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Trincheira na Marginal Botafogo é um dos principais pontos de alagamentos em Goiânia. Foto: Reprodução - Prefeitura de Goiânia.

Levantamento nacional aponta 24 cidades de Goiás em risco de desastres no período chuvoso

Deslizamentos e enxurradas ameaçam diferentes localidades

27.12.2025 - 08:07:51
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Samuel Straioto

Goiânia – Um levantamento nacional aponta que 1.942 municípios brasileiros estão suscetíveis a desastres como deslizamentos, enxurradas e inundações durante o período chuvoso. Em Goiás, 24 cidades aparecem na lista, incluindo as três maiores do estado: Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis.

O mapeamento, coordenado pela Casa Civil da Presidência da República e pelo Ministério das Cidades, identifica os municípios mais vulneráveis a eventos geo-hidrológicos. Os dados servem para orientar políticas públicas e direcionar recursos federais para prevenção de desastres.

Goiás na lista nacional

Entre os municípios goianos classificados como áreas de risco estão as três maiores cidades do estado: Goiânia, Aparecida de Goiânia e Anápolis. Também figuram na lista Senador Canedo, Luziânia, Planaltina, Itumbiara, Formosa, Caldas Novas, Novo Gama, Uruaçu, Goiatuba, Alexânia, Goiás, Cavalcante, Petrolina de Goiás, São Domingos, Alvorada do Norte, Simolândia, Aporé, Guarani de Goiás, Baliza, Israelândia e Lagoa Santa.

O levantamento classifica os riscos em três categorias principais: deslizamentos, enxurradas e inundações. Muitos municípios enfrentam mais de um tipo de ameaça simultaneamente.

Deslizamentos, enxurradas e inundações (risco triplo): Sete municípios goianos estão sujeitos aos três tipos de desastres – Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Senador Canedo, Formosa, Luziânia e Novo Gama. Goiânia concentra o maior número de áreas de risco mapeadas no estado, com 4.260 pontos identificados. Aparecida de Goiânia tem 737 áreas, Senador Canedo 744, Anápolis 393, Novo Gama 143 e Formosa 62.

Deslizamentos e enxurradas: O município de Guarani de Goiás está classificado nesta categoria, sem ocorrências de inundações mapeadas.

Deslizamento: Apenas Alexânia apresenta risco exclusivo de deslizamentos, com 42 áreas identificadas.

Enxurradas e inundações: Dez municípios enfrentam esses dois tipos de riscos – Caldas Novas (142 áreas mapeadas), Cavalcante, Baliza, Israelândia, Itumbiara, Lagoa Santa (144 áreas), Petrolina de Goiás, São Domingos, Uruaçu (132 áreas) e Goiás (15 áreas).

Inundações: Cinco municípios têm risco específico de inundações – Alvorada do Norte, Aporé, Goiatuba, Planaltina e Simolândia. Nesses casos, não foram identificadas áreas de risco para deslizamentos ou enxurradas.

A capital goiana vivenciou na prática os riscos mapeados. No dia 6 de dezembro, uma forte chuva provocou alagamentos em diversas regiões da cidade e mobilizou equipes de resgate após um motorista ficar ilhado no viaduto da Marginal Botafogo. Foi a primeira vez que o alarme sonoro da Defesa Civil tocou para celulares em massa de moradores da capital.

Agentes de trânsito interrompendo o tráfego na Marginal Botafogo. Foto: Alex Malheiros – Prefeitura de Goiânia.

Segundo o Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), a região sul de Goiânia registrou 108 milímetros de chuva em poucas horas. O nível da água subiu rapidamente e tomou toda a pista da Marginal Botafogo, no Jardim Goiás. Além da Marginal Botafogo, a Avenida 87 também foi afetada pelo temporal.

Ao longo do mês de dezembro, os alertas de alagamento enviados aos celulares da população se tornaram frequentes. A Defesa Civil orientou motoristas e pedestres a evitarem circular pela Avenida Gercina Borges, GO-060, Avenida Leste Oeste e áreas baixas dos setores Vera Cruz, João Braz e Goiânia Viva durante temporais.

Por que municípios entram na lista

A classificação de um município como área de risco não significa que toda a cidade está vulnerável, mas indica a existência de pontos específicos onde a população está exposta a desastres naturais durante períodos de chuva intensa.

O crescimento urbano desordenado, a ocupação irregular de encostas e áreas de várzea, a impermeabilização excessiva do solo e a ausência de sistemas de drenagem adequados ampliam os riscos. Quando chove muito, a água não tem para onde ir e acaba provocando alagamentos, enxurradas ou desestabilizando terrenos.

Carlos Eduardo Santos, pesquisador da área de geografia urbana, destaca o agravamento dos eventos climáticos extremos.

“As mudanças climáticas têm intensificado a frequência e a severidade dos eventos extremos. Chuvas que antes ocorriam uma vez por década agora podem acontecer várias vezes em poucos anos. Isso exige que os municípios se preparem melhor, revejam seus planos de ocupação e invistam em infraestrutura de prevenção”, afirma.

A ocupação de áreas inadequadas para moradia representa um dos principais fatores de risco. Encostas íngremes, margens de rios, fundos de vale e terrenos com histórico de instabilidade geológica deveriam ser evitados para construções, mas muitas vezes abrigam populações vulneráveis.

Paulo Henrique Martins, urbanista com foco em drenagem e ocupação do solo, explica que a impermeabilização do solo urbano agrava os problemas.

“Quando substituímos vegetação e solo natural por asfalto e concreto, eliminamos a capacidade natural do terreno de absorver água. Toda a chuva que cai precisa escoar pela superfície, sobrecarregando sistemas de drenagem que, em muitos casos, já são insuficientes ou mal dimensionados”, explica.

Martins acrescenta que a manutenção inadequada também contribui para as ocorrências.

“Bocas de lobo entupidas, galerias pluviais subdimensionadas, córregos canalizados sem capacidade suficiente – tudo isso transforma chuvas fortes em catástrofes urbanas. A prevenção passa por planejamento, investimento em infraestrutura e manutenção constante”, avalia.

O levantamento federal revela que aproximadamente 8,9 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco mapeadas, o que representa 6% da população nacional. Os estados com maior proporção de população em áreas vulneráveis são Bahia (17,3%), Espírito Santo (13,8%), Pernambuco (11,6%) e Minas Gerais (10,6%). Goiás aparece entre os estados com população mais protegida, com apenas 0,2% dos habitantes em áreas de risco.

Monitoramento nacional

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, monitora atualmente 1.133 municípios brasileiros, o que corresponde a 20% das cidades do país e cerca de 60% da população.

Em 2024, o Cemaden emitiu 3.620 alertas de desastres, o maior número desde o início das atividades de monitoramento em 2011. Foram registradas 1.690 ocorrências de eventos, sendo 68% de origem hidrológica (enxurradas, inundações) e 32% geológica (deslizamentos).

O trabalho do órgão consiste em cruzar informações sobre mapeamentos de áreas de risco, previsões meteorológicas e dados históricos de ocorrências para emitir alertas às defesas civis municipais e estaduais. Os avisos permitem que as autoridades locais tomem medidas preventivas, como evacuação de áreas de risco e acionamento de equipes de emergência.

Recursos federais para prevenção

O mapeamento dos 1.942 municípios vulneráveis serve como base para a alocação de recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que prevê investimentos em infraestrutura urbana em todo o país.

Entre as ações prioritárias estão obras de contenção de encostas, sistemas de macrodrenagem, barragens de regularização de vazões e controle de cheias, e intervenções em cursos d’água. A seleção dos municípios para receber esses investimentos considera critérios como histórico de desastres, número de habitantes em áreas de risco e vulnerabilidade socioeconômica.

Carlos Eduardo Santos, pesquisador de geografia urbana, ressalta a necessidade de transformar o diagnóstico em ação.

“Não basta mapear o risco, é preciso agir. Isso envolve desde remoção de famílias de áreas de altíssimo risco até investimentos pesados em infraestrutura. Também passa por fiscalização rigorosa para impedir novas ocupações irregulares e por programas habitacionais que ofereçam alternativas dignas para a população vulnerável”, afirma.

Desafios para gestores municipais

A inclusão de um município na lista de áreas de risco não representa demérito, mas evidencia a necessidade de atenção específica. Gestores municipais enfrentam o desafio de equilibrar desenvolvimento urbano, proteção ambiental e segurança da população.

Paulo Henrique Martins, urbanista, avalia que a gestão de riscos precisa estar no centro das políticas públicas municipais.

“Os prefeitos precisam colocar a questão climática e a gestão de riscos no centro da administração pública. Isso significa investir em mapeamento detalhado, sistemas de alerta, planos de contingência, obras preventivas e, fundamentalmente, ordenamento territorial que impeça a ocupação de áreas inadequadas”, afirma.

O especialista reconhece que os recursos municipais são limitados. “Por isso é tão importante que os municípios estejam preparados para captar recursos federais e estaduais. Ter planos atualizados, projetos bem elaborados e capacidade técnica para executar obras faz toda a diferença”, complementa.

O levantamento federal foi publicado em outubro de 2023, com metodologia revisada que ampliou em 136% o número de municípios considerados suscetíveis a desastres em comparação com mapeamentos anteriores. A atualização considerou novos critérios e bases de dados, incluindo histórico de ocorrências entre 1991 e 2022.

Perspectivas

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima prepara um plano de prevenção e enfrentamento de eventos climáticos extremos com base na lista dos municípios mais suscetíveis. A estratégia começou a ser desenvolvida em 2023 e prevê ações integradas entre diferentes ministérios.

A frequência crescente de eventos extremos – como as chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, causando a maior tragédia ambiental da história do Brasil – reforça a urgência de medidas preventivas coordenadas em todos os níveis de governo.

Para os 24 municípios goianos na lista, o recado é claro: o mapeamento representa uma oportunidade de se antecipar aos problemas, investir em prevenção e proteger vidas. O período chuvoso é recorrente, mas os desastres não precisam ser inevitáveis.

Dicas

A orientação da Defesa Civil é que moradores de áreas identificadas como de risco adotem medidas preventivas, especialmente durante o período chuvoso. Entre as orientações estão:

Antes das chuvas: Identificar se a residência está em área de risco consultando a defesa civil municipal. Verificar se há rachaduras em paredes e muros, inclinação de postes ou árvores, e surgimento de novas nascentes de água – sinais que podem indicar movimentação do solo. Manter canais de drenagem e calhas desobstruídos. Ter um plano de evacuação e conhecer rotas seguras para abrigos.

Durante chuvas intensas: Ficar atento a avisos da defesa civil e seguir orientações de evacuação imediatamente. Não tentar atravessar áreas alagadas, seja a pé ou de carro – a força da água pode arrastar pessoas e veículos. Desligar energia elétrica se houver risco de alagamento dentro de casa. Subir para locais mais altos se necessário.

Sinais de perigo: Abandonar imediatamente o local ao perceber rachaduras crescentes, inclinação súbita de postes ou árvores, portas e janelas emperrando, surgimento de água turva em nascentes, sons de estalos na estrutura ou no terreno, ou movimentação de terra mesmo que pequena.

Muitas vezes, os moradores conhecem os sinais de perigo no seu bairro melhor do que qualquer sistema de monitoramento. É importante que essa população tenha canais diretos com a defesa civil e não hesite em reportar situações suspeitas.

Canais de emergência

Em caso de situação de risco, a população deve acionar:

  • Defesa Civil: disque 199
  • Corpo de Bombeiros: disque 193
  • SAMU: disque 192

Aplicativos de alerta da defesa civil municipal também podem ser consultados para acompanhamento de previsões e orientações específicas.

 

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por Samuel Straioto
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