Bruno Hermano e José Cácio Júnior
Às vésperas de encerrar seus primeiros dez dias à frente do governo do Estado, o governador em exercício José Eliton Júnior (DEM) diz que se sente feliz e ciente da transitoriedade do momento. Segundo Eliton, seu papel neste período foi dar continuidade ao planejamento do governador Marconi Perillo (PSDB). Sobre o governo, avalia que ainda há muitas dificuldades a serem superadas, sobretudo em relação à situação financeira do Estado. Presidente da Celg, o vice-governador falou ainda sobre a empresa e o desafio de recuperá-la.
Em entrevista exclusiva à equipe da Redação, no 10º andar do Palácio Pedro Ludovico, José Eliton também falou dos planos de seu partido, o Democratas, em Goiás. Segundo ele, o senador Demóstenes Torres é, hoje, a figura mais importante das oposições no País e, por isso, mesmo que seja o escolhido para disputar a porefeitura no ano que vem, pode decidir por seguir outro caminho. Eliton afirma que o DEM nacional entende que Demóstenes pode vir a ser candidato à Presidência da República. Mesmo que o senador não dispute a prefeitura de Goiânia, Eliton garante que o partido terá candidato. Um dos nomes cotados é o dele próprio . Eliton responde que uma candidatura em 2012 não está nos seus planos, mas também diz que não é de "fugir da raia".
Sobre a manutenção da aliança com o PSDB com vistas às eleições de 2012 e 2014, Eliton diz que o seu partido vai trabalhar com muita força para consolidar esta união. Ele também garante que o DEM vai defender a candidatura de Ronaldo Caiado para o Senado.
O DEM realizou convenção no último sábado e lançou o deputado federal Ronaldo Caiado ao Senado. O DEM vai buscar a união da base em torno dessa candidatura?
Eu disse na convenção que nós respeitamos profundamente a aliança que fizemos. A aliança foi importante para o Democratas e para o PSDB, pois garantiu a eleição do governador Marconi Perillo. Nós temos que participar do governo efetivamente e o governador Marconi tem respeitado muito o Democratas. Ocupamos pastas importantes na administração e o governador tem ouvido o partido na implementação de políticas públicas, como os programas sociais. Mas hoje é preciso dar um passo a mais. Garantir às famílias, aos indivíduos, o direito à oportunidade, de conseguir a ascensão social com o esforço próprio. E aí se insere com muita eficiência o Bolsa Universitária e o Bolsa Futuro, que criam uma porta de saída para os programas sociais. A eleição de 2014 não está em pauta, ainda estamos no meio da caminho, com a eleição do ano que vem. Mas nós queremos e vamos trabalhar com muita força para consolidar essa aliança. E já definimos internamente que vamos defender a candidatura do deputado Ronaldo Caiado ao Senado.
Da mesma forma em Goiânia, mesmo que o senador Demóstenes Torres não dispute a eleição? O DEM vai participar da união da base?
Isso foi colocado com muita clareza na convenção: nosso candidato é o senador Demóstenes. Mas nós não podemos ignorar que o senador vive o melhor momento de sua vida política. Ele tem uma importância fundamental no crescimento do partido em Goiás, mas tem um papel gigantesco no partido nacionalmente. Hoje, Demóstenes é, talvez, a figura mais importante das oposições brasileiras. Ele carrega e pauta o discurso das oposições brasileiras. Com essa projeção, o DEM nacional entende que ele pode vir a ser candidato à Presidência da República. Vai ser uma decisão difícil a ser tomada. Mas caso ele decida não ser candidato nacionalmente, nós vamos ter ele candidato a prefeito da Capital. Queremos discutir conteúdo, ideias e um partido tem que ter posição, clareza. Nós temos trabalhado para dar identidade ao eleitor.
O seu nome é colocado como possível candidato à prefeitura de Goiânia. Caso surja a oportunidade, o sr. tem interesse em disputar essa eleição?
Eu fico feliz em ser lembrado pelos amigos para essa missão tão importante. Goiânia é uma cidade especial, seja do ponto de vista demográfico ou do ponto de vista econômico no Estado. E seria uma honra para qualquer pessoa administrar a Capital. Mas eu sou vice-governador do Estado, tenho compromisso com o governador Marconi em estar à frente da Celg, os interesses do Estado. E uma candidatura ano que vem não está no planejamento político. Eu sou muito disciplinado nessas coisas. Mas é claro que as circunstâncias às vezes impõem outras decisões. Se eventualmente for a necessidade da base aliada, não fujo à raia não. Mas não estou discutindo isso hoje.
O governo do Estado enviou uma proposta ao governo federal para resolver a situação da Celg. O Estado conseguiu uma resposta?
No primeiro dia do ano o governador Marconi Perillo me encarregou de resolver os problemas da Celg. E dentro de 30 dias apresentamos um plano que contempla três módulos: o financeiro; o de investimentos a longo prazo, que compreende o período de 2011 a 2020; e o planejamento estratégico da empresa no período de 2011 a 2015. A reestruturação da empresa acontecerá com a execução dos três módulos de forma simultânea. Nós precisamos dar equilíbrio financeiro à empresa e garantir uma gestão eficiente, para que possa sobreviver. E é justamente isto que estamos fazendo. Desde janeiro nós fazemos ajustes internos muito fortes, mudamos padrões de governança, afastamos completamente ingerência política na tomada de decisões da empresa. Já afastamos o risco de apagões em algumas regiões que estavam críticas. Reduzimos em mais de R$ 200 milhões o endividamento da empresa no primeiro semestre e conseguimos diminuir em 4% o índice de queda de energia elétrica e de duração da interrupção do serviço.
Mas só isso garante o desenvolvimento da empresa?
Todos esses avanços não garantem a sobrevivência da Celg. Isso é óbvio. Nós estamos dando condições para a Celg retomar seu programa de investimentos, retormar programas sociais, como o Luz Para Todos. É preciso destacar que é um programa em parceria com o governo federal, governo estadual e a Celg. Mas na realidade a Celg não recebe, há cinco anos, nenhum centavo do governo federal. Nós temos R$ 500 milhões contigenciados porque a Celg se encontra inadimplente com as obrigações setoriais. Estamos bancando integralmente as ligações que estão sendo feitas.
E a parte econômica?
Nós retomamos o diálogo com a Eletrobras, que estava paralisado, estamos em um momento bom. Temos outras empresas, tanto de controle privado e controle público que estão avançando no diálogo com a Celg. Eu espero ter uma solução até o final do ano. É difícil estipular prazo. Mas estou otimista, pois finalmente a sociedade e os políticos estão entendendo que a Celg é um problema de Estado, de nação.
Essa semana saiu uma notícia no jornal Valor Econômico do interesse do governo federal de privativar concessionárias que tinham sido federalizadas. Isso preocupa a Celg?
Não preocupa. Se a Eletrobras partir para esse campo, nós vamos discutir, conversar. Essa questão nunca foi colocada em pauta pois nunca foi levantada. Estamos discutindo com a Eletrobras um modelo de gestão compartilhada. A federalização da Celg nunca foi discutida. Mas eu acredito que o Ministério de Minas e Energia está trabalhando em outro viés. A Eletrobras está caminhando no sentido de privatizar seis das distribuidoras que foram federalizadas lá atrás. E eu até fico feliz, pois parece que o governo federal está entendendo que o processo de privatização pode ser salutar para a sociedade em determinadas áreas estratégicas. Essa não é uma questão de ideologia. Mas uma questão prática do dia a dia das pessoas e de estratégia e desenvolvimento do País.
O governo do Estado pode discutir uma proposta para privatizar a Celg, caso o governo federal tenha interesse?
Essa questão jamais foi colocada em pauta. O governo federal não avançaria nesse sinal, pois compete ao governo do Estado essa decisão.O governador tem um posicionamento de alienar até 49% das ações da empresa. E se algum dia tiver essa proposta nós vamos debater com a sociedade e com a Assembleia Legislativa. Mas essa hipótese não é sequer discutida no governo hoje.
O sr. faz parte da comissão que discute a Reforma Eleitoral no Senado. Como estão as discussões?
Nós concluímos as audiências públicas e os sub-relatores encaminharam seus pareceres. Mas houve uma paralização do processo em função de que o Congresso Nacional iniciou uma discussão de uma Reforma Eleitoral interna. Então o presidente da comissão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, entendeu por mais prudente aguardar a votação no Congresso. Se não acontecer, o presidente do Senado, senador José Sarney (PMDB-AP) prorrogou a validade da comissão até o final do ano.
Quais serão as principais mudanças sugeridas?
Nós não vamos contextualizar somente em relação à eleição. Serão regras de procedimentos, regras partidárias e unificar toda legislação em um código único. Também defenderemos uniformidades de recursos, unificar ações para aferir diversos tipos de conduta, questões relacionadas à lista fechada, cláusula de barreira.
Como está sendo essa experiência de governar o Estado?
Fico feliz, como penso que qualquer cidadão também ficaria feliz. Ciente da transitoriedade que é essa situação. De qualquer forma nós estamos dando sequência ao que foi planejado pelo governador Marconi e sua equipe no início do ano.
O sr. vê esta viagem como uma oportunidade política, de ter seu espaço?
Eu penso que o governador não pauta essas questões de missões oficiais por gestos políticos. Mas sim por interesse do Estado. O governo foi à Europa buscar investimentos para Goiás, novas experiências, novos modelos de gestão. O que ele estã tentando é trazer conquista ao nosso Estado.
Qual saldo parcial o sr. faz dessa viagem do governador à Europa?
Eu ainda não fui inteirado de todos os desdobramentos. Mas toda viagem, quando se aproxima de diversos setores, trata inclusive questões da Celg, do sistema prisional goiano. São ações que vão se reverter em benefício à população. O balanço é altamente positivo.
Qual a avaliação desses 10 dias como governador?
Ainda temos muitas dificuldades pela frente. O governador Marconi já implementou uma transformação profunda nas realidades financeira e de gestão do Estado. Estamos avançando na relação interna com servidores e a meritocracia é um avanço interessante na gestão interna. A situação econômica do Estado era muito grave em janeiro, melhorou, mas continua grave. Não temos como tampar o sol com a peneira. Estamos discutindo a questão do Ipasgo, do reajuste dos servidores, todas as demandas que exigem fluxo de caixa positivo. É preciso trabalhar com o pé no chão, economizando onde podemos economizar e gastando com qualidade o dinheiro público.