Logo

Mãe de todos

WhatsAppFacebookLinkedInX
27.07.2011 - 17:00:36

Coração de mãe não se engana. Naquela noite quente de 19 de setembro de 1995, a ansiedade da empresária Ana Maria Motta era maior do que nos outros dias. Para a família, a razão seria a proximidade do parto, pois ela já estava com 40 semanas de gravidez. Mas ao assistir na TV uma reportagem sobre a inauguração da piscina da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) em Goiânia, Ana teve certeza que o motivo era outro. “Um dia ainda vou levar minha filha para brincar nesse lugar”, pensou.

Muito antes que Maria Thereza viesse ao mundo, Ana já sabia que seria mãe de uma criança com Síndrome de Down. “Era um pressentimento muito forte, quase uma certeza”, conta. Ao pegar o primeiro filho no colo e ouvir do médico que estava tudo bem, ela soube que não seria com Matheus. Ainda não seria dessa vez. Mas ao engravidar de novo, o tal pressentimento veio mais forte. E na naquela noite de setembro ela teve a confirmação de que as mães sentem e sabem mesmo de coisas que desafiam a lógica.

Ana recorda-se do silêncio na sala de parto quando Maria Thereza nasceu. “Ela não chorou e a equipe médica ficou tensa e calada”, lembra. Já no quarto, ao perguntar ao médico como estava o bebê, ela ouviu que seria mãe de uma criança especial. “Perguntei se minha filha tinha Síndrome de Down. Surpreso, ele quis saber quem havia me contado. Disse que ninguém precisava ter me dito, porque eu sempre soube”, explica. Ao pegar a pequena Maria Thereza nos braços, prometeu à ela que uma vida de lutas e alegrias começaria ali.

Em meio aos livros e explicações médicas, Ana descobriu que a Síndrome de Down é definida por uma alteração genética caracterizada pela presença de um terceiro cromossomo de número 21, o que também é chamado de trissomia do 21. Uma das características da deficiência é o funcionamento intelectual mais lento que a média, que se manifesta antes dos 18 anos. Além do déficit cognitivo e da dificuldade de comunicação, a pessoa com Síndrome de Down costuma apresentar redução do tônus muscular, cientificamente chamada de hipotonia.

Problemas na coluna, na tireoide, nos olhos e no aparelho digestivo também podem ser comuns, assim como as anomalias cardíacas. Mas nada disso impediu Ana de lutar para que Maria Thereza tivesse uma infância plena e feliz. E entre sessões de natação e fonoaudiologia, eis que ela engravida novamente, e o improvável (presente em uma chance de 1% de possibilidade) acontece: Pedro também nasce com Síndrome de Down. “Quando pensei que estava aprendendo a lidar com uma criança assim, me vi com duas”, diz.

Entretanto, a duplicidade que poderia reduzir pela metade o ânimo e a determinação de Ana teve efeito multiplicador. “Com Pedro, reforcei a convicção de que minha missão na vida era, de fato, lidar com a síndrome e fazer dessas crianças pessoas mais felizes”, constatou. O jeito encontrado por Ana para cumprir seu destino foi auxiliar os filhos a desenvolverem ao máximo seus potenciais intelectuais, emocionais, motores e físicos. Muita atenção, dedicação, alegria e, sobretudo, aceitação. “De nada adianta amar um filho, sem aceitá-lo como ele é”, justifica.

Ana percebeu que os pais de crianças e adolescentes com Síndrome de Down tinham amor de sobra, mas não aceitavam plenamente os filhos e tentavam poupá-los de tudo. “Eles não podem namorar, ir ao cinema, passear. É como se, por serem Down, não tivessem capacidade de se defender das pessoas e das situações e, por isso, não pudessem desfrutar da plenitude da vida”, diz. Na criação de Pedro e Maria Thereza, Ana e o marido provaram o contrário. A garota estuda, namora, vai a festas e adora música. O garoto toca piano com talento, estuda e convive com vários amigos.

Disposta a lutar para que outras crianças e jovens tenham esse mesmo direito, há três anos ela preside a Associação Down de Goiás (Asdown). “Não é fácil. Agora, por exemplo, estamos sem vários profissionais importantes na entidade, como fonoaudióloga e terapeuta ocupacional. Além disso, existe a dificuldade em conseguir mobilizar os pais, em fazê-los compreender a importância de participar ativamente da vida da Associação. Mas vale a muito a pena. Tudo o que já conseguimos, compensa o esforço”, reflete.

Para Ana, a luta dos pais de filhos com Síndrome de Down é coletiva e as vitórias mais saborosas, pois são compartilhadas. “Costumo dizer que quando você é mãe de um Down, é mãe de todos”, afirma. Questionada se sentia-se sobrecarregada pelo fato de ter dois filhos portadores da síndrome, a empresária gentilmente corrige a repórter. “Por favor, não os chame de portadores. Portador é quem carrega uma carga pesada, um fardo. Eu não trago nada disso comigo. Meus filhos são extremamente leves e felizes. Eles são Down, apenas isso”.
   
Maria Thereza e Pedro são como a água. Ela, por ser transparente, autêntica, expondo sem medo seus sentimentos e desejos. Ele por sua profundidade, com sensibilidade ímpar para as artes. Em ambos, Ana vê refletida sua imagem e as lições que os dois lhe passam diariamente. “Com meus filhos aprendo a viver sem pressa. É um dia de cada vez, comemorando cada vitória, por menor que seja”, conta. A empresária também diz que aprende com os filhos a superar constantemente seus medos. Afinal, como dizia Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]

Noite e Dia
18.09.2026
Veja como foi a roda de conversa promovida pelo jornal A Redação sobre políticas para o setor artístico

Carolina Pessoni Goiânia – Representantes de diferentes áreas da cultura goiana se reuniram nesta quinta-feira (17) para discutir desafios, propostas e políticas públicas para o setor artístico em Goiás. O encontro “Arte Pensante – Roda de Conversa sobre Políticas para o Setor Artístico”, promovido pelo jornal A Redação, ocorreu na Galeria Aberta – Elysium Sociedade […]

Noite e Dia
16.09.2026
Sebrae premia profissionais da comunciação em noite dedicada ao jornalismo; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Prêmio Sebrae de Jornalismo realizou a solenidade de premiação em reconhecimento a produções jornalísticas que abordam temas ligados ao empreendedorismo e aos pequenos negócios. O Jornal A Redação conquistou o 2º lugar na etapa estadual da 13ª edição do prêmio, no evento que ocorreu na noite desta terça-feira (15/9), na […]