem. Mas para mim, nada lhe tira o brilho de uma obra consistente e vasta.
 
Sabino morreu em outubro de 2004 em sua casa em Ipanema, às vésperas do 81º aniversário, no dia 11 de outubro. O seu epitáfio resume bem o grande homem que ele foi: “Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!" 
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por Bia Tahan

*Jornalista

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