Logo

Metal melódico, crítica e um amigo que se foi

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.01.2019 - 08:12:00
 

Estou curtindo uma merecida semaninha de férias. Como estratégia de felicidade, tento manter o celular fora de alcance. Nem sempre consigo. Hoje, pela manhã, não resisti e dei uma conferida no faketruque. Fui pego pela triste notícia de que um velho camarada, o professor e vocalista heavy metal Flávio Mendez, havia falecido. 

 
Um infarto fulminante levou o (literalmente) grande Flavão. Com apenas 47 anos de idade, deixou dois filhos. Faço 47 em setembro. Tenho dois filhos. Sua morte inesperada me encheu de questionamentos. O primeiro e mais imediato deles diz respeito à nossa finitude.
 
A idade avança, o corpo acusa, mas a cabeça não processa. Sou quase um cinquentão. Na mente, entretanto, permaneço adolescente. Daqueles meio bocós. Pertenço a uma geração que não tem na saúde uma de suas grandes preocupações. Era quase um atestado de frescura e frouxidão esboçar algum cuidado com alimentação, fazer exercícios regularmente, evitar os excessos. A coisa vem (ou vinha) mudando. Mas ainda falta muito. Foi o que o Flavão me esfregou na cara logo cedo – enquanto eu fragorosamente perdia a batalha contra a ressaca do dia anterior.
 
Nunca fui íntimo do Flávio Mendez. Nos conhecemos nos anos 1990, na cena rock goiana. Fazíamos parte de um mesmo universo, mas em extremos opostos. Flávio era metaleiro convicto. Já eu, um “alternativo” metido à besta. Não sei se mudei muito desde então.
 
Quando criei – ao lado do lendário Leo Bigode – o Goiânia Noise Festival e a Monstro Discos, seguíamos um ideário pós-Nirvana. Abominávamos tudo que fosse grande: gravadoras, shows, festivais e, até mesmo, bandas. Aquilo nos recendia a puro comercialismo marqueteiro. Neste panorama, o heavy metal (principalmente o chamado metal melódico) ocupava o topo do ranking de nosso desprezo – comparável apenas à música sertaneja e ao gospel. Cheguei a comparar os três estilos em rede nacional de TV, no saudoso programa Musikaos, pilotado pelo gente-fina Gastão Moreira. Uma frase de efeito que me custou muitos desafetos.
 
Flavão era vocalista do Velvet Vex, uma banda de – adivinhem – metal melódico. Terminou seus dias no Heaven’s Guardian, maior nome que o gênero já pariu em terras goianas. Era um baita cantor, tecnicamente muito superior a mim. Mas como suas bandas eram sempre desse fatídico estilo, demorou muito tempo até que a Monstro finalmente as colocassem nos palcos de seus concorridos eventos. E relembrar isso também me trouxe um mar de pensamentos contraditórios.
 
Ali, na virada dos anos 90/2000, acreditávamos que o rock estava sempre em busca do novo. Continuo, de certa forma, acreditando nisso. Mas as perspectivas são outras. Naqueles tempos, considerava bandas como Iron Maiden verdadeiros dinossauros que haviam se tornado um pastiche, uma cópia patética de si mesmas. Isso também valia para estrelas de calibre ainda mais elevado, como os imorríveis Rolling Stones. De forma bastante ingênua, pensava que quem estava com tudo eram as bandas que apareciam no Lado B da MTV. Na minha cabeça de então, Teenage Fanclub, Yo La Tengo e Money Mark eram mais relevantes que os tais dinossauros. O tempo mostrou que as coisas não são bem assim. Em pleno 2019, são os dinos que – mais que quaisquer outros – mantêm acesa a tal chama do rock’n’roll. Para o bem e para o mal.
 
É óbvio que essa hierarquia entre o que seria e o que não seria de fato relevante não nasceu apenas entre as bandas da cena rock. A crítica especializada cumpriu papel fundamental, através dos jornais e revistas da época. Foi lá que aprendemos, por exemplo, que solos dedilhados são chatos e que batera com dois bumbos é brega. Ou que o Big Star era “melhor” que o Black Sabbath. Pode uma bobagem dessas?
 
Apesar das minhas simplificações, a coisa é claramente mais complexa. A crítica exercia um importante papel em nossa formação – e agora vivemos um momento onde a crítica, e por tabela o pensamento, praticamente inexistem. A questão é que eram assertivos demais. Opiniões se convertiam em leis – cumpridas com diligência pelos fiéis. Então, se Folha, Estadão ou Bizz afirmavam que metal melódico era tolice, muita gente entrava na onda. Sem sequer ter ouvido.
 
A partida do Flavão me fez pensar nisso também. Minha relação atual com a crítica é bem distinta. Não me interessam suas “verdades” – que mais que nunca sei jamais serem absolutas. O que vale, para mim, são as visões e pensamentos jogados sobre as obras e seus criadores, tornando-os mais ricos e multifacetados, eternamente prenhes de novos significados. 
 
O metal melódico segue sem grandes atrativos para mim. Por outro lado, é impossível desprezar a relação que o estilo estabelece com seu público. Colocar isso numa balança de melhor x pior é de uma bovinice ímpar, da qual não quero tomar parte. Descanse em paz, Flavão. Muito obrigado pelos papos e risadas. E principalmente por todos estes questionamentos que hoje você despertou em mim. 
 
 
 
  
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Márcio Jr.

*Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
16.10.2026
Evento para convidados marca estreia de série documental sobre Marília Mendonça; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, na noite desta quinta-feira (15/10), a estreia de “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, no Cine Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A série documental Original Prime estreia ao público nesta sexta-feira (16). A produção retrata a trajetória da cantora goiana, sua ascensão no sertanejo e o legado de uma […]

Joias do Centro
16.10.2026
Centro Cultural Marietta Telles Machado reúne memória, arte e novos planos para o futuro

Carolina Pessoni Goiânia – Na Praça Cívica, em meio aos edifícios que marcaram os primeiros anos da capital goiana, uma construção guarda diferentes capítulos da história de Goiânia e da vida cultural do Estado. O Centro Cultural Marietta Telles Machado foi o primeiro edifício público construído estrategicamente na praça, concebido para abrigar a Secretaria Geral […]

Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]