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Literatura comparada, religiosidade e poesia

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03.11.2020 - 23:24:31

Na obra “A Literatura Comparada”, Tania Franco Carvalhal apresenta o histórico de desenvolvimento dessa área de estudos da literatura. Surgida a partir das primeiras décadas do século 20, a literatura comparada se configura como um vasto campo de abordagens metodológicas no contexto do que a autora classifica, de forma metafórica, como sendo uma babel literária. Exame de temas, motivos, mitos, referências de fontes, sinais de influências, estruturação de obras, dentre outras práticas de metodologias, formam um conjunto que referenda a metáfora de Tania Carvalhal.

Segundo a autora, comparar faz parte da tradição cultural da humanidade. Na literatura não poderia ser diferente. Na crítica literária, ressalta, a comparação serve muitas vezes para estabelecer juízos de valores. No entanto, até meados da década de 70 do último século, o comparativismo literário vivenciou uma crise metodológica de natureza estagnante em suas abordagens na teoria do conhecimento. A noção de intertextualidade, cunhada em 1969 por Julia Kristeva como resultado de suas leituras acerca do dialogismo de Mikhail Bakhtin, deram novo alento à comparação em literatura, conforme registra Carvalhal.

Em “A Estratégia da Forma”, Laurent Jenny, que é citada em “A Literatura Comparada”, refere-se à intertextualidade em termos mais específicos quando afirma que ela “designa não uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido”. Neste contexto, a citação de um texto por outro nunca é inocente, conforme acentua Carvalhal, que observa: “Toda repetição está carregada de uma intencionalidade certa: quer dar continuidade ou quer modificar, quer subverter, enfim, quer atuar com relação ao texto antecessor. A verdade é que a repetição, quando acontece, sacode a poeira do texto anterior, atualiza-o, renova-o e (por que não dizê-lo?) o reinventa”.

A teoria do conhecimento próprio da literatura comparada possui o seu jargão particular, desenvolvido ao longo das décadas de atuação. Termo como “Fonte/Origem”, por exemplo, diz respeito à procedência, “a causa que provoca um determinado verso ou obra”. Justapõe-se essa terminologia à “Intertextualidade”, cuja conceituação foi adotada pelo comparatismo literário em sua ampla dimensão articulatória de significados textuais. Os exemplos na literatura são infindáveis e apresentam relações muitas vezes surpreendentes.
 
CORA CORALINA, POESIA E REINVENÇÃO
Na conclusão de seu estudo, Tania Carvalhal assevera que a hipótese intertextual em literatura comparada permite que sejam observados os processos de “assimilação criativa dos elementos”. A comparação entre o poema “Das Pedras”, de Cora Coralina, e o poema “Marchemos”, escrito pela alma do poeta Castro Alves através de Francisco Cândido Xavier, conforme advoga o espiritismo kardeciano, apresenta uma instigante correspondência comparatista cuja interpretação pode apresentar uma série de matizações possíveis e passíveis de serem exploradas.

O poema da psicografia de Chico Xavier consta de seu primeiro livro, “Parnaso de Além-Túmulo”, que compõe um conjunto de cinco centenas de obras obtidas pelo fenômeno da psicografia. Desse trabalho inaugural, constam poesias atribuídas a pouco mais de duas dezenas de poetas luso-brasileiros. No ano de 2001, Alexandre Caroli Rocha defendeu dissertação de mestrado em Teoria e História Literária na Unicamp-SP, sob orientação do Dr. Haquira Osakabe, tendo o “Parnaso de Além-Túmulo” como objeto de pesquisa. Seu trabalho se insere no âmbito do comparativismo literário.

Escreveu Castro Alves (espírito) em “Marchemos” versos distribuídos por quatorze estrofes que são um cântico ao princípio da evolução espiritual dos seres que ocorreria, na cosmovisão do autor, através do processo da palingenesia (reencarnação), em que a alma aos poucos se depura de suas imperfeições intelecto-morais. Na primeira estrofe escreve Chico Xavier/Castro Alves: “Há mistérios peregrinos/No mistério dos destinos/Que nos mandam renascer:/Da luz do Criador nascemos,/Múltiplas vidas vivemos,/Para à mesma luz volver”.

Mais adiante, nas estrofes quatro e cinco, o autor projeta uma visão evolutiva que perpassa os demais reinos da criação: “É a gota d'água caindo/No arbusto que vai subindo,/Pleno de seiva e verdor;/O fragmento do estrume,/Que se transforma em perfume/Na corola de uma flor.//A flor que, terna, expirando,/Cai ao solo fecundando/O chão duro que produz,/Deixando um aroma leve/Na aragem que passa breve,/Nas madrugadas de luz.”

É na sexta estrofe, no entanto, que se tem um dos textos-fontes, ou fragmento-fonte, que será intertextualizado em seu etos e pathos pela poesia de Cora Coralina inserta em sua obra literária intitulada “Meu Livro de Cordel”. Assinala o espírito de Castro Alves por Chico Xavier: “É a rija bigorna, o malho,/Pelas fainas do trabalho,/A enxada fazendo o pão;/O escopro dos escultores/Transformando a pedra em flores,/Em Carraras de eleição”.

Em “Meu Livro de Cordel”, a poetisa goiana registrou o poema “Das Pedras”, cuja análise dialoga de perto com o pensamento espírita de Chico Xavier/Castro Alves em “Marchemos”. Escreveu a autora goiana: “Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim./Levantei uma escada muito alta e no alto subi./Teci um tapete floreado e no sonho me perdi./Uma estrada,/um leito,/uma casa,/um companheiro./Tudo de pedra./Entre pedras/cresceu a minha poesia./Minha vida…/Quebrando pedras e plantando flores./Entre pedras que me esmagavam levantei a pedra rude dos meus versos”.

Se no poema mediúnico o autor apresenta a transubstanciação do sofrimento em evolução espiritual, simbolizada na pedra que se transforma em flores, em carraras de eleição, através do burilamento do finíssimo mármore da estatuária clássica que emblematiza o evolucionismo espiritual, em Cora Coralina se tem um percurso em paralelo entre as pedras que se acumulam e as flores que são plantadas. À semelhança do escopro do escultor, a pena da escritora transforma as pedras do destino difícil de sua condição feminina da primeira metade do século passado em flores-pedras de versos que ergueram o edifício de sua aclamada poesia.

A repetição imagética que correlaciona pedras, flores e sofrimentos, que Cora Coralina repete de uma das fontes com que dialoga, Chico Xavier/Castro Alves, remete ao que Tania Carvalhal sugere sobre a intencionalidade que permeia a retomada de um texto, de uma imagética. Entre dar continuidade, modificar, subverter o texto antecessor, o poema de Cora Coralina parece realizar o que Tania Carvalhal sugere em “Literatura Comparada”. Ou seja, atualiza, renova e reinventa uma fonte precursora, alçando-a da condição de um verso a um poema completo com índices autobiográficos.
 
*Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO. Doutor em Letras e Linguística pela UFG. Professor do Ciranda da Arte/Seduc-GO. 

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por Gismair Martins

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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