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Literatura, o olhar, a crítica. O personagem Gilberto Mendonça Teles (1)

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21.02.2016 - 16:59:00
Recordações inumeráveis
correm silenciosamente
nas margens do rio
(dos olhos do homem)
 
“Janelas”, João Cabral de Melo Neto 
 
 
 
Um dos ensaios que mais lembro ter lido até hoje, com regozijo-além e depois arrebatante interesse nos anos seguintes, é o que foi escrito por Virginia Woolf em resposta [percuciente e lúcida] a Arnold Bennett, ambos escritores ingleses do século XX. 
 
Publicado, primeiro, em 1923 sob o título “Mr. Bennett and Mrs. Brown” e, depois, ampliado e lido na Universidade de Cambridge, em maio de 1924, na palestra “Character in Fiction”, o texto, num zás, me intrigou em tudo, como se “cochichando no ouvido e me empurrando para a perdição”, quando eu ainda estudava literaturas e trilhava os tinos e desatinos da crítica literária, cerca de quinze anos atrás. 
 
Só depois de muito tempo — porque a gente às vezes leva tempo mesmo para desatar e retecer os nós do discernimento sobre o que lê ou imagina ter lido — é que fui perscrutando aqui, clareando consensos e dissensos, compreendendo, afinal, o ensaio em seus tim-tins. De imediato, porém, a viagem de trem — narrada por Virginia Woolf para ilustrar a importância da personagem no universo ficcional — era o que fagulhava sem fim de imaginaturas. Que-sempre em mim, desde então.
 
“Venha, pegue-me se puder.” Ora-ora: seja transpassando o sertão, ou em bonde pelo Rio belle-époque, ou confabulando sobre a vida no Beco do Zé Pinto… “Pegue-me se puder”, dentroecoa-se. Pois é assim que certa Nhinhinha, Capitu e Vanim, por exemplo, incitam naturalmente seus Rosas, Machados e Ruffatos, como se os “pressionasse a, quase automaticamente, escreverem sobre elas” — personagens. Eis o que Virginia Woolf explica: como as histórias — mesmo num trem de Richmond a Waterloo — germinam a partir dessa faísca de curiosidade, urgência de exploração ou imaginação que o ficcionista tem sobre os destinos de senhores Bennett e senhoras Brown.
 
Também nunca esqueci as imagens que vim imaginando das pessoas, pensando personagens. E nas mais variadas situações. Concordo que, mesmo quando não escritores, podemos fazer assaz-assim no dia a dia quando nos ocorre imergir — quase por instinto, às escuras ou de olhos fechados — com os sentidos vidrados na caminhadura de muitos alguéns. Adentro, confabulamos, são decerto personagens. 
 
Foi assim que um dia, não muito distante de hoje, abri com saudade um livro de João Cabral de Melo Neto, e me aconteceu de ir estoriando miragens, reconstruindo telhados. 
 
Com uma xícara de café na mão: “Minha memória cheia de palavras”. 
 
Olhando pela janela da cozinha, de onde avisto sempre um pé de cajá-manga antigo e miríades de gatinhos em estripulias bem de gatos: Antonio Carlos Secchin, “Toda linguagem é vertigem… O que faço, o que desmonto”, “a língua iludida da linguagem”. Versos incríveis, deste também-poeta incrível.
 
Na rua de cima, um rapaz passa assoviando, tantas analogias: Gilberto Mendonça Teles, seus todos-prefácios, página trezentos e dois. Sobre Secchin, ele prefacia: como são exploradas “quatro séries de imagens”, ar-fogo-terra-água. Quatro partes de um livro. Coisa interessantíssima. “A consciência do excesso, a plenitude das coisas, o significado do poema terminado e, ao mesmo tempo, o movimento para o próximo ciclo criador”.  
 
Secchin, João Cabral, Gilberto Mendonça. Elementos, Pedra do sono, Discursos paralelos. Conexões, epifanias. A certa altura, tenho diante de mim estes três livros. E o ensaio de Virginia Woolf. Lembrando como a gente dá de imaginar personagens… 
 
O poeta-severino, o crítico lâmina-da-voz prefaciado por Gilberto. “Venha, pegue-me se puder.” Gilberto. Estive diante dele inúmeras vezes — como leitora, também durante anos-e-anos de atividade crítica recorrendo às leituras que ele foi fazendo dos literatos, da literatura nossa, brasileira. Mas era pouco, eu sempre ficava com a imagem que a própria imagem às vezes desatina: Gilberto-personagem. Antes mesmo de ter sido convidada a participar da publicação de Discursos paralelos, livro lançado em 2010 pelo Instituto Casa Brasil de Cultura contemplando todos os prefácios já escritos pelo autor, ao longo de quase cinquenta anos, eu, enfins, ficava de pensamentos: e o Gilberto-personagem? O que a gente sabe, e o que a gente imagina?
 
(Gilberto Mendonça Teles, em desenho de Jorge Braga, reproduzido de Discursos paralelos)
 
Homem da palavra, poeta, crítico exímio. Goiano de Bela Vista de Goiás, nascido em 1931, morando de há tantas décadas no Rio de Janeiro, obras publicadas no Brasil e no exterior. Sim, é dele o livro Vanguarda europeia e modernismo brasileiro, edições inúmeras, lemos nas academias de letras, todos nós. 
 
A inquietação deliciosa sobre o Gilberto-personagem — explico — vinha na verdade de uns dois anos antes: estando em Goiânia em 2008 para uma banca de doutorado, ele conversou comigo e com o então editor da Revista UFG, professor Wolney Unes, sobre a fundação da universidade, coisas nossas; assuntos diversos, neles Gilbertos inúmeros.
 
À hora marcada, bem de cedinho, encontramos o escritor num salão reservado do hotel onde ele se hospedava. Difícil separar o homem distinto do crítico de fino trato com a linguagem que a gente lê nos livros. Sim, difícil naquele momento controlar a emoção de estar ali e coordenar as possibilidades de ver através daquele que tinha escrito sobre quase tudo, e com sensibilidade-além, acerca da literatura da gente.  
 
Eu tinha uma cópia de um de seus livros em mãos, anotações infinitas, querença de atravessar o Outro de enredos, desenlaces, detalhes por descobrir, sem fins de. Veio-vindo Gilberto Mendonça Teles, andar tranquilo, olhar atento a tudo… 

(continua no próximo domingo)

 

 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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