Logo

Likes, silicone e solidão: o que os bebês reborn nos dizem sobre nós

21.05.2025 - 12:26:32
WhatsAppFacebookLinkedInX
Se você passou algum tempo nas redes sociais nas últimas semanas, talvez tenha tido a impressão de que os bebês reborn viraram um fenômeno incontrolável. Lives de “adoção”, maternidades cenográficas, influenciadores embalando bonecos em berços hospitalares. Roupinhas e mais roupinhas, acessórios sem fim. Parece que todas as mulheres do mundo resolveram adotar filhos de vinil. Mas os números contam outra história: para cada 120 bonecas vendidas no mundo, apenas uma é reborn. Ou seja, o barulho está muito, mas o mercado é modesto.
 
Essa discrepância entre visibilidade e realidade revela algo mais profundo: nossa obsessão contemporânea por narrativas emocionais que viralizam, mesmo quando o que elas dizem sobre o mundo real é, no mínimo, questionável. Segundo dados de 2024, o mercado global de bebês reborn gira em torno de US$ 200 milhões — o que representa menos de 1% do setor de bonecas em geral, que ultrapassa os US$ 24 bilhões. No Brasil, a busca pelo termo “bebê reborn” lidera no Google, mas as vendas seguem em escala artesanal, com uma loja de Belo Horizonte, por exemplo, vendendo entre 20 e 30 unidades por mês. Muitos views, poucas vendas. Muito barulho, pouca conversa.
 
Mas talvez o mais interessante não esteja nos dados de mercado, e sim no que esse fenômeno revela sobre as nossas relações. No livro Alone Together, publicado há mais de 15 anos, a pesquisadora do MIT Sherry Turkle fala sobre como buscamos em tecnologias afetivas (como robôs sociais) uma forma de preencher vazios emocionais. Não porque a máquina substitua o humano, mas porque ela oferece algo que o humano quase nunca consegue garantir: previsibilidade, ausência de conflito, conforto sob controle.
 
O que estamos chamando de “carinho” pode, na verdade, ser um sintoma de exaustão relacional. Em vez de lidar com o outro em sua alteridade, optamos por “vínculos” unilaterais, sejam com bonecos ou algoritmos, que nos oferecem a ilusão de afeto sem os custos da reciprocidade.
 
De acordo com uma reportagem publicada pelo Infomoney, cerca de 60% das compras de bebês reborn são feitas por mulheres adultas com idades entre 30 e 60 anos. Embora muitas vezes vistos apenas como brinquedos hiper-realistas, esses bonecos também são utilizados com fins terapêuticos — especialmente no cuidado de idosos com demência, com estudos indicando uma redução significativa nos níveis de agitação. Em outros casos, servem para preencher o vazio deixado por um luto, simbolizar formas de cuidado que não encontraram espaço na vida real ou simplesmente oferecer companhia.
 
Não há nada de errado em buscar conforto. Mas há algo de preocupante quando a simulação do vínculo passa a ser preferida à experiência, por mais imperfeita que ela seja. Quando cuidamos de bonecos, mas evitamos cuidar uns dos outros. Quando escolhemos conversar com IAs programadas para nos agradar, em vez de encarar a complexidade de uma escuta humana, cheia de pausas, conflitos e silêncios.
 
O alerta de Turkle segue atual: quanto mais interagimos com máquinas que parecem nos ouvir, menos nos habituamos a escutar de verdade. E quanto mais nos habituamos à performance de afeto, mais distantes ficamos do afeto real. O caso dos bebês reborn é, então, menos sobre brinquedos e mais sobre sintoma. Eles apontam para uma economia da carícia simbólica, onde o que se vende não é um boneco, mas uma fantasia de cuidado. Uma que não exige negociação, não pede tempo, não impõe conflito. A pergunta que deveríamos fazer não é “por que estão adotando bonecos?”, mas “o que está faltando para que um boneco pareça uma solução?”. A resposta, como sempre, não está no algoritmo. Está em nós.

Jullena Normando é doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), pesquisadora em Comunicação e IA e publicitária

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Jullena Normando

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

Postagens Relacionadas
Marcius Tadeu Maciel Nahur
27.01.2026
Verdade, liberdade e contemporaneidade caótica

A chamada pós-verdade existe em uma zona nebulosa, com graves riscos científicos, éticos, políticos e históricos para a vida coletiva na sociedade contemporânea. Vivemos uma era estranha e caótica, que possibilita diversas dissimulações, sem que se considere isso uma desonestidade. Ainda que se espalhem as falsidades, as mentiras, ninguém se vê ou é visto como […]

Jales Naves
25.01.2026
Colégio Pedro Gomes e a expectativa de mudanças

Surgida como povoado em 1810 e emancipada em 1907, a cidade de Campinas, em Goiás, foi incorporada à nova Capital, Goiânia, em meados da década de 1930, e se tornou um de seus principais bairros, com intensa atividade socioeconômica e política. Bairristas, os moradores de Campinas sempre trataram o bairro com deferência, tinha uma vida […]

Henrique Alckmin Prudente
24.01.2026
Educação Ambiental: a sua casa é a melhor escola

Em 26 de janeiro celebra-se o Dia Mundial da Educação Ambiental, data instituída pelas Nações Unidas na Conferência de Belgrado, Sérvia, em 1975. Esse evento estabeleceu diretrizes para que práticas voltadas à sustentabilidade global e local fossem integradas, institucionalizadas e consolidadas em todo o mundo. A Educação Ambiental envolve diferentes sistemas (culturais, econômicos, naturais, sociais) […]

Luciana Brites
24.01.2026
Gestação e alfabetização

Muitas pessoas podem achar que gestação e alfabetização são temas distintos. No entanto, há fatores na gravidez que podem influenciar diretamente no desenvolvimento do aluno. O que acontece durante essa fase pode afetar o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental da criança. Isso porque a aprendizagem começa na barriga da mãe, já que, segundo estudos, o […]

Wesley Cesa
22.01.2026
O cânhamo e o pecado da ciência

Imagine um campo onde o pôr do sol tinge de rubro as folhas de uma nova espécie de planta, uma planta que é filha da ciência e neta da desconfiança. Cada haste vermelha parece carregar uma heresia: ser planta e não ser pecado. Ela é zero THC, zero polêmica, zero prazer culposo. Só tecnologia, genética […]

Peter Panfil
22.01.2026
Potencializando a energia dos data centers na era da Inteligência Artificial

Projetos de infraestrutura flexíveis e escaláveis são cruciais para possibilitar a inovação em IA. Para que essa meta se cumpra, é fundamental que as implementações e o uso não comprometam a confiabilidade e a eficiência das operações. Plataformas de computação acelerada e serviços em nuvem estão impondo um desafio cada vez mais complexo aos sistemas […]

Lara Ferry
21.01.2026
Ser vulnerável na era da performance: por que mostramos tudo, mas revelamos pouco?

Às vezes, é desconcertante viver em um estado de superestimulação, a ponto de nada fazer mais sentido. Tantas coisas acontecem ao mesmo tempo ao nosso redor, e o mundo muitas vezes parece demais. Nessa era de superexposição social, encontro grande dificuldade em sentir intimidade com este mundo, mas vivo neste paradoxo: anseio pela minha íntima […]

Jorge Gonçalves Filho
21.01.2026
Inteligência artificial: ou entramos nesse mundo ou estaremos fora do jogo

Mais um janeiro que, em pleno inverno, Nova Iorque é invadida por brasileiros sedentos para obter conhecimento e informações sobre as tendências do varejo mundial na NRF (National Retail Federation), o maior evento do setor no mundo. De 11 a 13 de janeiro mais de 3.000 brasileiros estavam andando pelos pavilhões do Jacob Javits Convention […]