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Lollapalooza cresce sem estar pronto para ser grande

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27.03.2017 - 07:59:59

São Paulo – Empilhar pessoas em frente a palcos não é sinônimo de sucesso. Um festival precisa de, além de identidade e boas atrações, garantir a segurança e o conforto de quem pagou caro para estar lá. O Lollapalooza vive um dilema a partir de 2017. Ajudado pelo "efeito Metallica" no sábado, 25, ele atingiu um resultado heroico de público, com 190 mil pessoas nos dois dias, e se tornou um gigante. É a melhor marca de suas seis edições.

Seu feito inquestionável, de crescer em um ano de retração econômica e desemprego cobrando até R$ 920 de entrada, pode fazer seu mentor Perry Farrell sorrir ou coçar a cabeça. O Lollapalooza não está pronto para ser tão grande. A geografia irregular do autódromo de Interlagos não se torna um desafio apenas para a movimentação das ondas migratórias que se descolam entre os shows.

Quem não conseguia chegar 15 minutos antes de cada apresentação começar corria o risco de não assisti-la por falta de ângulo de visão, como aconteceu no momento do Metallica. Com torres de caixas avançadas na plateia e bases para técnicos de luz e som espalhadas pela pista, os pontos cegos se multiplicam. As filas da cerveja chegavam a ter 40 minutos de espera e a recarga da pulseira de créditos também pedia paciência.

Há um preço a ser pago quando se tem uma superpotência como Metallica. Ele pode desestabilizar o ecossistema de um festival que tenta distribuir atrações no mesmo horário, equilibrando a lotação de cada espaço. Enquanto The Weeknd cantava para uma multidão na noite de domingo, a cantora Melanie Martinez amargava uma plateia esvaziada no palco vizinho. Uma coisa é a capacidade total do Autódromo de Interlagos. Outra, não medida oficialmente, a de cada palco.

Se vai seguir em sua proposta de rockinrização, trazendo head liners de peso cada vez maior, a produção precisa repensar seus espaços e a forma como trata os fãs que o sustentam de pé. Outro feito de Farrell é a capacidade de seu festival em furar a bolha. Os ídolos invisíveis criados à base de compartilhamentos nas redes, divorciados da mídia tradicional, chegam ao Lollapalooza como anônimos ao público médio e partem para seus países depois de uma demonstração de força absurda em frente aos súditos.

A sueca Tove Lo, no sábado, tocou para garotos espremidos que cantavam suas músicas em frente ao palco às lágrimas. A dinamarquesa Mo, no domingo, 26, parecia Madonna em início de carreira. A ovação para recebê-la comprovava o quão ágil e silenciosa tem operado a nova ordem da indústria pop. As velhas discussões sobre a divisão entre eletrônico e orgânico, rock e house, riff e bit, real e programado soaram, durante dois dias, lamentações à beira de um muro combalido, ajudado a ser desfeito por Duran Duran nos anos 1980 a golpes de Notorious.

Músicos como o baterista de Mo, que viajava sobre uma base programada de sintetizador, ou os integrantes lisérgicos do Bob Moses, surgem de um hibridismo de linguagens que desprezam a fidelidade às raízes. Afinal, suas raízes, definitivamente, não são os Rolling Stones. Com muitos clássicos, a banda inglesa Duran Duran, pai de muitos, mostrou ser a maior hitmaker do festival até a tarde de domingo.

Ao contrário do Metallica, que abusou de músicas novas em determinado ponto do show, a sequência de Hungry Like The Wolf, A View To a Kill e Come Undone foi arrebatadora. A maior surpresa da tarde ficou por conta da performance de Céu, que subiu ao Onix para cantar o clássico Ordinary World com os ingleses. Céu, que havia se apresentado no Skol no início da tarde, fez um bom dueto com Simon Le Bon. Dias antes do festival, o baixista John Taylor havia revelado que iria procurar a cantora porque era bastante fã de seu trabalho.

O Two Door Cinema Club não precisou se esforçar para levar uma multidão ao Skol. Com canções de ritmos contagiantes, o power trio cantou sucessos de seus discos mais conhecidos, Tourist History (2010) e Beacon (2012). Ainda aproveitou para incluir algumas canções de Gameshow, álbum lançado no fim do ano passado. "Brasil, é bom estar de volta", disse o vocalista Alex Trimble, que agora adota o visual de cabelos longos. Já na noite de domingo, no Onix, The Weeknd não precisou de batidas fáceis e versos assobiáveis.

Mesmo truncando tudo, ele foi capaz de fazer dançar. Ao contrário de Simon Le Bon, segurou tudo sozinho, fritando o público no melhor uso da gíria. Ele é o pop dos bons, que rompe barreiras. Até o ano passado, era um cantor com influências de R&B, dono de um pop obscuro, cheio de referências a noitadas pesadas, regadas a drogas, garotas e que sempre levavam a uma ressaca moral. Era o bad boy à beira do pop. Fazia dançar, mas não tinha saído da própria bolha. (Agência Estado)

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por Yuri Lopes

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