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Medalhistas brasileiros são demitidos, perdem parceiros e verbas

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05.03.2017 - 08:30:50

São Paulo – Seis meses após os Jogos Olímpicos, os medalhistas sofrem com queda nos investimentos federais, dificuldades para atrair novos patrocinadores e até demissão pura e simples, como o técnico da seleção de futebol, Rogério Micale, que perdeu o emprego apesar do ouro inédito. A lista engloba várias modalidades. Até Arthur Zanetti, estrela da ginástica artística, está em baixa. Suas dez fontes de renda até a Olimpíada foram reduzidas para apenas três: Bolsa Pódio, Força Aérea Brasileira e Adidas.

Preocupado com a brusca redução no orçamento, o medalhista olímpico nas argolas (prata no Rio-2016 e ouro em Londres-2012) trabalha em um cenário de incertezas no ano da disputa do Campeonato Mundial, em outubro, em Montreal (Canadá). O temor também atinge Poliana Okimoto – a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha olímpica nos esportes aquáticos com o bronze na maratona aquática.

No ano passado, tinha sua equipe multidisciplinar, financiada pela verba do Plano Brasil Medalhas – programa do governo federal – à disposição. Atualmente, conta apenas com o auxílio do preparador físico e do fisioterapeuta, ambos pagos do próprio bolso. Sem perder o bom humor, a atleta tem tentado dar um jeito de contornar a crise depois da perda do maior investidor, os Correios. "Ainda bem que meu marido (Ricardo Cintra) é meu técnico. Assim, ele trabalha de graça", brinca.

Poliana poderia desfrutar da estrutura oferecida pela Universidade Santa Cecília (Unisanta) para sua equipe olímpica, mas seria preciso se deslocar até Santos diariamente. Hoje, mantém a rotina de treinos no Clube Esperia, em São Paulo. "Uma medalha é feita de detalhes. Minha vida estava perfeita", afirma. Só lhe resta agora torcer para que a dificuldade seja passageira. A vida de Micale também parecia perfeita. Tanto que, após acertar com a CBF que seu trabalho iria até 2020, mudou-se de Belo Horizonte para o Rio. Mas aí veio o fracasso no Sul-Americano Sub-20 e o desemprego.

Falta de verbas 
Se os atletas de renome estão sofrendo com a crise econômica e a fuga de patrocinadores após os Jogos do Rio, a situação é dramática para as modalidades menores, aquelas que convivem com a falta de visibilidade e popularidade no País. O badminton planeja acabar com a seleção brasileira permanente depois que perdeu 30% dos recursos da Lei Agnelo/Piva, cerca de R$ 500 mil.

As alternativas são reduzir pela metade a participação em torneios internacionais ou diminuir o número de atletas. A modalidade não possui outras fontes de patrocínios públicos ou privados, pois não fazia parte do Plano Brasil Medalhas, programa do governo. "A situação piorou muito após os Jogos", diz José Roberto Santini, superintendente de Gestão Esportiva da Confederação Brasileira de Badminton.

Torneios como o Campeonato Brasileiro, que está sendo disputado no Esporte Clube Pinheiros, ainda não foram afetados por causa do apoio dos próprios clubes. A confederação estuda pedir um apoio emergencial para o Comitê Olímpico do Brasil (COB). No tae kwon do, o medalhista de bronze Maicon Andrade demorou mais de dois meses para receber o prêmio de R$ 12,5 mil pela conquista.

De acordo com um de seus técnicos, Reginaldo dos Santos, o próximo ciclo olímpico já está comprometido. "Ele perdeu cinco torneios importantes e não temos planos para o segundo semestre deste ano", reclama. A demora foi causada por um escândalo. A confederação está paralisada após o afastamento do presidente Carlos Fernandes no mês de agosto. Ele deixou o cargo após uma ação da Polícia Federal para desarticular uma quadrilha responsável por fraudes em licitações e desvios de recursos públicos do Ministério do Esporte a diversas confederações esportivas.

O interventor Carlos Carvalho iniciou as suas atividades em fevereiro para regularizar a administração em 90 dias. Cálculos iniciais apontam fraudes de R$ 8 milhões. No levantamento de peso, Fernando Reis afirma que a situação virou um "salve-se quem puder". A modalidade tinha, entre seus maiores apoiadores, a Petrobrás, que reduziu drasticamente os patrocínios esportivos. "Caiu tudo, o apoio do Ministério do Esporte e da Petrobrás. Perdemos até o plano de saúde dos atletas", explica o quinto colocado na Olimpíada do Rio.

Na mesma situação, Ane Marcelle, que alcançou o melhor resultado do Brasil na história do tiro com arco ao chegar às oitavas, dá aulas da modalidade para complementar o orçamento, cortado pela metade. "Nós estamos acostumados com a falta de recursos, mas todo mundo esperava que uma Olimpíada no Brasil poderia mudar a situação", lamenta a arqueira. Francisco Arado, técnico da mesa-tenista Bruna Takahashi, identifica uma debandada de atletas para a Europa para diminuir os gastos.

Para um atleta, uma diária com transporte, alimentação e inscrição nos torneios gira em torno de 150 euros (R$ 496). Hugo Calderano, que chegou às oitavas de final, igualando feito de Hugo Hoyama, iniciou o movimento de partida anos atrás e vem sendo seguido por vários jovens. "É mais barato ficar três meses na Alemanha do que ir e voltar a cada torneio", explica o treinador. Na esfera do apoio privado, Felipe Wu acredita que o problema maior é a crise econômica do País.

O medalhista de prata no tiro esportivo tinha em 2016 as rendas do Bolsa Pódio e Forças Armadas, além do patrocínio de um fabricante de chumbinhos. Neste ano, não conseguiu atrair novos apoiadores. Para piorar, ficou sem psicólogo e fisioterapeuta por corte de verbas da Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE). "Até parece que estamos sendo punidos pelo bom resultado."

Mas a maior perda de Wu foi a saída do técnico colombiano Bernardo Tobar após um ano de trabalho e de bons resultados. Dessa forma, voltou a treinar sozinho no Hebraica, em São Paulo. De olho no futuro, o medalhista olímpico retomou para a faculdade de Engenharia Aeroespacial. "Infelizmente, não estou me dedicando exclusivamente ao esporte, como em 2016, mas tenho treinado, mesmo com a rotina puxada da faculdade", diz.

Repasse das Lotéricas cai R$ 13 milhões
Uma das razões da pindaíba do esporte brasileiro em 2017 foi a redução da arrecadação. A Lei Agnelo/Piva destina 1,7% do prêmio pago aos apostadores de todas as loterias federais do País ao Comitê Olímpico do Brasil (COB). A arrecadação do ano passado foi 14% menor em relação a 2015. Com isso, a entidade vai repassar R$ 85 milhões diretamente para as confederações, R$ 13 milhões a menos que os R$ 98 milhões do ano olímpico.

Todas as confederações foram obrigadas a se adaptar à nova realidade. Em seu primeiro mês como ministro do Esporte, Leonardo Picciani (PMDB) cancelou um edital de R$ 150 milhões que garantiria projetos para apoio a atletas após os Jogos. O órgão afirma que os critérios eram desconhecidos. "Não houve redução de investimento e sim o cancelamento de um edital, cujos critérios eram desconhecidos pela nova gestão que acabara de entrar. O apoio não vai cessar, porém será embasado em critérios melhor estruturados", diz nota do órgão à reportagem do Estado.

Por outro lado, o Ministério do Esporte garante que não mudará as regras do Bolsa Atleta, o maior programa de patrocínio individual do País. Das 19 medalhas conquistadas pelos brasileiros nos Jogos do Rio, apenas o ouro do futebol masculino não contou com atletas bolsistas.(Agência Estado)

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por Yuri Lopes

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