A Redação
Goiânia – Líderes de pelo menos quatro dos 11 países sul-americanos que participaram na terça-feira (30/5) da cúpula promovida pelo governo brasileiro no Palácio do Itamaraty, em Brasília, reagiram às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de que relatos de violações de direitos humanos, autoritarismo e restrição das liberdades democráticas na Venezuela eram fruto de uma “narrativa”. Entre os que criticaram o posicionamento estão os presidentes do Chile, Gabriel Boric, de centro-esquerda, e do Uruguai, Luis Lacalle Pou, de centro-direita.
“Não se pode varrer para debaixo do tapete ou fazer vista grossa sobre princípios importantes. Respeitosamente, discordo do que Lula disse ontem. Não é uma narrativa, é uma realidade, é séria e tive a oportunidade de ver-la nos olhos e na dor de centenas de milhares de venezuelanos que vivem na nossa pátria e que exigem uma posição firme e clara”, afirmou Boric, cobrando respeito aos direitos humanos, independentemente da linha política do governante de turno.
Lacalle Pou, por sua vez, se disse surpreso com as declarações de Lula. “Fiquei surpreso quando se disse que o que acontece na Venezuela é uma narrativa. Vocês sabem o que nós pensamos da Venezuela e do governo da Venezuela”, reagiu o uruguaio. “Se há tantos grupos no mundo tentando mediar a volta da democracia plena na Venezuela, para que haja respeito aos direitos humanos, para que não haja presos políticos, o pior que podemos fazer é tapar o sol com um dedo. Vamos dar o nome que tem e vamos ajudar.”
Presidente do Equador, Guillermo Lasso, afirmou que, "independentemente de diferenças ideológicas, devemos nos comprometer a revitalizar a integração visando um regionalismo no qual prevaleça a democracia". O Equador é um dos países da região para onde mais imigram os venezuelanos. Mario Abdo Benítez, presidente do Paraguai, citou fontes de seu governo e mencionou relatórios sobre violações dos direitos humanos cometidas na Venezuela elaborados, entre 2020 e 2022, pela equipe da ex-Alta Comissária da ONU, a ex-presidente chilena Michele Bachelet. No último documento apresentado por Bachelet antes de deixar o cargo, em meados do ano passado, sua equipe relatou o que ouviu em 21 prisões espalhadas pelo país, onde estão detidos 259 presos políticos.
Depois da reunião, Maduro minimizou as críticas. “Isso é normal. Eles têm uma visão, nós temos outra. Há união na diversidade. Isso é a América do Sul, e sempre haverá debate”, disse o chefe do regime chavista. “O espírito unitário sul-americano reinou hoje. Sempre haverá diferenças de critério, propostas e ideias. Mais importante é que houve debate com muita tolerância e franqueza.”
A jornalistas, no entanto, o Maduro virou as costas e não respondeu se há condições mínimas para disputa das eleições nem se há democracia na Venezuela. Ele circulou no retiro de presidentes sul-americanos, no Palácio do Itamaraty, como se estivesse num processo de reinserção internacional, acolhido por Lula. Parou na icônica escada do Itamaraty e posou para fotos com sinal de vitória.