José Abrão
Goiânia – No ateliê do artista goiano Marcelo Solá, dificilmente uma coisa acontece de cada vez. No momento, ele trabalha em uma nova série, ainda sem previsão de conclusão, um livro que levou quatro anos para ser finalizado e outros tantos projetos em edição pela sua própria editora, além de levar obras inéditas para a ArtRio, que começa no dia 16 de setembro, uma das maiores feiras de arte da América Latina.
“Eu estou meio dividido, com mais galera trabalhando comigo”, resumiu Solá em entrevista na sede do jornal A Redação, em Goiânia. O artista plástico soma mais de três décadas de carreira e é reconhecido no mundo todo, mas, para ele mesmo, ainda não chegou ao auge do seu aprimoramento e amadurecimento técnico. “Acho que eu não estou pronto”, brinca. “A gente vai ter alguma coisa pronta daqui a uns 30 anos, talvez”, completou.
A nova série em desenvolvimento dá continuidade a uma pesquisa de anos e que é um desdobramento direto da individual “Ainda Assim Por Isso Mesmo”, que esteve em cartaz no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia, entre abril e maio deste ano. Solá afirma que não domina tão bem as técnicas de serigrafia e outros formatos antigos de gravura, o que abriu espaço para uma rica e duradoura colaboração com outros artistas que trouxeram “mais dinamismo e outros pontos de vista” ao trabalho.
Nesta individual, chamou a atenção a presença de vários pontos em tramas geralmente de linhas azuis ou de cores vibrantes em fundo preto. Solá conta que o padrão nasceu quase sem querer: durante o processo de desenhar, ele tinha o hábito de marcar, com círculos coloridos, os pontos onde as linhas se cruzavam, uma forma de contar quantas curvas e quantos cruzamentos existiam em cada composição. Um dia, ao observar o conjunto à distância, percebeu que aquelas marcações formavam, sozinhas, uma imagem nova. “Eu tinha um mapa gigante do que eu havia desenhado, dos cruzamentos, das opções. Fui percebendo que aquilo criava um outro desenho”, disse.
A partir da descoberta, o artista passou a “extrapolar” o achado até virar uma série inteira. Precisou de um material que não encontrava em Goiânia: bastões de tinta acrílica de secagem rápida, e o processo virou, nas palavras dele, “uma máquina de produção”. Sobre o fundo preto, o artista afirma ter se interessado pela “vibração” de certas cores contrastantes, criando um efeito tridimensional. “Me parece que a gente fica sempre indo e voltando. Revendo o que foi feito. Para se ter uma ideia do que pode ser feito no futuro”, refletiu.

Grande formato
Outro interesse recente na produção do artista tem sido por obras grandes. “Maiores do que eu”, definiu. Ele tem 1,70 m e tem se dedicado a peças que chegam a 2,50 m. “Essa questão da monumentalidade da obra, como se ela engolisse o espectador, eu acho muito bacana”, afirmou. Algo que se soma ao seu traço rápido, definido por ele mesmo como “nervoso”. “Eu tenho uma necessidade grande, na hora de desenhar, de ser rápido, para registrar o maior número de ideias possível”, explicou.
Mesmo com o ritmo de produção acelerado no ateliê, que, segundo o artista, tem sempre duas ou três exposições prontas de reserva, Solá prefere abrir no máximo uma individual por ano, para garantir um intervalo de “amadurecimento” entre um projeto e outro. Por essas e por outras, a montagem de “Ainda Assim Por Isso Mesmo” levou dois anos, embora tenha ficado em curta temporada em Goiânia. Por isso, o artista não descarta a possibilidade de abri-la novamente em outro espaço: “muita gente se interessou. Algumas obras foram vendidas. Mas eu tenho grande parte dela. Ela está guardada ainda. Quem sabe no futuro próximo”.
Um livro que nunca termina
No ateliê, Solá também tenta fechar um livro em que trabalha há quatro anos. “Para mim, nunca encerra”, disse ele sobre o processo. “Todo dia surge uma coisa nova.” O projeto, que deveria ter 40 páginas, cresceu para 60 e depois para 70, número que o artista decidiu travar, mesmo sabendo que a vontade de mexer continuaria. “Tem que ser cruel em determinado momento e fechar”, resumiu. A obra final mistura textos e ilustrações feitas usando diversas técnicas de impressão antigas, atualizadas com o que Solá chama de “um olhar contemporâneo”.
Os textos, por exemplo, foram construídos com tipografia usando tipos móveis. Para os desenhos, entraram xilogravuras, serigrafias e um processo chamado clichê, no qual o desenho é reproduzido a partir de uma matriz de chumbo. Parte do trabalho tem sido feita em Goiânia com artistas jovens e também com alguns grandes mestres gravadores, tipógrafos e de outras técnicas.
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Quanto aos nomes, Solá ainda prefere manter em segredo. O livro, produzido artesanalmente, também terá um número bastante limitado de cópias, assinadas e numeradas, valorizando o trabalho artístico realizado, pensadas como objetos de colecionador. “Quando acabar, provavelmente não vai ter uma outra edição”, afirma.
Além disso, pela sua editora, a Hidrolands Grafisch Atelier, Solá edita atualmente livros de outros três artistas.
Repetir até ficar diferente
A primeira exposição de Solá aconteceu no início dos anos 1990: “não fiz outra coisa desde então”, resumiu. O artista faz questão de reforçar que se define como desenhista, não pintor: “e eu falo em desenhos porque eu sou desenhista. Não faço muitas outras atividades, então eu sou desenhista. Não sou um bom pintor, sou um cara do desenho mesmo, do papel e dos desdobramentos que o desenho pode trazer”.
Sobre a cena de artes plásticas em Goiânia, Solá nota uma transformação em relação a 20 anos atrás: mais artistas jovens surgindo, mais canais de visibilidade para mostrar trabalho e um número crescente de colecionadores na cidade: “Goiânia é um celeiro de arte”. Para ele, hoje “tem arte para todos os bolsos”: de gravuras e múltiplos mais acessíveis a obras de valor elevado. Ele percebe mais obras circulando e mais gente trabalhando com venda de arte do que antes.
Ao longo da carreira, Solá reconhece que certos temas se tornam obsessivos por um tempo e depois desaparecem, como os cachorros e os aviões que marcaram muitas das suas obras no começo dos anos 2000 e que já não aparecem mais. Agora, a experiência de desenhar as próprias matrizes de serigrafia ocupa esse lugar. O artista cita o poeta Manoel de Barros: “repete, repete, até que fique diferente” como uma espécie de método de trabalho. “Eu adoro isso. Nesse momento, eu estou adorando”, finaliza.
