Catherine Moraes
Insegunça, suor excessivo, ansiedade, coração acelerado e um trânsito caótico. De repente, o sinal vermelho abre mas o seu carro apaga e as buzinas começam. Para piorar a situação, o veículo que está na direita quer fazer uma conversão à esquerda e vice-versa. Os motoristas não dão setas e as motocicletas fazem zig-zag entre os automóveis. Se só de pensar nisso você entrou em pânico, se não consegue dirigir ou muito menos tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), talvez seja hora de procurar um tratamento especializado. E, calma, você não está sozinho!
"Geralmente pessoas com esse problema são aquelas inseguras, ansiosas e perfeccionistas. Tudo isso é transferido para o ato de dirigir e elas não conseguem ter controle sobre um veículo. Alguns dizem que é frescura ou pensam que pegar mais aulas com um instrutor é a solução. Na verdade, a necessidade é muito maior. É preciso tratamento psicológico, nutricional, fonoaudiólogo e até noções sobre mecânica", afirma a psicóloga Danielle Caetano, sócia de uma clínica especializada nesse tratamento.
A sonhada CNH
Beatriz Viveiros é analista jurídica e, aos 25 anos, ainda não conseguiu tirar a carteira de motorista. "Tenho medo de dirigir, aliás, tenho medo não por mim, mas pelas outras pessoas. Existem imprudentes demais no trânsito. Além disso, sou muito ansiosa e essa ansiedade me atrapalha", admite. Ela conta que já fez dois testes na prova prática do Detran, sem sucesso. O processo, que na sua época durava cinco anos, venceu e nada de habilitação.
A analista jurídica conta que tem uma família muito bacana, "muito mesmo", que a leva aos lugares que deseja ir já que o transporte coletivo não é uma opção desde o ensino médio. Para as baladas, os amigos e uma prima oferecem a carona. Apesar disso, o incômodo existe. "Fico chateada de pedir aos outros para me levarem a algum lugar tendo em vista que sou formada, tenho meu trabalho, meu dinheiro", completa.
Beatriz afirma que nunca passou por um acidente de trânsito e não sabe explicar ao certo de onde vem esse medo. A situação vai mudar em breve, é o que garante a bacharel em direito. Ela promete que vai procurar um tratamento especializado e, para o ano de 2012, a meta é ser a motorista da vez! "Não posso ficar refém desse medo", finaliza.
Carteira na mão e carro na garagem
A situação da estudante de odontologia Mayara Gomes, de 22 anos, é um pouco diferente. Habilitada a dirigir, ela não tem coragem de pegar o carro dos pais que fica na garagem de casa, ou mesmo do namorado. "Quando resolvi tirar a carteira eu não tinha medo nenhum, foi muito tranquilo e eu consegui passar de primeira tanto na prova teórica quanto na prática. Mas, hoje, prefiro andar de ônibus a pegar em um volante", completa.
Para ir a qualquer lugar tem sempre a carona dos pais, irmão ou do namorado e ela garante que não se sente incomodada em pedir ajuda. "Nunca passei por nenhum acidente de trânsito que pode ter contribuído para esse medo. Não sei as causas ao certo, mas o trânsito é muito perigoso e eu confesso que tenho muito medo de me envolver em algum acidente e não saber o que fazer."
A futura odontóloga conta que já chegou a procurar um tratamento especializado mas, que devido à correria diária, não teve tempo de dar prosseguimento ao tratamento. Ainda assim, ela sabe que a independência virá junto com a vitória sobre o medo.
Construindo uma clínica
Danielle Caetano é psicóloga e, por anos, trabalhou na área de trânsito, seja com motoristas de transporte coletivo ou com pessoas que têm medo de dirigir. Há pouco mais de seis meses, decidiu ir para São Paulo e fazer cursos na área com um objetivo: montar uma clínica especializada em tratamento para pessoas que não conseguem dirigir. E assim ela fez. Participou de cursos, seminários e visitou algumas clínicas na capital paulista, a fim de conhecer melhor o tal medo.
Voltando para Goiânia, montou a clínica 'Sem Medo de Dirigir' em sociedade com outros profissionais e, em pouco mais de seis meses, já atendeu 70 mulheres. Isso mesmo: apenas mulheres. Ela afirma que durante todo o dia os homens ligam para a clínica buscando orçamentos e perguntando como funciona o processo, mas nenhum efetiva a matrícula. "Acredito que, pela cultura machista, os homens se cobram muito e têm medo de assumir o problema. A procura é grande, mas eles não têm coragem de fazer o tratamento", completa.
Tratamento
O tratamento é realizado em três meses e o acompanhamento é multiprofissional. "Para cada cliente, fazemos um estudo de caso e, em seguida, um diagnóstico. Com isso, sabemos se o problema é um trauma, ansiedade, pânico ou qualquer outra possibilidade. A partir daí, começam as reuniões, em grupo e individuais." Os pacientes são acompanhados por psicólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos – que ensinam técnicas de respiração – e, por fim, instrutor mecânico. Danielle explica que, devido ao perfeccionismo dos pacientes, é bom que eles saibam noções básicas de mecânica, caso o veículo tenha algum problema.
Após um mês de tratamento, começam as aulas práticas com instrutores treinados por psicólogos e, caso seja necesário, os dois profissionais participam das aulas na rua. Danielle afirma ainda que vários exercícios devem ser feitos em casa e que, até hoje, todos os pacientes tratados na clínica conseguiram vencer o medo. "Fizemos até um painel com fotos e depoimentos dos alunos, a satisfação é muito grande", completa.
Painel mostra avanços das alunas, com depoimentos e fotografias (Foto: Fábio Lima)
Vencendo o medo
A vendedora e terapeuta ocupacional Greyce Kely Soares, de 29 anos, conta que foi obrigada pelo pai a tirar a Carteira de Habilitação. Ela lembra que não passou na primeira prova, passou na segunda e acha que isso contribuiu para o medo. "Fiz tudo direitinho, aulas, provas, mas o pânico era total. Fiquei mais de sete anos sem dirigir e enrolando todos que perguntavam sobre o assunto. Na época da faculdade pegava carona com amigas, andava de ônibus ou pedia socorro para meu pai", completa.
Greyce diz que o pai não dava muitas caronas e que deixava ela se virar com o transporte coletivo. No máximo, a buscava no ponto de ônibus quando chegava à noite. Para as baladas, a opção era o namorado – hoje marido – e, para o shopping, às vezes era melhor ir de táxi.
Ela conta que voltou a dirigir com incentivo do marido, foi a psicólogos e leu um livro que, segundo ela, ajudou mais que o trabalho profissional. "Tentei auto-escolas que já ofereciam tratamento, mas não tive sucesso. Meu marido me levou para dar algumas voltas no Serra Dourada, mas a teoria eu já sabia, eu tinha medo era do movimento. Pensava no que as pessoas estavam falando da forma como eu dirigia e tinha muito medo. Sou muito perfeccionista e achava que eu iria atrapalhar o trânsito. Não sabia que quem mandava no carro era eu e não o contrário", completa.
Hoje, com as mãos no volante, Greyce diz que é muito bom saber que pode ir aonde quiser, a hora que quiser. "Adoro levar minha mãe e minha sogra, que também não dirigem, para o shopping. Posso falar que sou totalmente independente, é outra vida! Estou super feliz e super agradecida pelos incentivos do meu pai, da minha mãe, do meu marido, do meu irmão e da minha tia. Ganhei um carro, presente do papai e do maridão, e me considero quase uma piloto profissional", finaliza brincando.
Serviço:
Clínica 'Sem Medo de Dirigir'
Avenida Nero Macedo, nº 226, Cidade Jardim, Goiânia. (Próximo ao shopping Cidade Jardim)
Quanto custa? Tratamento trimestral com parcelas mensais de R$ 225.
Contato: (62) 3271-1446