Logo

Lei de proteção de dados vai mudar cotidiano de cidadãos e empresas

WhatsAppFacebookLinkedInX
12.07.2018 - 10:47:00

Brasília – A nova lei geral de proteção de dados pessoais, aprovada terça-feira (10) pelo Senado, colocou o Brasil ao lado de dezenas de países que já têm legislação sobre o tema, como as nações europeias e boa parte da América do Sul. Ao estabelecer direitos e responsabilidades, a lei vai trazer também impactos no cotidiano dos cidadãos, de empresas e dos órgãos públicos. O texto ainda precisa ser sancionado pelo presidente Michel Temer, e as novas regras só vão entrar em vigor daqui a um ano e meio. 

O texto define dados pessoais como informações que podem identificar alguém (não apenas um nome, mas uma idade que, cruzada com um endereço, possa revelar que se trata de determinada pessoa). Além disso, disciplina a forma como as informações são coletadas e tratadas em qualquer situação, especialmente em meios digitais. Estão cobertas situações como cadastros ou textos e fotos publicados em redes sociais. 

A nova regra também cria o conceito de dados sensíveis, informações sobre origem racial ou étnica, convicções religiosas, opiniões políticas, saúde ou vida sexual. Registros como esses passam a ter nível maior de proteção, para evitar formas de discriminação. Esse tipo de característica não poderá ser considerado, por exemplo, para direcionamento de anúncios publicitários sem que haja um consentimento específico e destacado do titular. Já registros médicos não poderão ser comercializados. 

Se sancionada, a lei valerá para atividades e pessoas em território nacional, mas também para coletas feitas fora, desde que estejam relacionadas a bens ou serviços ofertados a brasileiros. Um site que vende pacotes de viagens com conteúdo em português e ofertas para brasileiros teria as mesmas responsabilidades de uma página sediada no país. 

Finalidade específica e consentimento 
O uso de dados não poderá ser indiscriminado, mas para uma finalidade determinada. Um prédio que solicite nome dos pais de alguém para acesso ao local, por exemplo, pode ser questionado. Os “testes de personalidade”, como o aplicado no Facebook que originou o vazamento de dados de 87 milhões de pessoas, usados pela empesa Cambridge Analytica, inclusive para influenciar eleições, são outro exemplo. 

“As empresas vão ter de justificar o tratamento de dadosm o que pode fazer com que, em alguns casos, eles não precisem ser usados. Isso tende a racionalizar a coleta e o uso de dados, seja porque a lei pode proibir ou porque ele não vai valer a pena por gerar risco pouco razoável”, comenta Danilo Doneda, especialista em proteção de dados e consultor que participou ativamente do processo de discussão da lei. 

Além de uma finalidade específica, a coleta só pode ocorrer caso preencha requisitos específicos, especialmente mediante autorização do titular (o chamado consentimento). Ou seja, o pedido de permissão (por exemplo, ao baixar aplicativos) passa a ser a regra, não um favor das empresas. “Por um lado, caminhamos, portanto, no sentido de minimizar a produção de dados que podem ser considerados excessivos para a prestação dos serviços. O que, diante dos inúmeros incidentes de vazamento de dados que vemos a cada semana, é também uma forma de segurança”, avalia Joana Varon, da organização de direitos digitais Coding Rights. 

Se o titular consentir ao aceitar as “regras” em redes sociais, os chamados “termos e condições” usados por plataformas como Facebook, Twitter e Google, as empresas passam a ter o direito de tratar os dados (respeitada a finalidade específica), desde que não violem a lei. Contudo, a lei lista uma série de responsabilidades. Entre elas estão a garantia da segurança dos dados e a elaboração de relatórios de impacto à proteção de dados, se solicitados pela autoridade regulatória. 

A norma permite a reutilização dos dados por empresas ou órgãos públicos, em caso de "legítimo interesse” desses. Estabelece, no entanto, que esse reúso só pode ocorrer em uma situação concreta, em serviços que beneficiem o titular  e com dados “estritamente necessários”, respeitando os direitos dele. 

“Não é possível prever todas as situações, especialmente quando se trata de tecnologia. Por isso, é fundamental a previsão de uma norma fluida como o legítimo interesse, capaz de se adaptar às evoluções tecnológicas. Esse conceito indeterminado é justamente o que impedirá que a lei se torne obsoleta diante do usos novos dos dados, inimagináveis hoje”, observa Fabiano Barreto, especialista em política e indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI). 

Direitos 
De outro lado, o titular ganhou uma série de direitos. Ele poderá, por exemplo, solicitar os dados que a empresa tem sobre ele, a quem foram repassados (em situações como a de reutilização por “legítimo interesse”) e para qual finalidade. Caso os registros estejam incorretos, poderá cobrar a correção. Em determinados casos, o titular terá o direito de se opor a um tratamento. 

O titular terá ainda direito à portabilidade de suas informações, assim como ocorre com número de telefone. A autoridade regulatória, se criada, deve definir no futuro como isso será feito. Mas a possibilidade de levar os dados consigo é importante para que uma pessoa possa trocar de aplicativo sem perder seus contatos, fotos ou publicações. 

Outra garantia importante é a relativa à segurança das informações. Os casos de vazamento têm se multiplicado pelo mundo, atingindo inclusive grandes empresas, como a Uber. Além de assegurar a integridade dos dados e sua proteção contra vazamentos e roubos, as empresas são obrigadas a informar ao titular se houve um incidente de segurança. No caso envolvendo o Facebook e a empresa Cambridge Analytica, por exemplo, a empresa norte-americana teve conhecimento há anos do repasse maciço de informações, mas foi comunicar aos afetados somente meses atrás. 

A lei entra em uma seara importante, na decisão por processos automatizados (como as notas de crédito). “Há também o direito à revisão de decisões tomadas com base no tratamento automatizado de dados pessoais que definam o perfil pessoal, de consumo ou de crédito. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados também terá o papel de realizar auditorias para verificação de possíveis aspectos discriminatórios nesse tipo de tratamento”, destaca Rafael Zanatta, do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). 

O texto listou garantias específicas para crianças e pessoas com idade até 12 anos. A coleta fica sujeita a uma série de restrições, deve ser informada de maneira acessível para esse público e fica condicionada à autorização de pelo menos um dos pais. “Para as famílias, isso significa ter, finalmente, uma forma de garantir que não estão usando dados de seus filhos de forma não autorizada. Isso é fundamental. Afinal, as crianças estão em um processo peculiar de desenvolvimento e, por isso, são mais vulneráveis”, afirma Pedro Hartung, do Instituto Alana, organização voltada à defesa dos direitos de crianças e adolescentes. 

Negócios 
Ao estabelecer garantias e responsabilidades às empresas, a lei vai ter impacto importante nos negócios realizados no Brasil e com parceiras estrangeiras. A primeira mudança é que, com sua aprovação, o país passa a atender a exigências de outros países e regiões, como a União Europeia. Sem isso, as empresas nativas poderiam ter dificuldades para fechar negócios.  Na avaliação do coordenador da área de direito digital da firma Kasznar Leonardos Advogados, Pedro Vilhena, as empresas deverão passar por um processo de adaptação. Elas tendem a racionalizar a coleta, uma vez que passarão a estar suscetíveis a sanções por parte da autoridade regulatória. De acordo com o texto, as penalidades poderão chegar a R$ 50 milhões. 

“O valor de R$ 50 milhões é considerável para algumas, mas, para outras, é irrisório. A principal sanção é a proibição de tratamento de dados. Algumas empresas podem ter que deixar de operar porque não cumpriram obrigações da lei”, destaca Vilhena.  Autoridade regulatória  O detalhamento de boa parte dessas regras, direitos e responsabilidades depende da autoridade regulatória prevista no texto. Ela poderá definir parâmetros (como as exigências mínimas de segurança), realizar auditorias, solicitar relatórios de impacto à proteção de dados e será a responsável por fiscalizar e definir possíveis punições. 

Contudo, sua criação vem sendo alvo de polêmica. Segundo o professor de direito da Universidade Mackenzie e fundador da organizaçao Data Privacy Brasil Renato Leite, há questionamentos no Executivo tanto de caráter jurídico quanto político e orçamentário. Mas a não criação da autoridade, alerta o especialista, pode afetar duramente a efetividade da lei. “Termos a regra sem uma autoridade que faça a sua aplicação é abrir espaço para uma grande chance de insucesso. É o risco de ser uma lei que na prática ´não pegue´”.   (Agência Brasil)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Yuri Lopes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Suporte
01.11.2026
Goiás registra aumento de 88% nos atendimentos psicológicos a mulheres em situação de violência

A Redação Goiânia – O Centro de Referência Estadual da Igualdade (Crei), em Goiás, registrou aumento de 88% nos atendimentos psicológicos a mulheres em situação de violência nos primeiros quatro meses de 2026. Foram 363 atendimentos entre janeiro e abril, ante 193 no mesmo período de 2025. A unidade também contabilizou 156 orientações jurídicas no […]

ADVOCACIA
01.11.2026
OAB-GO celebra 38 anos da Constituição Federal e homenageia advogados constitucionalistas

A Redação Goiânia – A defesa da ordem constitucional e do Estado Democrático de Direito marcou a solenidade promovida pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Goiás (OAB-GO), por meio da Comissão de Direito Constitucional e Legislação (CDCL), em comemoração aos 38 anos da Constituição Federal de 1988. Realizado nesta semana, no Auditório Eli […]

Justiça
01.11.2026
Nêmesis: ferramenta tecnológica do MPGO assegura proteção de crianças e adolescentes contra crimes sexuais virtuais

Ludymila Siqueira Goiânia – Cabelos longos, 1,63 metro de altura, quase 14 anos. Vaidosa, gosta de estar sempre arrumada, com maquiagem no rosto, roupas novas e unhas feitas. A rotina é a mesma: acorda cedo para ir à escola, à tarde vai para o estágio e, à noite, chega em casa. O celular a acompanha durante […]

Congresso Nacional
31.10.2026
PEC da Segurança Pública deve ser votada na terça-feira (3/11)

Brasília – O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), marcou para próxima terça-feira (3) a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 18 de 2025, conhecida como PEC da Segurança Pública. De autoria do Executivo, a proposta estabelece penas mais duras e regimes de prisão mais restritos para chefes de facções e milícias e […]

Educação
31.10.2026
Senai oferece 945 vagas para vestibular 2027/1 com seis novos cursos em Goiânia

A Redação Goiânia – As Faculdades Senai Goiás abriram inscrições para o vestibular do primeiro semestre de 2027, com 945 vagas distribuídas entre Goiânia e Anápolis. A principal novidade do processo seletivo é a inclusão de seis novos cursos na Faculdade Senai Ítalo Bologna, na capital: o bacharelado em engenharia elétrica e os tecnólogos em […]

MEIO AMBIENTE
31.10.2026
Goiânia supera capitais internacionais em desempenho ambiental no ranking da Oxford Economics

A Redação  Goiânia – Goiânia conquistou a 110ª posição no indicador ambiental da edição de 2026 do Global Cities Index, ranking da consultoria britânica Oxford Economics que avalia mil cidades ao redor do mundo. Goiânia superou cidades como Nova York, Boston, Dallas e Tóquio, além de ficar à frente de 11 das 29 cidades brasileiras […]

Mudança
31.10.2026
Trânsito no entorno de cemitérios será alterado durante o Dia de Finados em Goiânia

A Redação  Goiânia – A Prefeitura de Goiânia prepara uma operação de trânsito no entorno de 5 cemitérios municipais para o Dia de Finados, celebrado na segunda-feira (2/11). O planejamento inclui interdições totais e parciais, restrições de estacionamento e equipes para orientar os visitantes nos cemitérios Santana, Jardim das Palmeiras, Parque, Jardim da Saudade e Vale […]

PREVISÃO
31.10.2026
Goiás tem alerta de tempestades para o feriado prolongado

Ludymila Siqueira Goiânia – Prepare o guarda-chuva! A previsão é de um feriado prolongado com muita chuva em todo o Estado de Goiás. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta amarelo para chuvas intensas e tempestades. Há risco de ventos fortes, que podem chegar a 60 quilômetros por hora. A umidade relativa do ar deve ficar […]